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Publicada em 01/06/2020 às 09h39. Atualizada em 01/06/2020 às 09h54

Confinamento: a poética da escrita como caminho de enfrentamento do isolamento

Confira mais um texto produzido para aplacar angústias em tempos de pandemia.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A experiência de confinamento e isolamento social desafia todos e todas a circularem em espaços que insistem em não nos fazer caber. 

Neste texto, discutimos como a produção textual pode expandir as possibilidades de enfrentamento de uma experiência marcada pela angústia. 

A vivência de confinamento pela ameaça real de morte é o que vivemos no momento, seja em decorrência da COVID-19, do nosso frágil sistema de saúde, seja pela vulnerabilidade política entranhada no país, experiência inequivocamente produtora de angústia, ao que Clarice Lispector anuncia:

Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. Ou não e confessar nem a si próprio. Ou não ser o que realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem suficiente de ter angústia – e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai (Jornal do Brasil, 25 de nov. de 1972).

A experiência de isolamento social parece realçar, com marcadores de tinta neon, essa dimensão inevitável de existir, amplificando a experiência de solidão. Inspirados em Clarice, discutimos aqui como o encontro com a palavra poética se desenha como caminho de ressignificação da experiência:

Os dias parecem os mesmos, os textos também. A monotonia que era cotidiana em minha vida se tornou o meu próprio lar. Nada acontece aqui. É como estar encarcerado em uma cela brasileira, mas aqui o sol entra para me lembrar que é hora de acordar.

Levantar forçadamente da cama, tomar café, brigar com familiares, chorar e dormir a tarde inteira.

Durante o dia pensamentos produtivos rodam a minha cabeça, me chamando para pintar, dançar, malhar e cantar. Eles são tentadores, mas raramente eu respondo ao chamado. Deixo os pensamentos guardados no fundo da cabeça, para, talvez, mais tarde, quem sabe, tentar atendê-los.

Fracasso total. Termino meu dia acordando às 10:00 horas da noite com uma energia estranha, que me seduz para a cozinha na tentativa de devorar a casa inteira. Mas não tenho fome, o estômago ronca, mas a boca seca me faz enchê-lo de água.

Volto para o quarto com o copo cheio d'água. O clima é seco. Olho pela janela e nem o vento se atreve a passar.

Pode-se observar que o sujeito confinado vai se escrevendo e inscrevendo em um cotidiano esvaziado de sentido, de potência, mas as palavras vão assumindo o lugar de protagonismo, e o sujeito simultaneamente sofre a ação de suas palavras, faz delas, ato de afetação. O texto vai passando a existir com sentido. Mostra Eduardo Caminha em movimento, se surpreendendo pelo que surge de novo sobre si em seus escritos, enfrentando estranhezas, dúvidas e vazios, sua história. Palavras são sempre histórias.

Podemos então testemunhar a criação, transformando, deslocando, palavras que escapam ao confinamento.  

Tento lembrar quantos dias se passaram, mas a memória já não é a mesma.

Por fim, deito na cama com um desejo no peito de querer me entreter com algo novo. Na Netflix, os mesmos filmes, as mesmas séries. Na estante, livros que nunca toquei, mas que pretendo ler um dia. Penso uma, duas vezes em me levantar para agarrar um. Fracasso.

Me pego olhando para o celular, pela milésima vez no dia, rolando o feed no Instagram, me irrito com as selfies repetitivas das pessoas que não conheço.

Verifico o relógio com a esperança de que um ano já tenha se passado, mas ainda são 10:00 horas da noite.

Pensamentos de ansiedade invadem a minha cabeça, atividades online que ainda não fiz, lista de planos futuros rodopiam em meu cérebro, pessoas queridas que não respondem minhas mensagens. 

Enlouquecido me revirando na cama, tenho ideias melancólicas, pensamentos que invadem minha cabeça como espíritos me chamando para a morte. 

Seus remédios estão ali

A janela não tem grade

Seu cadarço está em cima da mesa

Giletes, facas e tesouras

Compre uma carteira de cigarro, fume todos os cigarros de uma vez

Eu só quero que isso acabe!

Eu choro de desespero, queria que meu cérebro parasse. 

Eu tô tão cansado.

Em lugar de ato, em lugar da morte, a poética, a estética, as metáforas, a liberdade de existir, o vírus não pode nos alcançar.

O ato na criação poética é um ato de coragem para enfrentar a dor, o vazio, e a estranheza, algo que se realiza semelhante ao brincar, onde se inventa, onde algo surge e afeta o corpo, palavras, promovendo escutas. Em lugar de gritos de socorro, a beleza emerge anunciando um existir, uma experiência ambígua em viver, que demanda dor, beleza, esforço, risco... onde vida e morte existem como movimento.

Eu repito mentalmente.

Eles são insistentes, mas o meu medo e a teimosia são maiores. Tomo a dose normal, diária, do meu sonífero poético, poesia..., e o sono vem lentamente enquanto olho para a tela do celular.

Adormeço esperando não acordar, mas algo me diz que esses dias serão mais frequentes por agora e que eu preciso me acostumar. Não sei até quando isso vai durar, não sei até quando eu vou durar.

Mas a poesia sempre seguirá em mim, além de mim 

Me libertando...

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