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Publicada em 08/07/2020 às 11h51. Atualizada em 08/07/2020 às 16h05

A importância dos estudos experimentais na Estomatologia

Saiba como os estudos clínicos contribuem para responder a questões relevantes na rotina do atendimento odontológico.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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O planejamento de uma pesquisa científica passa pelo delineamento, etapa fundamental para a ciência. Nesse contexto, os estudos experimentais representam uma via metodológica com finalidade de responder às perguntas clínico-epidemiológicas.  Esses estudos se caracterizam pelo estudo do fator de exposição/intervenção por parte do investigador, desde que ele esteja fundamentado em estudos contextualizados e recentes sobre o assunto abordado. Segundo a literatura, os estudos podem ser classificados como ensaios clínicos não randomizados (quase experimentais) e randomizados. 

Os ensaios clínicos randomizados (ECR) são considerados padrão ouro para análises de intervenções terapêuticas, por se tratarem de um estudo intervencionista e prospectivo, no qual os grupos têm a mesma chance de obter uma forma de tratamento para situações clínicas específicas. Esses grupos possuem características próximas à homogeneidade, o que faz com que os resultados inferidos sejam os mais fidedignos possíveis na comparação inter ou intragrupos, controlando vieses de seleção e fatores de confusão, de forma que a única diferença entre eles seja a intervenção em si mesma. Assim, o grupo tratado pode ser comparado a um ou mais grupos de controle. As desvantagens do estudo residem no custo e tempo para realização, aspectos éticos, ausência de cegamento (quando o estudo não pode ser aplicado, como, por exemplo, quando o investigador precisa conhecer a intervenção administrada para grupos específicos), realização em grupos (o que limita a generalização de dados) e possibilidade de não acompanhamento de grupos.

Os ensaios clínicos não randomizados (ECNR) são mais práticos que o ECR, a designação dos participantes não é feita de forma aleatória, e sim por conveniência do pesquisador e é utilizado quando se está tentando demonstrar a eficácia de uma nova terapêutica, de forma a evidenciar os efeitos antes e depois do tratamento. O fato de ser uma amostra por conveniência ressalta uma desvantagem do ECNR, bem como o fato de esse tipo de estudo não conseguir controlar outros fatores que podem ter ocorrido concomitantes à intervenção feita, o que pode comprometer o seu desfecho.

Aplicabilidade na Odontologia

A realização de estudos clínicos é essencial para responder a questões relevantes na rotina clínica odontológica, e seus achados devem ser capazes de embasar condutas e tomadas de decisão. Estudos clínicos, especialmente os ensaios clínicos randomizados (ECRs), demandam grande investimento financeiro, estrutural e intelectual de instituições de pesquisa e governos. Assim, é importante que sejam bem desenhados, conduzidos e reportados para que forneçam respostas claras e precisas. 

"Nos ensaios clínicos odontológicos, na maioria das vezes, o objetivo é avaliar um tipo de intervenção sobre um dente ou área da boca."

Nos ensaios clínicos odontológicos, na maioria das vezes, o objetivo é avaliar um tipo de intervenção sobre um dente ou área da boca. Esses estudos podem ser feitos alocando os pacientes em diferentes grupos ou alocando áreas da boca de um mesmo paciente em grupos, sendo estas as unidades de randomização. Nesse segundo caso, trata-se do chamado ensaio clínico do tipo Boca Dividida (“SPLIT-MOUTH”), quando um mesmo paciente recebe as duas intervenções, porém cada uma de um lado da boca, que serve como a unidade do estudo. Dessa forma, é possível constatar que a principal diferença entre os ensaios clínicos em paralelo e os ensaios clínicos Boca Dividida é que nos estudos paralelos a unidade de randomização é o paciente, enquanto nos de “SPLIT-MOUTH” (Boca Dividida) as unidades de randomização são as áreas da boca do mesmo paciente.

O primeiro relato de ensaio clínico utilizando esse modelo de estudo foi em 1968, na especialidade da periodontia, no qual os pesquisadores então compararam dois grupos: um que representava o hemiarco superior da maxila e o outro, a metade inferior da mandíbula. Desde então, esse modelo vem sendo utilizado com frequência no campo da Odontologia.

O modelo Boca Dividida é único na odontologia. Nele a boca é subdividida em unidades experimentais intrassujeito, tais como quadrantes ou sextantes, e cada participante recebe todas as modalidades terapêuticas. Podem ser destacadas algumas vantagens nesse método quando comparadas às do estudos do tipo paralelo, dentre elas, a necessidade de um tamanho amostral menor. Além disso, tal ensaio possibilita minimizar as variáveis interindividuais, uma vez que os sujeitos participantes servem como seus próprios controles e, quando presentes, interferem de igual forma nos tratamentos.

É importante pontuar algumas questões no que tange a esse modelo de ensaio, para evitar assim desfechos errôneos, como viés de resultados, recrutamento, eficiência e análise estatística. O viés de resultados está relacionado com o risco de contaminação de uma área para outra quando da aplicação dos tratamentos. O recrutamento é considerado uma dificuldade, já que é necessário que o indivíduo apresente o mesmo padrão de doença nos quadrantes ou sextantes a serem avaliados.

É de suma importância que o pesquisador tenha conhecimento das implicações de cada tipo de delineamento, analisando todas as variáveis pertinentes a cada ensaio e saiba escolher qual deles conseguirá fornecer melhor custo-benefício e resultados significativos à sua pesquisa.

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