podcast do isaúde brasil

Publicada em 12/05/2020 às 14h05. Atualizada em 12/05/2020 às 15h30

Como ficam as crianças em tempos de pandemia?

É importante abordar o assunto com os pequenos. Recursos simbólicos adequados a cada faixa etário podem contribuir na conscientização.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Não há dúvidas de que não estamos diante de uma quarentena, mas de quarentenas. Cada pessoa e família tem as suas realidades e dinâmicas de relação, possibilidades e limites - a começar pelo espaço físico de que dispõem e da qualidade de laço afetivo pertinente a cada situação. Se para os adultos não é simples compreender que há um vírus que impossibilita a continuidade da rotina, imagine para as crianças?

Covid-19, coronavírus, vírus, bichinho pequeno ou qualquer outro nome que possa ser usado, o importante é falar com as crianças sobre o que está acontecendo. Cada faixa etária contará com recursos simbólicos diferentes para compreender a pandemia, mas é importante falar sobre o que acontece com as crianças, para que além de ver e concluir, elas possam ter o tempo de compreender. As possibilidades de lidar com os informes são distintas, em cada etapa da vida, uma vez que a cognição vai se desenvolvendo pouco a pouco e, no curso da infância, ocorrem saltos qualitativos na maneira da criança lidar com o conhecimento. Assim, os recursos utilizados para ajudar a criança a compreender as ameaças invisíveis, a que ela está sujeita, vai depender de qual momento do seu desenvolvimento a criança se encontra. O pensamento mágico é muito frequente na criança pequena (começa a aparecer com o início da linguagem e vai até quatro anos e meio mais ou menos, sendo os cinco e os seis anos uma fase de transição quando ela começa a ter a capacidade de operar concretamente, diante dos desafios a que está convocada). 

"O uso dos recursos simbólicos de imagens, desenhos, histórias ou experimentos para ilustrar o que é o vírus é válido para que não se crie um bicho papão a que temer." 

O uso dos recursos simbólicos de imagens, desenhos, histórias ou experimentos para ilustrar o que é o vírus é válido para que não se crie um bicho papão a que temer. Quanto menor é a criança, mais esses recursos servirão de suporte para que ela possa absorver as informações que se quer passar. É importante que não seja transmitido um número grande de dados. Deve-se, pouco a pouco, ir passando os conhecimentos necessários, ao tempo em que haja a possibilidade de abrir espaços para possíveis questões emergentes. 

Saber como a criança assimilou o que foi dito é muito importante, pois muitas vezes, pela especificidade do seu desenvolvimento cognitivo, as informações podem sofrer alterações – a lógica da criança pequena é indutiva, ou seja, vai do particular ao particular.  Assim, responder a questionamentos e falar algumas vezes de diferentes formas sobre o mesmo assunto podem ajudar a elaboração na etapa da infância. 

Crianças pequenas possuem um nível de fantasia ainda elevado; o pensamento animista característico da fase do desenvolvimento que se inicia com a linguagem e vai até os quatro anos e meio mais ou menos, leva-as a ‘dar vida’ às coisas e a ver o mundo segundo a sua percepção. Dessa maneira, ela pode imaginar, enquanto se desloca em um carro, por exemplo, que a lua no céu está seguindo-a. Ou pensa que existem casinhas de bichinhos nos moldes da sua casa. Nessa fase, a distância entre realidade e fantasia, verdade e mentira é muito tênue. Mentiras, invenções ou arranjos factuais com meias verdades devem ser evitados em qualquer etapa da vida, mas essa, em que a possibilidade de discernimento ainda é incipiente, principalmente.

Por sua vez,  as crianças que têm uma possibilidade de operar mais concretamente com as informações, depois dos seis anos e meio mais ou menos, podem elaborar mais facilmente as explicações embasadas em exemplos transponíveis para o concreto. Mas, apesar disso, deve-se evitar invadir o mundo da criança com informações desnecessárias, ou que tenham densidade emocional, como dados estatísticos de óbitos, sociais e econômicos gerados pela pandemia. 

Sem dúvidas, é difícil lidar com a ideia de não poder brincar no parquinho, de não poder visitar os avós, de não dormir na casa do primo, da impossibilidade de abraçar um amigo que está fazendo aniversário e não pode comemorar... O campeonato de futebol que estava marcado e não poderá acontecer ou a viagem da escola que estava marcada e foi adiada. O espaço físico está limitado, a higienização das mãos e objetos precisa ser ainda mais criteriosa e repetida. O bico que cai no chão, não deve ser colocado na boca; o dedo que limpou o pedaço de chocolate que caiu não deve ir à boca (coisas que não devem nunca acontecer, mas nesses tempos, então!). São demandas específicas para funcionamentos cognitivos específicos. Assim, dispor de recursos adequados para cada etapa do desenvolvimento, favorecerá o estabelecimento de um espaço de trocas entre os pequenos e os seus pais e/ou cuidadores. 

Paciência, criatividade, conversa clara e franca e o lúdico são ferramentas possíveis de usar com as crianças que se ama. As respostas e as ações com amor devem conseguir, ainda que com dificuldades, enfrentar o isolamento ou melhor o confinamento. As redes sociais, o eletrônico e a internet podem aproximar pessoas, permitir que netos vejam avós, que aniversários sejam comemorados e aulas aconteçam à distância. Nesse sentido, podemos considerar que o distanciamento social pode ser diminuído, uma vez que as pessoas estão conectadas, virtualmente, umas às outras. Mas, também, é valido refletir sobre o excesso de exposição das crianças aos eletrônicos em tempos em que não há escolas funcionando, os locais coletivos de entretenimento de condomínios e ruas não devem ser usados, não há aulas de ballet, futebol ou natação, que as babás estão cumprindo, também, o seu confinamento e que os pais precisam trabalhar presencialmente (médicos, enfermeiros, caixas de supermercado, profissionais de farmácia ou posto de combustível) ou os outros pais que estão em home office, lives e reuniões intermináveis - já que o virtual atravessa e invade barreiras físicas e temporais.  

"O cuidado de exposição às telas deve ser, particularmente, criterioso com crianças que se encontram em uma etapa em que a cognição está principalmente sustentada pela experiência sensório motora." 

O cuidado de exposição às telas deve ser, particularmente, criterioso com crianças que se encontram em uma etapa em que a cognição está principalmente sustentada pela experiência sensório motora.  Essa etapa da vida, que se estende até os dois anos e meio mais ou menos, antecede à fase do pensamento mágico, já mencionada. É quando a criança ainda está desenvolvendo uma série de aquisições que lhe possibilitarão, paulatinamente, apreender o mundo que a cerca: desenvolverá noção de objeto, estando, a partir de várias experimentações capaz de identificar o que é o corpinho dela e o que é o corpo de outrem; objetos desaparecidos; desenvolverá a capacidade de imitar, de falar, reconhecerá sua imagem no espelho... São possibilidades que dependem da interação direta com quem cuida dela, com quem identifica suas necessidades, com quem lhe oferta alimentos e palavras. 

Não há manuais de boas práticas de como lidar com as crianças em tempos de pandemia, mas cada um pode e deve inventar e se reinventar, enquanto pais e família, para que tenhamos crianças menos impactadas subjetivamente ou emocionalmente pelas limitações e mudanças de socialização, exploração dos espaços e dinâmicas familiares.

Referências:

Piaget, Jean. Seis estudos de Psicologia. 25ª edição. Editora Forense Universitária, 2012. 

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