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Publicada em 29/06/2020 às 06h42. Atualizada em 29/06/2020 às 06h59

Estudo avalia categorias de espiritualidade em mães de prematuros

Confira a segunda parte do artigo “Estresse e espiritualidade de mães de bebês prematuros”.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Leia a primeira parte do artigo: “Estresse e espiritualidade de mães de bebês prematuros”. 

Leia o ARTIGO CIENTÍFICO na íntegra

Um estudo realizado na UTI Neonatal do Hospital da Criança e Maternidade (HCM)em São José do Rio Preto, em 2017, buscou entender a relação da espiritualidade com o estresse de mães de prematuros. O estudo compreendeu 12 mães e foi realizado também com o objetivo de identificar a qualidade da satisfação de bem-estar espiritual e avaliar o significado da dimensão espiritual como estratégia de enfrentamento para o momento de internação dos bebês na Unidade de Tratamento Intensivo Neonatal (UTIN).

A fim de entender melhor a relação das participantes da pesquisa com a sua espiritualidade, o estudo observou os aspectos: “Esperança e otimismo”, “Busca de sentido”, “Apoio espiritual”, “Suporte social/religioso”, “Gratidão”, “Diálogo com o divino” e “Crescimento pessoal”.

Esperança e otimismo

De acordo com os relatos das mães, foi observado que a espiritualidade é capaz de proporcionar esperança em momentos adversos. A “fé”, como é expressa nos próprios relatos das mães, conduz ao sentimento de otimismo em relação ao futuro. Na literatura, o otimismo é descrito como uma característica da personalidade capaz de mobilizar o indivíduo a procurar estratégias de adaptação.

Uma das mães participantes revelou uma postura de enfrentamento ativo diante da situação ameaçadora. É possível notar que, mesmo frente ao evento de estresse, a mãe avalia a sua situação como uma possibilidade de ter mais força e transmitir energia positiva para o seu filho hospitalizado.

Essa avaliação positiva diante da situação atual é definida como “bem-estar subjetivo”. Pesquisas aponta que pessoas que utilizam emoções positivas com mais frequência sentem menos o impacto de situações estressoras.

Grandes estudiosos de destaque na área da Psicologia Positiva, como Park, Peterson e Seligman (2006), propuseram 24 forças agrupadas em 6 virtudes amplas, sendo uma das virtudes referente à transcendência, que, para os autores, está relacionada às forças que fornecem conexões com o universo, com algo maior, e contribuem com o significado da vivência. Dentre as forças que correspondem a essa virtude está a esperança/otimismo, que é descrita pelos autores como a capacidade de esperar e trabalhar para alcançar o melhor.

A relação entre estresse e otimismo foi descrita em um estudo realizado com 50 idosos que residiam com crianças e apontou que quanto maior o nível de otimismo, menor o nível de estresse.

Busca de sentido

Nessa categoria, as mães verbalizaram expressões que, além de evidenciar sentimentos de esperança, demonstram sentimentos de busca de sentido para a sua vivência. Uma das participantes sugeriu que o interesse em compreender o porquê da perda das duas filhas é mediado pelo significado atribuído a sua espiritualidade. Como se o divino, Deus, tivesse um propósito maior, que fosse além do sofrimento daquele momento.

Frankl (1985), fundador da Logoterapia – “logos” significa sentido –, parte do pressuposto de que o homem, por natureza, busca um sentido que o orienta a um para quê, um motivo que pode ser sempre encontrado, até em situações de sofrimento. Essa capacidade de autotranscedência, que se manifesta pela vontade de sentido, permite que o significado encontrado vá além do próprio eu do indivíduo.

Similar à capacidade de autotranscedência, Corazza (2016) classifica duas características que a espiritualidade possibilita: a primeira, de atribuir sentido à sua vivência, e a segunda, a ampliação da consciência de si e do mundo. A manutenção da espiritualidade implicaria no desenvolvimento de potencialidades positivas diante dos desafios da existência.

Identificou-se, portanto, que foi por meio da espiritualidade que uma das participantes pôde buscar sentido e, com isso, potencializar o enfrentamento diante do estresse da perda das duas filhas após o parto de uma gestação de trigêmeas e hospitalização na UTIN da filha que sobreviveu.

Apoio espiritual

Diante dos relatos das mães, o estudo observou que, a partir de um sentimento de entrega, por meio da espiritualidade, a atribuição do significado da situação de estresse é mediada por um sentimento de acolhimento. Essa vivência genuína ultrapassa os limites da racionalidade “não podendo ser explicada por meio de palavras”, como pontuou uma das mães. 

Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundador da Psicologia Analítica (2015) para conceituar sobre as experiências sem explicações racionais, fez uso emprestado do termo “numinoso” de Rudolf Otto (2007), que define este conceito como um efeito dinâmico revelado somente pela experiência vivida, não racional. O numinoso constitui uma condição do sujeito, independentemente de sua vontade, sendo, portanto, a essência do sagrado.

Suporte social/religioso

Nessa categoria emergida, as mães verbalizaram sobre o sentimento de proteção e reconhecimento de situações, pessoas e o divino, que a auxiliaram no enfrentamento diante do imprevisto e negativo. A busca pela proteção de um ser superior coloca Deus próximo, como um coparticipante da vida e das situações difíceis. Esse sentimento de “aconchego”, como verbalizou uma das mães, só é possível por meio de uma relação com o divino, que seja próxima e significativa.

Em sua pesquisa, Corazza (2016) encontrou resultados similares em  relação  à  comunidade  religiosa. Ele define que a religião serviria como mecanismo de socialização, um elemento de suporte no qual o ser humano se teria o sentimento de pertencimento e se sentiria seguro existencialmente.

Gratidão

Essa característica da pessoa em reconhecer algo ou alguém que lhe prestou um favor é descrita como gratidão. A maioria dos estudos sobre esse tema tem sido realizada na perspectiva da Psicologia Positiva, na qual o foco de estudos está nos recursos adaptativos e saudáveis do ser humano.

Park, Peterson e Seligam (2004) definem a gratidão como o comportamento de estar atento e grato pelas coisas boas que acontecem. Os autores compreendem a gratidão como uma das forças que corresponde à virtude da transcendência. As virtudes são características positivas do funcionamento humano, que representam uma forma de resolução e enfrentamento de situações necessárias à sobrevivência da espécie.

Diálogo com o divino

Entre os relatos colhidos, foi possível observar que as mães pontuaram sobre as suas vivências em momentos de prece e oração. Em um estudo de revisão sistemática houve comparação entre a prática do reiki e a oração e o uso de medicamentos para aliviar a dor da cesariana. Apesar do alto risco de viés encontrado no estudo, os resultados demostraram uma diminuição, estatisticamente significativa, da dor, com o uso de reiki e oração.

Para Reiz e Menezes (2017), a oração e a leitura da Bíblia são recursos utilizados por pessoas que vivenciam a espiritualidade de maneira significativa e que possibilitam a comunicação com Deus e, consequentemente, o alcance de milagres.

"... a oração e a leitura da Bíblia são recursos utilizados por pessoas que vivenciam a espiritualidade de maneira significativa e que possibilitam a comunicação com Deus..."

Crescimento pessoal

Nesses relatos, podemos observar que as mães verbalizam momentos de reflexão sobre os seus comportamentos. Essa postura de introspecção possibilita o reconhecimento da condição humana, frágil e pequena, mas também abre caminhos para o desenvolvimento da aprendizagem, mesmo em situações que exigem certa energia para se adaptar.

A capacidade que um indivíduo apresenta, após um momento de adversidade de se adaptar e aprender frente à situação, é definida como resiliência. Segundo Coelho, Silva e Souza (2015), pessoas resilientes apresentam respostas adaptativas aos agentes estressores e dificilmente desenvolvem patologias associadas ao estresse crônico.

Corazza (2016) ressalta que a vivência da espiritualidade é passível de sofrer alterações, por estar relacionada com experiências positivas e negativas do ser humano.

A espiritualidade deve ser compreendida como um processo dinâmico, que está sempre em construção. Isso implica uma postura de ressignificação e transformação pessoal, por meio de uma conexão com o transcendente. Segundo Corazza, diante do impacto das situações de sofrimento, o ser humano descobre suas potencialidades de crescimento mediante a espiritualidade.

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