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Publicada em 26/02/2020 às 00h00. Atualizada em 26/02/2020 às 17h52

Você conhece a Psicologia Social?

Ela pode auxiliar no aprendizado, por meio do trabalho em grupo. Saiba mais.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Para conhecer melhor o trabalho da Psicologia Social, segundo a corrente do argentino Dr. Enrique Pichon-Rivière, o iSaúde conversou com a psicóloga social Graciela Chatelain. Confira!

iSaúde - Ao falarmos em Psicologia Social, estamos falando da relação entre o sujeito e a coletividade para a construção do seu mundo interior, determinando mais uma vez o homem como ser social, reflexo de seu "contexto", fruto das relações que estabelece. No que isso difere da visão de sujeito da psicanálise?

Graciela Chatelain- O Dr. Enrique Pichon-Rivière, na Argentina, funda a Primeira Escola Privada de Psicologia Social e cria uma metodologia grupal para essa aprendizagem: O Grupo Operativo. A concepção de ser humano que propõe Pichon é integradora de três aspectos: bio-psico-social; definição do ser humano como um ser de necessidade que só se satisfaz socialmente, em relações que o determinam; pensa o sujeito e sua conduta, configurado-se nas suas condições concretas de existência; emergindo de uma trama de vínculos e relações sociais. 

"A concepção de ser humano que propõe Pichon é integradora de três aspectos: bio-psico-social; definição do ser humano como um ser de necessidade que só se satisfaz socialmente, em relações que o determinam..."

Quer dizer um sujeito que nasce vinculado, dentro de uma estrutura socioeconômica, onde ocupará um lugar dentro do sistema produtivo. Essa será sua condição social de existência e seu mundo interno irá se constituindo numa relação dialética, quer dizer, em permanente transformação, entre o mundo interno e o mundo externo. 

Dentro dos fundamentos do ECRO (Esquema Conceitual Referencial e Operativo) pichoniano se encontra a psicanálise freudiana e kleiniana. Com a primeira ele faz uma ruptura, ainda desenvolvendo alguns conceitos como, por exemplo, o conceito de relação de objeto que ampliará no conceito de vínculo; com a segunda ele tem uma maior identificação, especialmente com a construção das relações objetais, a partir da qual desenvolverá sua Teoria da conduta, como também o conceito de vínculo e sua teoria de grupos, especificamente na Técnica de Grupos Operativos. 

Deveríamos pensar que Pichon-Rivière foi médico psiquiatra e psicanalista clínico, fundador da Associação Psicanalítica Argentina (APA), da qual acaba sendo afastado por suas ideias revolucionárias para a época. Ele, ao longo da sua construção, sai da psiquiatria e da concepção de doença/cura dos anos 50 para a promoção da saúde mental. Por exemplo, o Grupo Operativo é um âmbito de promoção da saúde psicossocial. Para a psicanálise o sujeito é função, objeto e sintoma, direciona-se aos conteúdos inconscientes para a busca da cura. Pichon dirá que o inconsciente não dará conta para entender a conduta do sujeito; ele amplia a concepção de sujeito, como já foi exposto.



iS - Como a análise de um grupo, por meio do Esquema Conceitual Referencial e Operativo da Psicologia Social (ECRO) idealizado por Enrique Pichon-Rivière, auxilia o terapeuta no entendimento da dinâmica do grupo e de que forma essa compreensão pode ser utilizada no processo de ensino-aprendizagem, por exemplo?

Graciela Chatelain -
 O ECRO da Psicologia Social é um conjunto de conceitos articulados que constituem um modelo referencial para a leitura, interpretação e intervenção – operação/transformação - nas interações. Com os conceitos que ele propõe podemos fazer leituras que nos permitem uma maior aproximação à análise e compreensão do objeto concreto, então sempre será um instrumento válido para quem trabalha em grupo. Isto não quer dizer que ele possa intervir com a Técnica de Grupo Operativo. Para isso, o terapeuta ou qualquer outro profissional terá que se especializar nessa área do conhecimento. Devemos lembrar que o Grupo Operativo não é uma dinâmica grupal, é uma metodologia para trabalhar com grupos. É como a psicanálise para o atendimento clínico, nenhum profissional trabalharia com psicanálise sem se especializar nessa área. A Formação de Coordenadores de Grupos Operativos ou a Especialização em Psicologia Social Pichoniana habilita a trabalhar com a Técnica de Grupos Operativos. Eu estudei cinco anos na Argentina para me formar psicóloga social; será falta de ética e profissionalismo, utilizar este instrumento de leitura e intervenção sem a devida formação; nenhum psicanalista na sua clínica faria isso, eu acho. 

Em relação ao processo de ensino-aprendizagem, o ECRO pichoniano contém conceitos fundamentais para a sua compreensão. Um dos conceitos mais inovadores é o conceito de Matrizes de Aprendizagem, que foi pensado por Ana Quiroga, última mulher de Pichon e atual diretora da Escola de Psicologia Social da Argentina. Na verdade, foi ela quem não deixou morrer o pensamento dele, pelo contrário, Ana continua desenvolvendo os conceitos por ele trazidos, mas esse conceito de matriz é de construção própria. Este conceito nos ajuda a entender como foram configurados os modelos de aprender e, nesse sentido, chega para complementar a proposta pichoniana do Aprender a Aprender.

Para Ana Quiroga, Aprender a Aprender é aprender em grupo ressignificando os modelos internos ou matrizes de aprendizagem nas quais o sujeito se configura. A aprendizagem em grupo faz com que esses modelos se confrontem e isto possibilita que os integrantes possam refletir sobre as suas origens e a importância de flexibilizá-los.

"Para Pichon, ensino-aprendizagem é uma unidade, na qual sempre dois ou mais estarão ensinado e aprendendo, por isso, em algum momento, ele fala de “enseñaje” traduzindo “ensinagem”".

Para Pichon, ensino-aprendizagem é uma unidade, na qual sempre dois ou mais estarão ensinado e aprendendo, por isso, em algum momento, ele fala de “enseñaje” traduzindo “ensinagem”. Para ele, aprendizagem está caracterizada como apropriação instrumental da realidade para transformar-se e transformar a realidade. Nesse sentido, ele desenvolve e faz uma correlação deste conceito com a saúde mental; quando um sujeito perde sua capacidade de aprender, ele estará doente. Para nós, aprendizagem, transformação, criatividade e adaptação ativa à realidade são todas práticas da promoção da saúde mental.   


iS - Em um determinado grupo, cada indivíduo possui seu próprio ECRO. Para um gestor de equipes, como "direcionar" os indivíduos de forma que seus ECROs não entrem em conflito? Nesse caso, como deve se dar a concepção de um ECRO do grupo? O que deve ser observado?

Graciela Chatelain -
 Em princípio diria que quem trabalha com a Técnica de Grupos Operativos nunca deveria direcionar, mas acompanhar processos, criando as condições para que a tarefa do grupo seja alcançada, a partir da superação dos obstáculos; quer dizer um coordenador ou o que você pode chamar de gestor de equipes que, repito, trabalhe com a TGO, terá instrumentos de leitura e intervenção para criar essas condições.

Para nós, o foco não será “direcionar” para que “não entrem em conflito”, em todo caso fará intervenções para que o grupo possa sair do conflito, a partir da tomada de consciência. Os conflitos são inerentes aos grupos; não existem indivíduos sem conflitos, então o que poderíamos dizer dos grupos, que são constituídos por indivíduos? Essa é uma das primeiras contradições a serem resolvidas: indivíduo/grupo. Nas equipes, nos grupos sempre se estará resolvendo conflitos, esse é o trabalho: vê-los para resolvê-los e é nesse sentido que o gestor ou coordenador tem que acompanhar.

Em relação aos seus ECROs, cada integrante do grupo ou equipe tem o seu; a questão é que ECROs diferentes podem ser complementares e não substitutos e, para isto, é necessário trabalhar a atitude psicológica no sentido de aceitar as diferenças. Quanto mais diferenças de ECROs há mais riqueza, maior cooperação para a construção do ECRO grupal e para a realização da tarefa. O que tem que ser observado é se esse confronto de ECROs está em função da Tarefa ou da Resistência à mudança, para poder fazer uma intervenção eficaz que lhes possibilite sair de atitudes estereotipadas e resolver o conflito. 


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