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Publicada em 02/06/2020 às 14h20. Atualizada em 02/06/2020 às 14h31

Como a mucosite oral interfere na qualidade de vida do paciente com câncer de cabeça e pescoço

Entenda o que é a mucosite, complicação que afeta 80% dos pacientes submetidos à quimioterapia em altas doses.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A mucosite oral é uma condição inflamatória decorrente do tratamento oncológico. Essa complicação ocorre em 80% dos pacientes que recebem quimioterapia em altas doses, em até 100% dos pacientes que recebem radioterapia para câncer de cabeça e pescoço e em aproximadamente 20-40% daqueles que recebem apenas quimioterapia.

A mucosite pode aparecer de 3 a 15 dias após início do tratamento radioterápico em câncer de cabeça e pescoço e normalmente é caracterizada como uma área de vermelhidão que em seguida é substituída por regiões de ulceração recobertas por pseudomembranas. Elas podem se apresentar de forma generalizada ou localizadas e frequentemente são colonizadas por bactérias.

A incidência, intensidade e duração da mucosite oral geralmente estão associadas a vários fatores envolvidos com o tumor, como a dosagem de irradiação, o fracionamento (quando a dose total de tratamento é fracionada ao longo do tempo de forma a permitir o reparo de células normais ao longo do tempo) e volumes (volume englobado por uma dose escolhida pelo radioterapeuta como ideal, que engloba o tamanho do tumor e as possíveis invasões locais) do tratamento, e relacionados ao paciente, como a má higienização oral, a falta de suporte odontológico e outras comorbidades. Outro fator que contribui para o surgimento e agravamento do quadro é a xerostomia, sensação de boca seca, devido a uma redução do fluxo salivar e aumento da viscosidade da saliva que leva a uma perda de lubrificação dos tecidos e repercussões negativas para o indivíduo.

"O paciente que apresenta um quadro de mucosite oral geralmente tem sua qualidade de vida diminuída porque essa condição tem sido reconhecida como um dos efeitos adversos mais debilitantes durante a terapia contra o câncer de cabeça e pescoço..."

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), qualidade de vida é a percepção do indivíduo de sua inserção na vida, no contexto cultural e do sistema valores nos quais é de seu convívio em relação aos seus objetivos, expectativas e preocupações. Envolve o bem-estar de espírito, físico e mental, além do relacionamento social e de outras circunstâncias da vida. O paciente que apresenta um quadro de mucosite oral geralmente tem sua qualidade de vida diminuída porque essa condição tem sido reconhecida como um dos efeitos adversos mais debilitantes durante a terapia contra o câncer de cabeça e pescoço. Alterações no bem-estar físico, funcional e psicossocial tem sido cada vez mais comuns e reconhecidas como impactantes no estado de vida geral do sujeito. 

O desconforto e a dor associados a essa condição podem ser tão intensos, que acabam prejudicando significativamente funções orais básicas do indivíduo, como a fala, mastigação e deglutição dos alimentos. Para muitos pacientes, não conseguir se comunicar direito, assim como apreciar uma comida e não ser capaz de aproveitá-la é extremamente angustiante e pode impactar de forma negativa na qualidade de vida.

Em situações mais severas, a dor presente na mucosite oral pode levar a ingestão reduzida de alimentos e líquidos, levando à perda de peso corporal, desnutrição, desidratação e aconselhamento para nutrição enteral. Essa condição pode, ainda, evoluir para o internamento, interrupção da terapêutica e, por conseguinte, prolongamento do tempo de tratamento. Todas essas mudanças físicas resultam em alterações na aparência e no estado emocional do paciente. Consequentemente, muitos casos de mucosite oral podem levar ao isolamento social e à redução do bom estado geral da saúde e da qualidade de vida.

"Outro achado que pode repercutir diretamente na vida de pacientes com mucosite oral é o distúrbio do sono."

Outro achado que pode repercutir diretamente na vida de pacientes com mucosite oral é o distúrbio do sono. Essa anormalidade pode acontecer devido a intensa dor oral e a dificuldade em deglutir uma saliva que se encontra mais viscosa e espessa podendo provocar aspiração e tosse. Essas manifestações podem levar ao desenvolvimento de insônia e alterações de humor e, por conseguinte, influenciar no desenvolvimento de transtornos de ansiedade e depressão.

Diante de todos os desafios físicos e funcionais que o paciente com mucosite oral tende a enfrentar, é comum o aparecimento de uma tensão psicológica durante a presença dessas lesões. Questões como a maior dependência de alimentos líquidos ou pastosos, os efeitos relacionados às disfunções orais e as alterações na aparência provocam diminuição da capacidade de lidar com a condição. 

Posto isto, estudos indicam que a mucosite oral foi fortemente associada a problemas físicos e psicológicos, o que levanta a necessidade de uma terapia adequada e precoce. Sendo assim, para o paciente oncológico, o cuidado com a boca é a principal recomendação para fins preventivos e para reduzir a incidência e gravidade da mucosite oral. Ações com objetivo de impedir a infecção loco-regional e sistêmica, controlar a dor e manter a funções orais (nutrição, hidratação e fala) influenciam na redução dos efeitos colaterais do tratamento oncológico e melhoria da qualidade de vida do paciente com câncer de cabeça e pescoço.

Por isso, devido ao seu impacto significativo, essa complicação exige uma maior sensibilização e reconhecimento da equipe multiprofissional em oncologia, garantindo uma avaliação completa do paciente durante todo o período terapêutico. Uma equipe que se mantém unida, tem como intuito alcançar os objetivos comuns dos resultados oncológicos, preservar ou restaurar a função e aliviar o sofrimento. Dessa maneira, medidas adequadas são tomadas e implementadas em tempo hábil com a melhor chance de um resultado favorável e repercussões menores para a qualidade de vida.

Referências:

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