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Publicada em 16/07/2020 às 17h21. Atualizada em 28/07/2020 às 17h26

Doenças falciformes podem desencadear manifestações orais?

Devido à complexidade da doença, a saúde oral dos indivíduos falcêmicos é negligenciada, tornando-os mais susceptíveis ao surgimento de problemas bucais.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A Doença Falciforme (DF) trata-se de uma hemoglobinopatia hereditária e de origem genética, caracterizada pela mutação da hemoglobina normal (HbA) por uma anômala (HbS), que provoca alterações funcionais e estruturais das hemácias, as quais assumem uma forma semelhante à de uma foice. Com a falcização (forma de foice) das hemácias, o fluxo sanguíneo e a oxigenação dos tecidos ficam comprometidos, o que pode resultar em complicações agudas ou crônicas. 

 

Trata-se de uma doença de grande prevalência no mundo, que acomete principalmente afrodescendentes. Devido sua predominância no Brasil, foi incluída como um problema de saúde pública. Embora existam outros tipos da DF, a anemia falciforme encontra-se como a mais grave e recorrente.   

As manifestações clínicas da doença falciforme são causadas pelo formato de foice que as células assumem, o que frequentemente leva à obstrução dos vasos sanguíneos, hipóxia, isquemia, dor intensa e necrose tecidual. Esses eventos poderão afetar alguns sistemas, dentre eles o sistema estomatognático. Devido à complexidade da doença, a saúde oral desses indivíduos é negligenciada, o que os tornam mais susceptíveis ao surgimento de problemas bucais, e isso pode aumentar a probabilidade de crises álgicas e internações hospitalares. 

Os problemas bucais mais comuns em pacientes falcêmicos são:  

Palidez da mucosa oral – Causada pela alta deposição indireta de bilirrubina no sangue, resultando em uma coloração amarelada;

Atraso na erupção dentária (nascimento dos dentes) – Ocorre devido disfunções do crescimento e desenvolvimento dos maxilares; 

Necrose Pulpar – Referente à alteração anormal do fluxo sanguíneo na polpa dentária; 

Neuropatia no nervo mentual – Decorrente do infarto da região inferior do nervo mentual e seus ramos, reduzindo a sensibilidade do queixo e do lábio inferior;   

Osteomielite mandibular – Provocada pela obstrução dos vasos sanguíneos, resultando em dor, hipóxia, isquemia óssea e posteriormente a osteonecrose. 

Apesar da cárie e da doença periodontal estarem presentes em indivíduos falcêmicos, ambas não são relacionadas com a doença falciforme, ou seja, não são sinais característicos dessa doença, e sim associados a fatores secundários, como o fator socioeconômico e higiene oral inadequada.   Em decorrência do distúrbio sanguíneo, o transporte de células de defesa para o combate de agentes infecciosos fica comprometido, o que indica que os pacientes com doença falciforme precisam de uma atenção maior voltada para a saúde bucal, tendo em vista que apresentam alta propensão a infecções bucais que podem desencadear crises severas de dor. 

Por se tratar de uma doença incurável, são propostas algumas medidas terapêuticas para manutenção da qualidade de vida de seus portadores, como hidratação adequada e prevenção de condições climáticas estressantes, ácido fólico, suplementação de vitamina B12 ou vitamina B6 para quadros anêmicos, uso de analgésicos afim de minimizar crises álgicas, transfusão sanguínea para redução da porcentagem de HbS, bem como outras alternativas.   

Em relação ao manejo odontológico, o cirurgião dentista é capaz de intervir através procedimentos preventivos, tratamento ortodôntico para acelerar a erupção dentária, tratamento de canal nos casos de necrose pulpar, intervenções cirúrgicas, além de profilaxia antibiótica em casos de procedimentos invasivos.

 Diante da complexidade dos achados clínicos e possíveis agravos desses pacientes, é notório a importância do cirurgião dentista no diagnóstico precoce das manifestações orais, incentivo às visitas periódicas ao consultório odontológico, promoção e manutenção da saúde oral, prevenção de afecções futuras, bem como conscientizar a família acerca dessas manifestações, considerando as relações existentes entre a cavidade oral a doença falciforme.  

Referências:

1. Al-Jafar H, Dashti H, Al-Haddad SJ, Al-qattan S, Al-Ramzi A. Dental alterations in sickle cell disease. J Dent Oral Care Med. 2016; 2(2):1-5. 

2. Santos PRB, Machado PDCS, Passos CP, Aguiar MC, Nascimento RJM, Campos MIG. Prevalence of orofacial alterations in sickle cell disease: a review of literature. Braz J Oral Sci. 2016; 12(3):153-157. 

3. Chekroun M, Chérifi H, Fournier B, Gaultier F, Sitbon IY, Ferré FC, Gogly B. 

Oral manifestations of sickle cell disease. Br Dent J. 2019; 226(1):27-31. 

4. Kawar N, Alrayyes S, Yang B, Aljewari H. Oral health management considerations  for patients with sickle cell disease. Dis Mon.2018; 64(6):296-301. 

5. Javed F, Correa FO, Nooh N, Almas K, Romanos GE, Al- Hezaimi K. Orofacial manifestations in patients with sickle cell disease. Am J Med Sci. 2013; 345(3):234-237.

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