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Publicada em 30/07/2020 às 15h34. Atualizada em 30/07/2020 às 15h41

A saúde do homem no contexto da Covid-19

Questões biológicas e comportamentais levam o homem a um risco maior de fatalidade diante do coronavírus. Entendo o porquê.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Homens morrem mais do que mulheres por coronavírus. Esse é um fato demonstrado em estatísticas ao redor do mundo. Inicialmente, imaginava-se que era por causa da idade, sendo homens mais idosos e, portanto, mais propensos à morte. Contudo, dados demonstram que as mulheres vivem em torno de seis anos mais que os homens e, sendo assim, predominam na população de idosos. Logo, outras causas deveriam ser imputadas.

O homem é biologicamente diferente da mulher. Possui um cromossoma X e um Y, enquanto a mulher possui dois cromossomas X. O fato de haver cromossoma Y, faz com que os testículos se formem e o homem produza um hormônio chamado testosterona. As mulheres têm ovário e produzem estrógeno. Há evidências de que a testosterona pode estar associada a mais doenças cardiovasculares e que o estrógeno, de certa maneira, agiria como protetor. 

Além disso, o homem é mais propenso à hipertensão arterial. Outra diferença biológica é a imunidade. O sistema imune da mulher parece ser mais capaz de combater vírus e bactérias do que o do homem, por razões ainda não bem esclarecidas. Portanto, um maior risco a doenças cardiovasculares e um sistema imunológico menos capaz, por si só, poderiam influenciar na mortalidade aumentada nos homens com Covid-19.

Entretanto, a biologia pode não ser o principal fator. Pela Organização Mundial da Saúde, homens procuram assistência médica cerca de quatro vezes menos que mulheres. Esse dado transcende aos aspectos biológicos e nos remete ao âmbito cultural. Homens, historicamente, eram cobrados a não demonstrarem sinais de fragilidade. Ditos populares como “homem não chora” moldaram o comportamento masculino por séculos. O termo viril era sinônimo de força e poder. 

Esse papel de gênero, de certa maneira, aprisionou o homem num modelo que é prejudicial. Não somente pelo machismo que advém, mas fez com que ele adquirisse hábitos e comportamentos de risco que são extremamente prejudiciais à saúde. Por exemplo, homens fumam mais e são mais propensos ao alcoolismo do que mulheres. Homens são mais negligentes com exames periódicos e tendem a aderir menos que as mulheres a programas de prevenção de doenças. Outro dado importante é que a pressão social faz com que o homem cometa mais suicídio do que as mulheres. A ideia do “homem provedor” reforça o estereótipo e aumenta a pressão social.

A tão chamada atualmente masculinidade tóxica não afeta somente as mulheres, mas também os próprios homens. A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) tem utilizado o Novembro Azul para propagar a necessidade de o homem cuidar de si. Lançaram então a campanha “Seja herói da sua própria saúde”. Um exemplo desse descuido com a própria saúde é a elevada incidência de câncer de pênis em nosso meio, que poderia ser combatida apenas com a higiene do órgão genital. Lembremos que, apesar da mudança que vem acontecendo com maior oportunidade de trabalho às mulheres, homens ainda predominam como provedores da casa e o receio do desemprego ou redução da remuneração podem ser razões para o medo de hospitalização e de se evitar ir ao médico.

É nesse contexto que deve ser encarada a maior mortalidade em homens com Covid-19. Uma possibilidade de menos resistência cardiovascular e sistema imune menos reativo, mas muito provavelmente um retardo maior a procurar assistência médica. Sabe-se que essa assistência precoce, quando há dificuldade respiratória, é primordial e um atraso na busca por ajuda pode ser fatal. Importante conscientizar a população masculina que cuidar da própria saúde é um ato de amor, não somente a si próprio, mas a todos que amamos.

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