podcast do isaúde brasil

Publicada em 11/08/2020 às 16h47. Atualizada em 11/08/2020 às 16h54

A intolerância à dor existencial

Estamos mais tristes e deprimidos ou menos preparados para a dor própria de existir?

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A existência nos proporciona momentos de prazer, alegria e conquistas, mas também, experiências de dor. Observa-se, na atualidade, que o número de pessoas que busca psicólogos, psiquiatras e outros especialistas, relatando sintomas de depressão, é bastante expressivo. O consumo de antidepressivos é altíssimo e, frequentemente, pessoas são medicadas desnecessariamente. 

Estamos mais tristes e deprimidos ou menos preparados para a dor própria de existir? Talvez, mais importante do que responder a esta pregunta, seja refletir sobre as nossas reações emocionais e atitudes diante do sofrimento psíquico.

A experiência da dor é vivenciada por cada um de uma forma singular, tendo em vista a sua história, idiossincrasias, ambiente familiar e social, dentre outros aspectos. Muitos são acometidos por quadros severos de depressão, e, de fato, necessitam de prescrições de medicamentos para que possam realizar as suas atividades diárias. Contudo, é fundamental discernir a tristeza da depressão. A tristeza é um sentimento tipicamente humano que experimentamos ao longo da vida por razões diversas. O que se observa, no entanto, na atualidade, é uma fragilidade para suportar a dor e o sofrimento que são intrínsecos à existência. 

Somos cobrados a todo instante a sermos felizes a qualquer preço, como se as dores próprias do existir estivessem censuradas ou em desuso. Não existe lugar para a tristeza. Não se trata de apologia ao sofrimento, porém são os desafios diários que nos tornam mais fortes emocionalmente para superar as adversidades.

"...são os desafios diários que nos tornam mais fortes emocionalmente para superar as adversidades."

Muitos pais tentam, imaturamente, evitar que seus filhos experimentem qualquer decepção ou frustração, impedindo-os de crescerem emocionalmente. As escolas encontram dificuldades para impor limites aos alunos, pois este tipo de atitude não é aceito por muitos pais, especialmente na rede particular de ensino. Estamos diante de uma geração de jovens mimados, inseguros e desmotivados.

Os empregados têm direito a um tempo ínfimo em caso de falecimento de parentes e precisam retomar as suas atividades, “restabelecidos”, como se a morte de alguém a quem amamos fosse algo banal. Postam-se fotos sorridentes nas redes sociais ainda que se esteja mergulhado em tristeza. As relações são efêmeras, pois estamos cada vez mais intolerantes a qualquer coisa que não corresponda às nossas expectativas.

Existe uma afirmação atribuída a Freud em que ele diz: “fui um homem afortunado; nada na vida me foi fácil”. É provável que muitas pessoas se identifiquem com isso e vejam como algo positivo. De fato, o excesso de facilidades não é estimulante e não capacita o indivíduo para as tribulações. 

Temos exemplos de superação extraordinários, porém a resiliência, que é a capacidade de nos adaptarmos e superarmos as adversidades, é desenvolvida ao longo da vida à proporção que enfrentamos os desafios que se apresentam para nós, sem fugas. Precisamos olhar para as nossas feridas abertas. Sentí-las. Somente desta forma poderemos sublimá-las e transformá-las em aprendizagem e recomeço.

Palavras Chave:

tristeza depressão resiliência
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