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Publicada em 16/06/2020 às 08h32. Atualizada em 16/06/2020 às 08h50

Entre a cruz e a caldeirinha: o transplante de órgãos e a pandemia

Conheça alguns desafios do sistema de transplante de órgãos do Brasil enfrentados por pacientes e profissionais de saúde em tempos de coronavírus.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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“ Em nenhuma situação a dor que se sente é tão intensa como diante da perda de um ente querido: é uma dor biológica, dói o corpo; é uma dor psicológica, dói a personalidade; é uma dor social, já que nos dói a dor dos outros; como também é uma dor espiritual, dói a alma. Em resumo, na morte de um ente querido, dói o passado, o presente e especialmente o futuro” 

J. Montoya Carrasquilla

O transplante é um procedimento cirúrgico realizado a partir da substituição de um órgão ou tecido acometido por uma doença que não tem mais a condição ideal para garantir a função vital por um outro saudável. É possível realizar o transplante intervivos e o transplante de doadores falecidos. No primeiro é viável identificar um doador compatível da mesma família sendo viável doar o um dos rins, um pulmão e parte do fígado. Agora o doador falecido, este pode ajudar a salvar muitas vidas, desde que a família conceda a doação de órgãos e tecidos, após a constatação do diagnóstico de morte encefálica.

Para receber o órgão de um doador falecido é necessário que o paciente denominado de receptor, esteja devidamente inscrito no Cadastro Único de Receptores, carinhosamente conhecido como “lista de transplante”. Em muitos casos nos quais existe uma urgência médica, prevista na legislação, considera-se a adoção das condições específicas a depender do tipo de órgão ou tecido. Na lista única nacional, cada receptor tem prioridade para receber o órgão e ser transplantado no mesmo estado onde possua a inscrição na lista, entretanto, é necessário que o paciente tenha sido avaliado pelos profissionais que compõem a equipe interdisciplinar: médico, enfermeiro, psicólogo, assistente social, fisioterapeuta, odontólogo e nutricionista. No referido contexto do pré-transplante ocorre ainda a realização de diversos exames específicos que garantem a indicação do procedimento e ainda sugerem uma margem mais segura para a realização do transplante, como também, para a sua manutenção.

Após estar devidamente inscrito na fila do transplante, o paciente passa para uma nova fase que pode gerar ansiedade e angústia, dentre outros sintomas. Ocorre que a depender do tipo do transplante e do estado no qual o paciente tenha sido inscrito, este pode aguardar durante meses ou até mesmo durante anos na fila do transplante. Em muitas situações, devido a evolução da doença e o agravamento do quadro clínico o paciente pode vir a falecer. Situação que ocorre com mais frequência entre os candidatos a transplantes que aguardam por órgãos, tais como o coração e o pulmão. Nesse decurso, muitos pacientes aguardam ansiosamente o momento do recebimento de uma ligação telefônica que venha anunciar a chegada de um órgão compatível para a realização do transplante. Tempos custosos, momentos duvidosos em função do tempo de espera, que é sempre longo para quem aguarda, e conta com a incerteza sobre um futuro que não cessa de se inscrever. 

"O que mais pode ser incerto diante de um paciente que vive a incerteza sobre a realização de um transplante?"

Atualmente, o mundo segue profundamente abalado pela terrível notícia de uma pandemia causada por um vírus misterioso – o coronavírus, que apesar de todos os investimentos médicos e científicos, ainda sabemos pouco sobre ele e o seu comportamento bizarro. O que faremos diante de tantas incertezas? Como os profissionais de saúde que estão no campo hospitalar serão capazes de promover um diálogo cuidadoso e ético sobre temas tão delicados, como é o caso da doação e do transplante de órgãos e tecidos? O que mais pode ser incerto diante de um paciente que vive a incerteza sobre a realização de um transplante? 

Percebe-se que muitos pacientes desejam viver e travam uma luta diária contra a morte. Diante disso, uma questão não quer calar: como seremos capazes de ajudá-los? Qual o melhor caminho para que as equipes que trabalham no campo da doação possam prosseguir conduzindo a entrevista familiar para doação baseados em atitudes éticas e acolhedoras? Considera-se que respeitar a perda familiar e suas expressões emotivas são intervenções fundamentais para favorecer a elaboração do luto. Dessa maneira, o profissional que realiza a entrevista familiar para doação, quando se encontra tecnicamente bem preparado, sabe manejar tais situações tendo como base a Comunicação em Situações Críticas.  

Em função da atual pandemia do Corona vírus, percebe-se que a possibilidade da doação passou a ser uma decisão familiar mais delicada. Entretanto, o Programa Nacional de Doação e Transplantes não paralisou diante da pandemia porque ocorrem mortes de pacientes que são potenciais doadores de órgãos e tecidos, assim como, em função da necessidade dos pacientes que aguardam na fila a oportunidade do transplante. No entanto, destaca-se que mesmo com o rigor dos protocolos de segurança adotado pela Central Estadual de Transplantes, tal como, das equipes transplantadoras, ainda assim, existe o risco de contaminação do receptor. Entretanto, o paciente quando recebe a ligação telefônica informando sobre a possibilidade do transplante tem a liberdade de escolha sobre a oferta do órgão. A decisão pela realização do transplante realmente depende do desejo do paciente e da equipe transplantadora. O transplante será sempre permeado por questões éticas que envolvem a singularidade de cada caso, considerando sua gravidade e as possibilidades de vida de paciente. Tal realidade abarca a vida de crianças, adolescentes, adultos e idosos que aguardam a sua oportunidade de transplantar.

Nas Centrais Estaduais de Transplantes e nos hospitais transplantadores, atendendo as recomendações dos órgãos de controle, vêm sendo implementadas diariamente medidas rigorosas de segurança, buscando reduzir ao máximo o risco de transmissão da Covid-19, entre doadores e receptores, porém, até o presente momento não existem alternativas que descartem por completo este risco, obrigando desta forma que tanto as equipes medicas como os pacientes assumam juntos o risco do contagio através da assinatura de um Termo de Esclarecimento.

No Brasil, e, em diversos países do mundo observa-se que apesar dos fatos relacionados à pandemia da Covid-19, não houve a interrupção da realização de transplantes. Situação que tem contribuído para que muitas vidas tenham sido reestabelecidas. Diante desse fato surge uma indagação: devemos prosseguir mantendo em funcionamento o Programa Nacional de Transplantes, em função de seus benefícios ou interromper diante das situações inusitadas promovidas pela pandemia? E nos casos os quais o transplante é o último recurso para manter o paciente vivo, em que tal procedimento é a única chance de vida, como proceder diante de tantos riscos promovidos pela pandemia?

"No Brasil, e, em diversos países do mundo observa-se que apesar dos fatos relacionados à pandemia da Covid-19, não houve a interrupção da realização de transplantes."

Em nosso país, o Programa Nacional de Transplantes, tem sido marcado por avanços significativos, ressalta-se que ao longo dos mais de 50 anos da história dos transplantes, vividos a partir de árduas conquistas pautadas pela ciência, como também pelo trabalho e empenho de muitas equipes de saúde com profissionais ávidos pela efetivação do transplante em todos os estados do nosso país. Enfim, mais de 40.000 brasileiros aguardam atualmente nas filas de transplantes, eles esperam ser chamados para prosseguir vivendo, e destes, quase 2.000 estão na Bahia. Então, propomos que sigamos com fé e esperançosos de que encontraremos saídas para novos e velhos desafios. 

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