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Publicada em 04/04/2020 às 13h12. Atualizada em 06/04/2020 às 07h58

Como a perspectiva machista qualifica o corpo da mulher

Confira a segunda parte do artigo sobre a imposição do padrão de magreza no corpo da mulher.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Na primeira parte do artigo, as autoras apresentam alguns conceitos construídos por meio de uma visão androcêntrica que coloca a mulher como um objeto, enquanto o homem é colocado como um sujeito. Esse corpo objetificado ganha também expectativas que visam corresponder a um padrão estético imposto.

Por que alguns corpos são mais reconhecidos do que outros na esfera da aparência?  A filósofa americana Judith Butler chama a atenção para o fato de que as normas sexuais e de gênero delimitam quais corpos serão ou não legíveis nesse contexto. Essas normas são construídas no interior da perspectiva patriarcal, machista e misógina, delimitadas pelo contexto social, histórico e cultural. São expressadas nos corpos e em suas práticas de constituição de gênero e de vivências das sexualidades, e as pessoas que não se encaixam nelas, como as que não pertencem ao ideal de corpo magro, estão mais susceptíveis a sofrer violências sociais. Há, como exemplo, o fenômeno da gordofobia, o qual se configura como um intenso gerador de sofrimento psíquico e físico na vida de pessoas gordas.

Outro aspecto que merece destaque e se relaciona com a construção do corpo feminino, exposto na literatura, é a discussão sobre as Modalidades Enunciativas ou do Discurso, de Foucault (2008). Estas delimitam os lugares dos indivíduos que discursam na rede de poder, sendo eles: quem fala, de onde fala, porque fala e para quem fala.  O discurso, para o sociólogo, sempre é constituído nas relações sociais e, portanto, se relaciona aos lugares sociais das mulheres e da mídia hegemônica na atualidade, a qual valoriza o ideal de corpo magro.

O discurso é formado por diversas instâncias, como a fala, os atos, a escrita, as imagens, as práticas individuais e sociais e, até mesmo, as conversas cotidianas. Sendo assim, as imagens da mídia hegemônica participam da rede dos discursos. Para a professora de letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Alvanita Almeida Santos, o discurso deve ser pensado para que haja reflexão em como são constituídas as representações sociais dos indivíduos.

O relevante no discurso é a sua forma e não o seu conteúdo. Assim, o mais importante é o lugar de fala do emissor e não o sentido de seu discurso. Este lugar é o formador das relações de poder entre os indivíduos, pois gera hierarquizações entre eles. O discurso também produz verdades e estas participam da qualidade de vida ou da ausência dessa qualidade para os sujeitos.

A partir dessa perspectiva, pode-se pensar sobre o lugar do discurso médico na relação com a pessoa gorda, onde, na maioria das vezes, ela é patologizada e medicalizada em nome da SAÚDE. Enquanto isso, o médico ocupa o lugar de detentor da verdade sobre o corpo do outro no contexto social das relações de poder.  Estes fatores podem contribuir para a valorização do ideal de magreza na atualidade, contexto no qual o corpo gordo é relacionado a doenças e a um indesejável modo de ser, reiterado pelo discurso médico e pelo senso comum.  A forma do discurso pode ser compreendida também como o modo de ser, de se vestir e a representação social que cada sujeito possui. Pessoas que têm corpos que se encaixam ao ideal de beleza provavelmente têm seus discursos e verdades validados com maior frequência por seu meio social do que as pessoas que se diferenciam desse modelo.

"Segundo pesquisadores, a mídia hegemônica é um dos principais meios de produção de discursos com o objetivo de manter as mulheres no agenciamento de seus desejos e no controle de seus corpos ..."

Segundo pesquisadores, a mídia hegemônica é um dos principais meios de produção de discursos com o objetivo de manter as mulheres no agenciamento de seus desejos e no controle de seus corpos para permanecerem dentro do ideal de corpo valorizado e para que seja possível naturalizar esse modelo de beleza, além de querer preservar os lucros da INDÚSTRIA cosmética. Isso ocorre, pois, as tentativas em manter-se magra são rodeadas por rituais, como dietas, cirurgias plásticas, excesso de idas à academia para manutenção dos exercícios físicos, dentre outros métodos.

Analisando o papel da mídia hegemônica na relação das mulheres com o ideal de beleza vigente, percebe-se que a publicidade atual mostra às mulheres expectadoras os valores sociais existentes e os que surgirão num futuro próximo, apresentando a elas modos de elas se sentirem felizes, amadas, reconhecidas e realizadas. Isso é justificado, pois a mídia associa a obtenção de determinados produtos cosméticos à realização dos desejos femininos, à felicidade, alegria e realização pessoal, como se os produtos pudessem trazer essas qualidades subjetivas à vida das mulheres. Busca também favorecer o consumo dos produtos divulgados nas imagens publicitárias por meio da identificação das mulheres expectadoras com as modelos, pois essa mídia traz valores culturais nessas imagens e os associa às modelos. Dessa maneira, os comportamentos das mulheres são influenciados pelos atos das modelos, devido às representações sociais, que detêm os valores culturais divulgados. Isso, consequentemente, participa do processo de socialização feminina e, portanto, a identificação é facilitada.

Os corpos fotografados pela publicidade hegemônica possibilitam a transmissão de códigos culturais, habitus da sociedade contemporânea, tornando-se mecanismos de interação social e de favorecimento ao surgimento de comportamentos nas expectadoras, como o do consumo. Ainda, a imagem representa algo que está ausente no presente. Ela promove e circula as representações sociais, condicionando modos de ser e estar no mundo, possibilitando o surgimento de novas representações sociais e cristalizando habitus na conduta social. A mídia hegemônica pode, então, incentivar as mulheres a seguirem o padrão de beleza, já que suas modelos possuem, em grande parte, corpos que se encaixam ao ideal de corpo magro da atualidade.

No contexto sócio-histórico do surgimento da mídia hegemônica, até a década de 1950, as mulheres buscavam alcançar, ao máximo, o ideal de beleza da época, com a intenção de adquirir posição social e casamento, por estarem incluídas em uma sociedade patriarcal, machista e misógina, que influenciava o seu modo de viver. Nesse período, a publicidade midiática se apropriou da imagem e das representações sociais femininas, divulgando-as de avental e sujas devido ao trabalho doméstico. Já na década de 1960, com a ascensão do movimento feminista, a mídia hegemônica começou a divulgar a imagem feminina sempre limpa com a finalidade de mostrar o potencial dos produtos comercializados que poderiam deixá-la sempre atraente, porém com maior comodidade e praticidade em sua vida diária.

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