podcast do isaúde brasil

Publicada em 06/05/2020 às 17h12. Atualizada em 06/05/2020 às 21h34

A terceirização dos cuidados com as crianças em tempos de pandemia

Com o isolamento social que solicita às pessoas que fiquem em casa, o convívio entre pais e filhos é intensificado. Como lidar com essa situação de forma saudável?

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A terceirização do cuidado das crianças vem desde os tempos da escravidão, quando, inclusive, havia amas de leite. Para além desse contexto, avós já fizeram, e fazem ainda, o papel de cuidadoras tanto quanto as babás. Em tempos de metas e exigências de produção e consumo, em que se vive atualmente, as prioridades atropelam a vida privada e familiar e, em meio a essas exigências, a criação/educação das crianças apresenta-se como um desafio, sendo a terceirização um recurso bastante requisitado. 

A terceirização encontra-se fragmentada, sem uma costura que integre os cuidados da criança, pondo em risco o processo de antecipação psíquico, tão caro ao processo de constituição psíquica desse sujeito, ainda em formação. Assim, a criança prossegue recortada por distintos olhares: é a professora do reforço escolar, é a fonoaudióloga, a psicopedagoga, a babá, o professor de futebol, o mestre do karatê... Os pais, tomados e perdidos pelo trabalho, visando a produção e o consumo, nem sempre conseguem realizar uma síntese de todas as informações recebidas pelos diferentes atores envolvidos no processo de terceirização de cuidados do seu filho. Ademais, as telas funcionam como babás eletrônicas, ofertando distintos estímulos, alterando funcionamentos psíquicos que nem mesmo os pais sabem quais. 

Com o advento da pandemia pelo coronavírus, uma mudança radical se impôs: as crianças, em prol da saúde, passaram a permanecer em suas casas, com os seus pais. Nesse novo contexto, os pais trabalham em home office, ou em ritmo habitual ou até em ritmo mais intenso (a exemplo de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e jornalistas). Acrescenta-se a esse panorama a responsabilidade pelas atividades de casa que vão desde a limpeza, até a preparação de alimentos, demandando tempo e habilidades que nem sempre dispõem. Além disso, as escolas passaram a funcionar em sistema de homeschooling, exigindo acompanhamento dos pequenos estudantes na execução das atividades propostas. Diante de tantas atribulações, indaga-se como a terceirização do cuidado acontece quando as escolas estão fechadas, as atividades físicas e recreativas estão suspensas, as babás incluídas no isolamento social e os avós afastados (incluídos no grupo de risco por serem idosos)? 

Caberia aos pais, nesse momento: rever prioridades e trabalhar em outro ritmo? Revezar na família os cuidados das crianças, atividades de casa e trabalho? Entreter e envolver as crianças com os tabletes, smarthphones e televisões, intensificando a utilização dos eletrônicos (cujo controle se fazia desafio para muitas famílias, antes do período atual)? Sem dúvidas as telas conseguem atrair as crianças que, com clichês ou movimento dos dedos, conseguem acessar e visualizar diferentes programas, conteúdos e imagens em poucos segundos com uma oferta excessiva e veloz de estímulos para darem conta com os recursos simbólicos que dispõem.

Terceirizar os cuidados não é o que está em discussão, mas a forma como ela acontece. Há como ter equilíbrio das obrigações e prioridades ou fazer escolhas diferentes, quando há compromissos profissionais e econômicos envolvidos? Seria tempo de flexibilizar regras e limites das crianças? Ou por outro lado, é uma oportunidade de rever as prioridades e cuidar mais de perto e com mais qualidade dos filhos?

O cuidado das crianças na quarentena é vivido e exercido por cada família de modo único e singular. Há quem esteja curtindo essa oportunidade de estar ao lado e junto das crianças, há quem já fazia esse cuidado próximo e de qualidade. Há, ainda, quem não consegue, e não conseguirá se desconectar de suas obrigações e se dedicar às crianças.  A compreensão do lugar que essa criança ocupa na família ou para um dos pais também irá decifrar a relação que se estabelece com essa criança.

"O que vale a pena é compreender o que funciona para cada família, tentar avaliar sua relação com os eletrônicos, bem como a qualidade da terceirização dos cuidados"

O que vale a pena é compreender o que funciona para cada família, tentar avaliar sua relação com os eletrônicos, bem como a qualidade da terceirização dos cuidados (que quanto mais fragmentada maior os riscos para a organização psíquica das crianças). Presenciamos nos consultórios um excesso de patologização do comportamento infantil. Muitas vezes, esses denunciam desdobramentos da sociedade neoliberal que, em nome da produção, do consumo e do avanço/progresso do capitalismo, acaba por normalizar o uso excessivo dos eletrônicos pelas crianças (ao tempo que também lucra com esse consumo) e impõe um ritmo acelerado às crianças, futuras mantenedoras do sistema através de excesso de atividades que devem desenvolver para atenderem ‘bem’ às demandas sociais (fato relacionado à fragmentação do cuidado terceirizado). 

Com o isolamento social e com o convívio dos membros da família intensificado, uma série de situações novas (ou até antigas, mas não devidamente observadas) se fazem presentes. Ser pai e mãe, diante de novos desafios não pode ser pautado em cartilhas, já que o exercício das funções materna e paterna dizem respeito à subjetividade de cada sujeito, e assim, os cuidados e a educação oferecidos à criança são atravessados pelo modus operandis de cada pai e mãe.  Esse pode ser, também, um momento de cada um se (re)conhecer diante das demandas intensificadas. 

As crianças podem estar mais elétricas, irritadas, inquietas e demandantes, afinal suas rotinas mudaram e estão tentando compreender o que está acontecendo com elas e com o seu entorno. A energia demandada para cuidar delas é da ordem do real. Re(conhecer)-se diante desses atuais desafios, pode não ser simples para os pais, ainda mais em tempos de crise. Mas não poderia ser essa uma oportunidade de fazer diferente diante do cuidado com as crianças? 

 É tempo de inventar, se reinventar, ainda que não seja em situação de escolha. O contexto é imposto, mas pode ofertar uma possibilidade de se fazer diferente. Vislumbrar limites e possibilidades do lado dos pais e das crianças... Momento de redimensionar expectativas e apostas. Respeitar os lutos do que se perdeu. Mas é também momento de dar vasão à construção de saídas criativas e inventivas. As respostas aos desafios, sustentadas pelo amor (já que toda demanda é, em última instância, demanda de amor), podem se constituir em possibilidades de refazer laços, reduzir excessos, pensar no que verdadeiramente importa. A ferramenta ou o instrumento propulsor de enfrentamento e mudança é, e será sempre, o desejo. E é esse desejo que impulsiona a cada um de nós para a vida. 

Referências:

Referência: Baptista, A; Jerusalinsky, J. Intoxicações eletrônicas: o sujeito na era das relações virtuais. Editora Ágalma, 2017. 

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