podcast do isaúde brasil

Publicada em 11/08/2020 às 11h52. Atualizada em 11/08/2020 às 14h03

Distanciamento Social e o impacto no comportamento alimentar

Como vai a sua relação com a alimentação, na quarentena?

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
Compartilhe

Estamos vivendo uma crise que interfere nas nossas vidas de várias maneiras e em vários aspectos (cognitivo, emocional, comportamental e fisiológico). O mundo tem passado por uma constante mudança com a pandemia provocada pelo novo coronavírus. Além de nos desafiar a ressignificar nossas atividades cotidianas e uma realidade antes tão “bem” configurada, o distanciamento social nos convocou a olhar de forma mais profunda para nós mesmos e para as nossas necessidades. Ao mesmo tempo em que nos distanciamos, as nossas formas de trabalhar, ir ao supermercado ou a farmácia precisaram ser readaptadas. Além disso, o autocuidado e o comportamento alimentar também passaram por uma grande transformação.

O comportamento alimentar são “hábitos” relacionados à comida e à forma que se come, envolvendo uma variedade de aspectos indispensáveis para a sua compreensão global, como os fatores biológicos, emocionais, políticos, familiares, ambientais e culturais. Ao longo da nossa vida, desenvolvemos uma relação tão próxima com a comida, que ela se tornou um meio de (come)moração e de lidar com os sentimentos positivos ou negativos. “Se estamos tristes comemos, se estamos comemorando uma conquista comemos”. O alimento não exerce a função de apenas nutrir o corpo e satisfazer a fome física, mas também de proporcionar um conforto emocional e trazer lembranças afetivas. Como Kaufman (2013) cita em seu artigo “Alimento e Emoção”, ao pensar em seu prato preferido, diversas emoções, memórias e sentidos serão evocadas, sendo improvável a dissociação desses aspectos.  

"As datas comemorativas durante a quarentena, por exemplo, precisaram sofrer modificações devido a impossibilidade dos encontros presenciais."

Com as possibilidades reduzidas e a necessidade de ampliar as formas de autocuidado, o ato da alimentação no distanciamento social amplia mais ainda o seu significado, importância e sua capacidade de promoção de conforto e prazer. As datas comemorativas durante a quarentena, por exemplo, precisaram sofrer modificações devido a impossibilidade dos encontros presenciais. A comida nesses festejos pode tomar um lugar de protagonismo devido a privação de outras atividades, levando assim à transmutação do significado de celebrar para apenas o ato de comer, e não mais associado à socialização com os entes queridos. 

Com tantas mudanças acontecendo no nosso dia a dia, o comportamento alimentar claramente não ficaria de fora. A mudança na qualidade, quantidade, tipo do alimento ou da forma de se alimentar, são previstas e compreensíveis dado a mudança do que lhe era tradicional. Tal situação pode ser relacionada a um acesso mais intenso ao alimento, causado pelo trabalho domiciliar ou também por uma maior disponibilidade dos mantimentos, visto que parte da população acaba por realizar compras maiores do que o usual, pelo medo de se expor com frequência.

Há quem esteja pedindo comida com mais frequência para conhecer novos restaurantes, quem esteja comprando comidas congeladas para conseguir dar conta de tudo que precisa, e também quem está se reinventando na cozinha para se conectar mais com o alimento e consigo mesmo, através de lembranças afetivas da sua história de vida. Nesse momento, precisamos de afeto e a comida pode sim nos auxiliar nessa promoção do autocuidado, mas ela não precisa se tornar a única fonte para lidar com os próprios sentimentos. 

Ampliar o repertório de comportamento, buscando se conectar com outras atividades que também promovam o conforto e afeto necessário nesses momentos, auxilia na manutenção da saúde física e mental durante o distanciamento social. Cada um se adaptando às suas próprias possibilidades e limites, pois não temos repertório histórico para resgatarmos estratégias de enfrentamento frente a um distanciamento social. As estratégias estão sendo criadas com a experiência e com a possibilidade inventiva que os indivíduos possuem. 

Referências:

KAUFMAN, Arthur. Alimento e emoção. ComCiência,  Campinas,  n. 145, Feb.  2013. Available from <http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-76542013000100012&lng=en&nrm=iso>. access on  18  June  2020.

Compartilhe

Saiba Mais