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Publicada em 06/08/2020 às 17h07. Atualizada em 06/08/2020 às 17h18

Depressão e Covid-19: pandemias para elaboração

Medicalização ou psicoterapia? Será que a fuga da dor é o caminho mais seguro para tratar a depressão nos tempos de pandemia?

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A experiência do tempo na pós-modernidade se assemelha à experiência da velocidade. A pandemia da Covid-19, que assolou o planeta, nos fez frear o ritmo frenético que estávamos vivendo: “Não adianta correr tão rápido pro precipício”, alertou a Maria Homem (2020). A pandemia interrompe o nosso caminho e nos impõe uma série de privações, sem a gentileza de perguntar se estávamos preparados para lidar com isso. 

A OMS (2017) aponta que o número de casos de depressão aumentou em 18% entre 2005 e 2015 no mundo e, no Brasil, atinge 11,5 milhões de pessoas, ou seja, cerca de 5,8% da população. Se incluirmos a ansiedade, são mais 18,6 milhões, ou seja, mais 9,3% dos brasileiros. Esses números já indicavam que precisávamos indagar o que os transtornos depressivos têm a nos dizer. A chegada da pandemia então colocou um grande palco com refletores nessa questão.

Em uma sociedade em que a performance é um ideal regulador da subjetividade, predomina uma crença absoluta na droga como instrumento terapêutico da pós-modernidade por excelência. A droga é um tamponamento, onde todos os letreiros apontam: “compre”, “goze muito”, para tamponar a sua falta. A psicopatologia, com isso, não reconhece os indivíduos acometidos de perturbações do espírito como sendo singularidades, oportunidades de autoconhecimento e elaboração.

A pandemia nos impôs um distanciamento social, ou seja, mais um longo e indeterminado período de isolamento. Ao coibirmos o nosso movimento, passamos a duvidar da nossa liberdade. O vírus invisível preenche todas as ruas, coloca você em casa e faz perguntar: quem é você? O poderoso invisível vírus SARS-CoV-2 impõe-nos outra forma de estar no mundo. Como então nos colocamos diante dessa perda? Podemos suportar essa falta e viver essa nova realidade?, questiona a psicanalista Maria Homem (2020).

"Para as pessoas que manifestaram sintomas próprios da ansiedade, foi permitida e incentivada a elaboração ou a medicalização foi ainda mais utilizada?"

Esse período de introspecção convida a aprender a lidar com o “si mesmo”, com as relações e com o planeta. Para as pessoas que manifestaram sintomas próprios da ansiedade, foi permitida e incentivada a elaboração ou a medicalização foi ainda mais utilizada? Torna-se válida uma reflexão diante da instabilidade que o cenário da pandemia nos oferece, antes de considerar recorrer levianamente à sedutora, instantânea e acessível oferta de medicamentos.

“Estava agitada esses dias, sem conseguir dormir direito, liguei para o psiquiatra e ele me falou para dobrar o remédio” – esse relato foi extraído recentemente de uma paciente com histórico de depressão, em um grupo terapêutico. Grupo, on-line; consulta no psiquiatra, idem. Tão rápido, preciso, indolor, que tornou desnecessário investigar aqueles sintomas.

Uma marca da psicopatologia na pós-modernidade é a funcionalidade, o corpo é tratado como máquina. Com a medicalização, perde-se de vista a dimensão positiva das inquietações, que são positividades estruturantes, momentos privilegiados na ordem simbólica, devendo essa dimensão ser reconhecida para ser restaurada. O que seria uma oportunidade de acesso a essa positividade simbólica do sintoma para a psicologia, a psiquiatria não reconhece (Birman, 2002).

A tristeza, o desânimo e qualquer manifestação de dor parecem intoleráveis em uma sociedade que aposta na euforia como valor agregado. A tristeza é vista como uma deformidade, um defeito moral. Ao patologizar a tristeza, perde-se um importante saber sobre a dor de viver. “Vivemos em uma sociedade antidepressiva, tanto no que se refere à promoção de estilos de vida e ideais ligados ao prazer, à alegria e ao cultivo da saúde quanto à oferta de novos medicamentos no combate das depressões”, escreve Maria Rira Kehl, na obra “O tempo e o cão: a atualidade das depressões” (2015).

As drogas poderiam demolir os terrores humanos como num passe de mágica, sem qualquer trabalho psíquico do sujeito. Birman (2002) define o uso das drogas como o silenciamento da história de uma existência, com o qual elimina-se a singularidade do sujeito, isentando-se de preocupações com as dimensões do desejo e da liberdade.

Voltando ao livro “O tempo e o cão: a atualidade das depressões”, Maria Rita Kehl analisa os pacientes que procuram a psicanálise, pois eles já não suportam o empobrecimento da vida anterior, produzido pelo uso prolongado do antidepressivo. Os medicamentos levam o usuário a um estado crônico de desafetação sem dor, mas também sem desejo. Sem sentir a depressão e também mais nada. O que se divulgam são novos métodos diagnósticos capazes de detectar os menores sinais de distúrbios depressivos. “Assistimos assim, a uma patologização generalizada da vida subjetiva, cujo efeito paradoxal é a produção de um horizonte cada vez mais depressivo”, acentua a autora.

A negação é um recurso natural de organização psíquica para lidarmos com o que não conseguimos entender ou suportar. Somos animais simbólicos, marcados pelo desamparo e finitude, impulsionados pelo desejo, e não suportamos perder. É possível que se escolha não acreditar na devastação dos efeitos do vírus, mas, mesmo assim, tomar um ansiolítico para dormir, por conta de um incômodo não identificado. Negar e resistir à pandemia é o que Birman (2002) caracteriza como um desejo de debelar para sempre essas marcas da condição humana. Abolir a morte e o sofrimento é desafiar os deuses e tentar dominar a natureza com a sua razão.

É sugestão da Maria Homem (2020) a prática da coexistência, a ideia de que somos sujeito e o outro também, de que você só pode fazer o que todos podem. Ela nos convida a entrar em uma interlocução, uma espécie de combinado com uma base moral e ética que nos faz suportar que o outro exista e deseje ao mesmo tempo que nós, pra que todos possamos existir.

Ao contrário de tudo que nos é vendido, aceso, informado e imposto na contemporaneidade, um recurso é deixar a mente, que é a oficina do eu, esvaziar-se e sustentar esse vazio. Homem (2020) fala desse espaço que vai  deixar você existir, lembrar, chorar e resistir. “Se desacelerarmos a nós mesmos, a gente vai fugir menos e saber para onde ir” - infere a psicanalista. Segundo ela, não tem como o irreal não incidir sobre o sujeito, não tem como não transformar. Para isso, é preciso entrar em contato e poder viver o medo, ressignificar a morte e, com ela, a vida. Quando adentramos na escuridão, o insight vem na relação, no instante “entre”. E esse insight é solitário. Nesse espaço, é possível descobrir o que está acontecendo, é uma chance de escutar, pois, além do eu (do ego), há uma subjetividade gritante. Portanto “sofra, sustente a dor” (Homem, 2020). A dor é necessária para a elaboração de algo novo. Aquilo que não pode ser sentido, também não pode ser organizado, nomeado e elaborado – a receita que faz com que tiremos aprendizados valiosos para a nossa existência. 

"É tempo de baixar os ideais, fazer o que é possível, e fazer diferente. É uma época muito poderosa, pois temos a chance de reinventar a realidade."

A criatividade humana é o caminho para a saída. Cada um vai ter a sua estratégia de lidar com a angústia, de criar o novo e maneiras interessantes de viver. É tempo de baixar os ideais, fazer o que é possível, e fazer diferente. É uma época muito poderosa, pois temos a chance de reinventar a realidade. Já que este impensável se tornou possível, por que não protagonizarmos outros?

Há muito a ser elaborado, são vários campos mexidos e, no caso de um afogamento em temores, é preciso reconhecer e pedir ajuda. A medicalização deve ser feita em casos críticos, quando avaliada e indicada por um médico psiquiatra. Se não for o caso, a psicoterapia pode servir como um firme bote salva-vidas para a condução a um novo continente. Onde quer que se encontre o sujeito à deriva com a sua angústia, é lá que o analista deve ir buscar a expressão significante de seu sofrimento. No entanto, enquanto haja fôlego e uma maré favorável, talvez você deva tentar fazer essa travessia sozinho(a) e assim aumentar a capacidade dos seus pulmões. 

É preciso acreditar que, com essa oferta de desaceleração do tempo, com a oportunidade do autoconhecimento, a prática da coexistência, a resiliência e a criatividade, permitiremos renascer uma comunidade capaz não só de enfrentar a Covid-19, mas também as principais causas de sofrimento psíquico dos seres humanos na contemporaneidade. 

Referências:

Birman, Joel. Relançando os dados: a psicopatologia na Pós-Modernidade, Novamente. In: O (Im)Possível Diálogo Psicanálise Psiquiatria. São Paulo: Via Lettera Editora e Livraria, 2002.

Kehl, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2015.

Homem, Maria (2020). Uma análise da pandemia com a psicanalista Maria Homem. Vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=WsyPqrPA5tg&feature=youtu.be

OMS - Nações unidas no Brasil (2017). Disponível em: 

https://nacoesunidas.org/oms-registra-aumento-de-casos-de-depressao-em-todo-o-mundo-no-brasil-sao-115-milhoes-de-pessoas/

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