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Publicada em 02/09/2020 às 06h05. Atualizada em 02/09/2020 às 06h33

Diagnóstico e tratamento do câncer durante a pandemia de COVID-19

Órgãos estimam entre 50 a 90 mil pacientes sem diagnóstico e tratamento para câncer em todo o país.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A rápida expansão da epidemia de COVID-19 tem afetado diversos aspectos da vida cotidiana, incluindo acesso, oferta e organização do sistema de saúde. Neste novo contexto, profissionais de saúde e pacientes compartilham o temor da contaminação pelo novo coronavírus em ambientes de clínicas e hospitais, o que significa também a criação de obstáculos para o diagnóstico e tratamento do câncer. 

Em meados de março, quando foram confirmados os primeiros casos da COVID-19 no Brasil e as medidas de isolamento foram adotadas, serviços eletivos de saúde foram suspensos, tendo sido mantidos apenas atendimentos de urgência, emergência e serviços essenciais. Desde então, nota-se a heterogeneidade da administração da pandemia entre os estados, mesmo não havendo redução significante nas taxas de contaminação no país como um todo. Diferentemente de outros países, onde se observou desaceleração da pandemia após poucos meses, no Brasil esta crise parece se estender, contrariando as previsões de controle das transmissões feitas pelos técnicos em saúde.

A retomada de serviços e exames eletivos, no entanto, está prevista para acontecer à medida que houver desaceleração na curva de contaminação. Até que isso aconteça, recomenda-se que apenas os serviços essenciais e procedimentos de urgência permaneçam sendo ofertados, especialmente porque grande parte dos recursos — financeiros e humanos — têm sido realocados para hospitais e unidades de saúde como medida de controle para a COVID-19. Ademais, o isolamento social se mantem como medida de proteção primária mais indicada para evitar o contágio pelo novo coronavírus. 

Até o momento, dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) e da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) estimam entre 50 a 90 mil pacientes sem diagnóstico e tratamento para câncer em todo o país, indicando uma queda drástica nos números em comparação com o mesmo período do ano anterior. A preocupação em evitar a contaminação pelo SARS-CoV-2 não deve ser maior que o receio em postergar o combate ao câncer. 

Em função do prolongamento da pandemia, é possível que em alguns meses haja um acúmulo de novos casos de câncer, que serão diagnosticados em estágios mais avançados. Põe-se em evidência, então, a necessidade de viabilizar estratégias que permitam minimizar a exposição dos pacientes ao novo coronavírus e não adiar o tratamento, de modo a reduzir outros efeitos negativos para o paciente e demandas mais complexas para o sistema de saúde, quando houver a retomada plena dos serviços.

Para fins de segurança, devem-se pesar os riscos e benefícios de cada decisão a ser tomada. Vale ressaltar, ainda, que o tratamento contra o câncer é imunossupressor e os pacientes em tratamento quimioterápico e/ou radioterápico estão mais susceptíveis a infecções e a contrair uma forma mais severa da COVID-19.

Com isto, para cada caso se deve priorizar uma conduta diferente com base em uma abordagem multiprofissional, de forma individualizada e de acordo com a progressão da pandemia em cada região. 

Os pacientes oncológicos em atendimento devem ser agrupados de acordo com uma classificação de risco, dentro de grupos de pacientes em rastreamento, pacientes em tratamento, acompanhamento e casos de urgências e emergências. 

No grupo de pacientes assintomáticos e em baixo risco, mas sob avaliação periódica para o rastreamento de câncer, as consultas e exames eletivos podem ser adiados. Em contrapartida, o diagnóstico precoce está associado a prognósticos mais favoráveis contra o câncer e o adiamento por alguns meses, até que se observe redução segura nas taxas de contaminação por SARS-CoV-2, é um risco adicional frente à possibilidade de contaminação pelo vírus. Com o retorno de alguns serviços eletivos, é aconselhável manter o contato com a equipe de saúde a fim de discutir e viabilizar quais medidas seguras e efetivas devem ser adotadas para este grupo de pacientes em fase de diagnóstico.

Para os pacientes que já finalizaram ou estão em acompanhamento periódico pós-tratamento, a comunicação com a equipe multiprofissional é necessária e imprescindível para esta etapa. Em caso de urgências ou complicações, a equipe deverá estar preparada para atuar conforme o que for necessário. O recurso do teleatendimento está em ampla discussão e regulamentação para que seja viabilizado o atendimento remoto. A Portaria Nº 467, de 20 de março de 2020 do Ministério da Saúde permite a prática de atendimento assistencial à distância para casos de consulta, monitoramento e diagnóstico, desde que em caráter excepcional e temporário, tendo sido assegurada a emissão de atestados ou receitas médicas em meio eletrônico, conforme as normas específicas.

No grupo de pacientes em tratamento contra o câncer, algumas medidas vêm sendo tomadas. Os horários de atendimento podem ter sofrido reduções em alguns centros de tratamento e novos protocolos de biossegurança têm sido adotados, de modo a garantir a permanência da oferta dos serviços. Condutas de mitigação e triagem, como as medidas de higienização, rastreamento de sinais e sintomas suspeitos e uso de EPI são reforçadas a fim de manter o cronograma de tratamento planejado para cada paciente. O ideal é que a equipe multiprofissional e os pacientes em tratamento oncológico realizem testes periódicos de rastreamento e notifiquem quaisquer suspeitas de sintomas da COVID-19, sobretudo para que não haja interrupção do tratamento. 

Controvérsias e dúvidas sobre os diversos efeitos da COVID-19 têm sido postos em consideração à medida que há a progressão da pandemia, sobretudo no que diz respeito à retomada de serviços de saúde para pacientes oncológicos. As condutas e protocolos de biossegurança que vêm sendo estabelecidas têm o propósito de proteger tanto os profissionais da área da saúde quanto os pacientes que necessitam de cuidados e reduzir a disseminação do novo coronavírus em ambientes clínicos e hospitalares. Neste contexto, é imperativo que o diagnóstico e o tratamento do câncer não sejam preteridos, uma vez que o tempo é decisivo para prognósticos mais favoráveis e para que sejam planejadas mais opções para o controle dessa doença.

Referências:

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