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Publicada em 25/04/2020 às 07h14. Atualizada em 06/05/2020 às 16h41

Como a odontologia atua no tratamento de pacientes de câncer?

Cuidados odontológicos têm papel relevante nos tratamentos complementares principalmente de pacientes com câncer de cabeça e pescoço.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A oncologia é uma especialidade médica que trabalha em favor do acompanhamento e tratamento dos variados tipos de câncer que acometem o indivíduo. O serviço oncológico pode ser encontrado nos setores públicos de saúde, sendo a Unidade de Alta Complexidade em Oncologia – UNACON, um dos tipos de serviço público que tem como objetivo oferecer o cuidado especializado e integral ao usuário no tratamento do câncer, desde a definição do diagnóstico até o tratamento final.

Para um atendimento integral à pessoa com câncer, a UNACON dispõe de diversos profissionais em suas especialidades específicas, a fim de garantir qualidade de vida dos indivíduos frente a um tratamento exaustivo e que está associado a inúmeras intercorrências. A odontologia, por exemplo, é uma das especialidades que complementa a interdisciplinaridade do serviço oncológico, oferecendo seus serviços voltados para os efeitos adversos orais perante os variados tipos de tratamentos oncológicos.

Os cuidados odontológicos na oncologia têm papel relevante nos tratamentos complementares aos pacientes com câncer de cabeça e pescoço, diante dos frequentes efeitos colaterais que acometem a cavidade oral. Contudo, a atuação da odontologia não está limitada apenas a tumores de cabeça e pescoço, mas também está associada à terapia oncológica, seja ela radioterápica, quimioterápica ou por transplante de medula óssea, quando as complicações orais podem surgir. Por isso, cuidados odontológicos antes, durante e após a terapia oncológica são necessários para que terapia oncológica não se prolongue e para que seja alcançada a eficácia do tratamento. 

"Os cuidados odontológicos na oncologia têm papel relevante nos tratamentos complementares aos pacientes com câncer de cabeça e pescoço, diante dos frequentes efeitos colaterais que acometem a cavidade oral."

Transplante de células hematopoiéticas

O transplante de células hematopoiéticas é um tipo de terapia para as neoplasias onco-hematológicas. A imunossupressão é uma das etapas para a realização do transplante e ocorre por meio da infusão de quimioterápicos altamente citotóxicos, levando à manifestação de alterações na cavidade oral. Dessa forma, antes de ser submetido ao transplante de células hematopoiéticas, o paciente precisa ser avaliado pela equipe de Odontologia, a fim de realizar adequação do meio bucal contra infecções orais ativas e controle de condições crônicas que possam evoluir para um estado agudo, como lesões crônicas de cárie que podem passar para lesões endodônticas. 

O cirurgião-dentista também atua no acompanhamento durante a mieloablação, que compreende a supressão severa de glóbulos vermelhos e brancos, bem como nas etapas subsequentes que compreendem o transplante e a recuperação da capacidade imunológica do indivíduo. Portanto, a identificação de doenças bucais no momento inicial pode impedir possíveis agravos em estágios mais complexos do tratamento oncológico.

Terapia de radiação

A terapia de radiação é uma das principais opções de tratamento para tumores sólidos na região de cabeça e pescoço. É uma terapia que consiste na ação direta de radiação ionizante na área do tumor e pode estar associada a outros meios de tratamento, comumente à quimioterapia. O foco da radiação, antes de tudo, deve ser delimitado para que ela seja direcionada de modo a poupar áreas saudáveis e minimizar toxicidades agudas e tardias. 

Antes que se inicie a radioterapia, a adequação do meio bucal deve ser realizada com o objetivo de eliminar possíveis focos de infecção, visto que a realização de procedimentos eletivos não é recomendada durante e, até mesmo, após o tratamento oncológico. 

A radioterapia tem caráter acumulativo na área irradiada e, além disso, possui graus de toxicidade que se manifestam em forma de consequências clínicas, durante e após a finalização do tratamento. Com base nesse conhecimento, os procedimentos odontológicos devem ser evitados ou realizados com cautela após a finalização do tratamento, uma vez que o osso local se encontra menos vascularizado, celularizado e oxigenado, poupando, assim, a condição mais preocupante: a osteorradionecrose nos ossos maxilares.

Quimioterapia

A quimioterapia é uma modalidade que combina diversos fármacos que atuam no controle da proliferação de células tumorais. O uso dessas drogas antineoplásicas implica toxicidade das células da mucosa oral, resultando em efeitos adversos na região bucal. 

Como em qualquer outro tratamento oncológico, o ideal é que os procedimentos odontológicos sejam realizados antes da terapia, a fim de diminuir as chances de infecções. Porém, o paciente sob uso exclusivo da quimioterapia pode receber atendimento odontológico, desde que haja conferência do plano de tratamento quimioterápico e solicitação de exames complementares, a exemplo do hemograma completo, para confirmar a possibilidade de alterações nas populações celulares do sangue periférico.

Os três tipos de terapia oncológica abordadas relacionam-se a desordens orais que afetam diretamente na qualidade de vida do paciente. Dentre as alterações mais comuns durante o tratamento oncológico, a mucosite oral é uma das manifestações mais conhecidas e esperadas, e é capaz de provocar dor, dificuldade de higienização oral e, até mesmo, redução da capacidade de alimentação. Todos esses efeitos colaterais estão associados à redução do volume e alterações na qualidade da saliva. 

Nas terapias de transplante e radioterapia na região de cabeça e pescoço, a glândula salivar sofre disfunções que estão associadas a sintomas, como xerostomia (boca seca) e hipossalivação. A redução na qualidade da saliva – rica em células de defesa e anticorpos –, pode favorecer a instalação de infecções fúngicas, em decorrência da imunossupressão promovida pelas terapias a que os pacientes são submetidos durante o tratamento contra o câncer. A presença dessas infecções fúngicas é descrita como sensibilidade oral, sensação de queimação, dificuldade para se alimentar (disfagia) e alteração no gosto dos alimentos (disgeusia). Além da infecção fúngica, é comum o desenvolvimento de infecções virais e bacterianas nos pacientes oncológicos. Nesse contexto, o papel do cirurgião-dentista é fundamental, ao atuar na prevenção e nos cuidados paliativos desses efeitos adversos.

Em decorrência da hipossalivação associada ao dano nas células dentárias (odontoblastos), a cárie de radiação é um acometimento tardio no paciente pós-irradiado em região de cabeça e pescoço. Outra toxicidade tardia da radioterapia, que afeta diretamente os ossos maxilares e que deixa de ter meios próprios de cicatrização, é a osteorradionecrose. Clinicamente o paciente pode apresentar dor, fístulas e sequestros ósseos. Dentes em más condições, trauma, doença periodontal e exodontias tornam-se grandes fatores de risco para a instalação da osteorradionecrose. O acompanhamento desses indivíduos pós-radioterapia deve ser realizado para que os efeitos tardios sejam minimizados.

É mister que a equipe de odontologia no serviço oncológico tenha condutas que reduzam quaisquer fatores de risco que o paciente com câncer venha a manifestar na cavidade oral. Além disso, a equipe odontológica deve disponibilizar meios para prevenir efeitos colaterais e oferecer o suporte adequado durante a manifestação desses sintomas. Por fim, o paciente submetido ao tratamento oncológico precisa ser avaliado periodicamente no pós-tratamento, com vistas à redução de danos e melhoria de sua qualidade de vida.

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Palavras Chave:

câncer odontologia oncologia
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