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Publicada em 26/05/2020 às 11h25. Atualizada em 27/05/2020 às 08h58

Autodestruição em tempos de pandemia da COVID-19

Confira a segunda parte do artigo “Busca-se humanidade, encontra-se pandemia”.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Leia a primeira parte do artigo: Busca-se humanidade, encontra-se pandemia

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Os horizontes começam a se eclipsar. O comércio continua, por sua vez, com a comercialização da saúde, alimentação e higiene. As condições básicas e necessárias para assegurar a vida tornaram-se submersas às leis restritas do mercado em crise de parar. Em consequência, os comportamentos individualistas tornam-se característicos em detrimento do coletivo. Sofremos com a crise do álcool em gel nas farmácias e extenuam-se compulsivamente os suprimentos dos supermercados. O capitalismo transformou o homem em produto que, atrelado ao neoliberalismo, não reflete, apenas reproduz passos que o levam cada vez mais para a barbárie (Freud, 1996). 

Na sociedade do desempenho e produção regida pela lógica de funcionamento pós-disciplinar, a produção de identidade e subjetividade é reduzida à lógica produtivista-positivista. O sujeito da sociedade que se resume às estruturas de funcionamento do desempenho e produtividade tem suas subjetividades/singularidades atravessadas pelas tecnologias como mecanismo de liberdade, avanço da ciência, em que a ciência e a tecnologia são instrumentos libertadores na medida que vão se tornando alienantes para o homem. A forma de vida dos sujeitos do desempenho é a de produzir, cada vez mais, um ciclo de produtividade que, concorrendo consigo mesmo, procura superar a si mesmo até sucumbir, nunca alcançando um ponto de repouso da gratificação. O homem ganha liberdade em nome de autonomia para empreender a si próprio, para desenvolver a habilidade de autoprodução, autodisciplina e autossuperação, numa exaltação dos indivíduos que se arrastam no cotidiano produtivo realizando múltiplas tarefas (Foucault, 1987; Deleuze, 1992; Han, 2015).

Ele se encontra atravessado pelas mudanças socioeconômicas e psicossociais como políticas de proteção que reduzem a disseminação do vírus para proteção da população, especificamente para o controle da disseminação da Covid-19 e suas implicações, que respingam no sistema da saúde, em consequência na vida e gradualmente no mundo. Política essa que se limita nomeadamente à elite brasileira, chegando a alguns setores da classe média.  Alguns estados autônomos, indústria e alguns setores do campo do trabalho, contrariando a solicitação restritiva do Governo Federal, aderiram ao distanciamento/isolamento social como principal intervenção de medida profilática. 

Com a perda de local (espaço e tempo) de trabalho, para avançar com o modelo de trabalho em casa, “home office”, uma realidade para parte da população brasileira, em sua maioria classe média, o indivíduo subjetivado pelo autoprodutivismo se confronta com a ausência de alteridade entre trabalho e casa. As barreiras físicas (estruturais e subjetivas) em que o trabalho está associado à produtividade e a casa ao descanso, lazer e pausa, se unificam. 

À vista disso, o “homem office” é sobrecarregado a desempenhar sua condição de multitarefa no conforto da sua casa. Regido pelo excesso de trabalho e pela expectativa de autodesempenho, agudiza-se numa autoexploração unificada e sem barreiras estruturais que definiam, com alteridade, a separação entre a casa e o local de trabalho. Os recursos tecnológicos globalizados, que antes eram opcionais, passam a ser prisões restritivas quando se tornam únicas possibilidades, somadas a todos os fenômenos em contexto de crise, geram sensação de cansaço, angústia/ansiedade, somatizações no corpo, podendo evoluir para adoecimento. 

Analisando os efeitos do poder disciplinar subjetivo para entender sua vida sob o viés produtivista-consumista, ajustado sob o molde “home office” de trabalho em casa, compreendemos que a não produtividade, gerada pelo ciclo de subjetivação do sistema, que condiciona o homem neoliberal ao autotrabalho, à autoeficiência e à autoprodutividade, se transforma em sentimento de autoculpa, angústia e ansiedade, estando a cada “auto” mais próximo da autodestruição, autoineficiência e autoadoecimento de “si mesmo”. E o consumo atua como autocompensação frente ao sentimento de esvaziamento subjetivo, somatizado na mente ou corpo, formando-se, de forma coletiva, em sociedade da ansiedade, angústia e cansaço (Bauman, 2009; Han, 2015). 

Em contrapartida, as favelas e os cidadãos em extrema situação de vulnerabilidade social e invisibilidade político-econômica permanecem a sobreviver às vicissitudes do acordar sem condições básicas para existir, sofrendo com seus contratos e possibilidade de sobrevivência, sendo ameaçados por um novo vírus que reforça estruturas sociais de um lugar de não importância da vida. Uma guerra fria que afeta a população negra, pobre, LGBTQI+ e, atualmente, também a população idosa. Sem trabalho de carteira assinada ou ameaçados por políticas de privatização que lhes retiram o direito de isolamento social, essas pessoas continuam a comercializar suas vidas em serviços públicos lotados, horas de trabalhos exaustivos e sem nenhuma proteção contra a fome, aumento do valor do recibo de luz e água ou  qualquer política pública que assegure o existir frente a tantas outras adversidades. Preocupar-se com a pandemia ocasionada pelo coronavírus ressoa como trivial (Bourdieu, 1989; Bourdieu, 2001; Calhau, 2016; Daltro & Barreto, 2020). 

Esse jogo de desigualdade ocorre em tempo integral, de forma obsessiva, em todas as instâncias,  em que a vida para a classe média se reduz ao ciclo “produzir para consumir” e para a população em maiores condições de vulnerabilidade se erradica no ciclo do “produzir para sobreviver” (Foucault, 1987; Bourdieu, 1989; Deleuze, 1992; Bauman, 2009). Tais novos ventos pandêmicos levam-nos a passos preocupantes em cenários alarmantes, e o excesso imperativo começa a causar efeitos ao homem contemporâneo. Os ideais de funcionamento do homem do consumo da ética do suficiente-insuficiente tornam-se adoecedores (Weber, 2006; Han, 2015; Ferraro, 2019).

Este artigo não tem o objetivo de fazer juízo de valor sobre o capitalismo neoliberal, tampouco sobre o cenário político-econômico do mundo. Espera-se que, a partir da reflexão, sejam abertos novos horizontes nos permitindo outros olhares e, com isso, seja alterado o sentido das coisas. 

A pandemia, mais que uma problemática de saúde pública no mundo, é um paradigma que confronta o homem enquanto ser (existência) subjetivo em contato com o mundo. Atravessado pela lógica econômica, colhemos os frutos da supervalorização do dinheiro em detrimento da vida.  Incutindo o mercantilismo de forma a comercializar a vida, subjetivando o sujeito a competir entre si, sobrepondo o coletivo. 

"A pandemia, mais que uma problemática de saúde pública no mundo, é um paradigma que confronta o homem enquanto ser (existência) subjetivo em contato com o mundo."

A Covid-19 tornou-se um microrganismo ameaçador de um adoecido sistema que se resume em produzir para consumir, incitando a concentração de capital de forma a criar desigualdades sociais. Do macro ao microssistema aprendemos com políticas de enriquecimento pessoal por via de exploração/corrupção até estoque de álcool em momento de crise. Desestabilizando as configurações que alicerçavam o que era regra para o viver.

O assujeitamento do humano em detrimento do sistema evoluiu-se a passos tão largos que a preocupação é com os efeitos pós-pandemia à humanidade. O surto na saúde deu aquiescência para o homem exercer o narcisismo em forma de violência, alteridade no cancelamento (exclusão) ao outro e falta de tempo para viver (pensar) a própria vida. 

Vivemos, não de agora, em crise, sobrevivendo a um dia de cada vez, confrontados, cada vez mais, com o risco da morte, no mundo da urgência, do extremismo e das violências contra as minorias. Vivemos sobrecarregados com a excessiva tarefa da multifuncionalidade que se tornou a vida. E as prisões tecnológicas, que antes eram optativas, passam a ser uma opção restritiva, excessiva e adoecedora. 

Viver em isolamento social têm perdas significativas para seres sociais, mas também traz consigo oportunidades de modificar estruturas de funcionamento introjetadas como verdades absolutas na sociedade. O viver em recolhimento social, movimento contrário do sistema, permite a ressignificação do olhar em direção à forma que se quer viver a vida, sem ter como único modelo de funcionamento o “Homo Economicus”. 

Dessa forma, muito além de ser uma doença que coloca ao homem o limite entre a vida e a morte, o coronavírus nos confronta a pensar no que de fato é essencial para a vida, atravessados pelo paradoxo do “Homo Contemporâneo Capitalista” de que na vida sem dinheiro não existe garantias de condições básicas/necessárias de vida. Entretanto, com este preocupante cenário, reflete-se do que serve o dinheiro se não existir vida. E numa sociedade adoecida pelo cansaço e medicalizada para a produtividade, o remédio “isolamento social” caminha a passos largos na direção contrária ao sistema que prega que não é produtivo parar. 

Se viver não tem sido fácil, e o horizonte começa a eclipsar cada vez mais no planeta Terra, reflitamos sobre os efeitos do vírus dentro de um quadro socio-político-econômico-cultural. A preocupação corre para os efeitos do isolamento social na saúde mental/física da população. Mas a verdade é que a sociedade enfrenta um processo de adoecimento há muito tempo. Os sentimentos de solidariedade, empatia e equidade, característicos do humano, tornam-se escassos, da mesma forma que falta álcool ou álcool em gel nos supermercados. Haja vista, discutido em seus capítulos diários, vemos em grandes jornais a ansiedade e angústia perante o risco da morte. Em formato de angústia, medo ou negação, somos acometidos pela emoção e o sentimento de luto coletivo. Seja pela perda física ou subjetiva que a situação de pandemia nos impõe como novas configurações de viver a vida. As incertezas que a vida revela nos criam instabilidades pessoais e singulares, mas no confronto com o novo também surgem outras formas e possibilidades. Este momento é oportuno para que percebamos que somos seres individuais, mas também, fazemos parte do coletivo. 

A partir dessa reflexão, espera-se que o sentimento de tristeza frente a esse assustador cenário possa nos levar futuramente uma consciência transformadora, equitativa e empática. Num mundo construído por guerra, é urgente o despertar para a humanidade.  Espera-se que este eclipse seja da mais curta duração possível e que seus rastros não sejam irreparáveis à humanidade. 

Referências:

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Bourdieu, Pierre. (2001). Sobre o poder simbólico. In: BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Trad. Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

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