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Publicada em 24/06/2020 às 00h00. Atualizada em 24/06/2020 às 06h36

Psicologia: como é construído o vínculo entre pais e filhos?

Será o amor materno algo inato ou ele é resultado de um processo de construção?

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A ligação afetiva de uma mãe com o seu filho parece ser tão natural que, não raro, é pensada como uma linha de continuidade que se inicia antes da concepção e se prolonga indefinidamente. Pensamos no bebê como um fruto que cresce e se desenvolve na textura aveludada das mucosas, no calor morno das águas uterinas e seu nascimento é sempre uma festa! Por isso, nos é tão chocante, notícias, divulgadas pela mídia, de bebês abandonados, desprezados como lixo... acontecimentos que causam perplexidade, revolta, dor, para citar apenas algumas reações.

Lamentavelmente, esses fatos se repetem, como também, outras formas de abandono mais sutis, evidenciando que amor materno não é algo inato, mas resultado de uma construção. A filósofa Elisabeth Badinter confrontou-se com manifestações de indignação ao seu livro intitulado “Um Amor Conquistado: o mito do amor materno”, lançado em 1980. A autora foi duramente criticada por tocar no tema da maternidade, que, ao que tudo indica, parece permanecer sagrado até os dias atuais.

Entretanto, estudos têm buscado desmistificar a questão. Uma pesquisa realizada com 97 mães, em Oxford, que teve por objetivo investigar o momento em que a mãe sente amor por seu filho, pela primeira vez, encontrou os seguintes resultados: 41% durante a gravidez; 24% no nascimento do bebê; 27% na primeira semana neonatal e 8% após a primeira semana, revelando, assim, distintos modos de conceber a relação com o bebê. Logo, os hormônios de prolactina e ocitocina, encontrados em altas concentrações na mulher, no fim da gestação e no pós-parto, não são suficientes para garantir os sentimentos amorosos de uma mãe para o seu filho, do mesmo modo que a ausência deles não é impeditiva para que tais sentimentos brotem, como se pode constatar no amor que mulheres e homens são capazes de dedicar a um filho adotivo.

Histórias de perdas no período gestacional, dúvidas acerca do momento da chegada da criança, outros planos ou até mesmo um parto difícil, vivenciado em condições estressantes podem interferir no vínculo que os pais estabelecerão com o filho. Por outro lado, há estudos que apoiam a hipótese de um período sensível, facilitador da vinculação mãe-bebê, nas primeiras horas e dias após o nascimento. Além disso, muitos pais relatam que desde que tiveram oportunidade de momentos tranquilos e íntimos com o bebê sentiram o desencadear e a intensificação dos sentimentos amorosos, iniciando uma ligação afetiva que tende a se estreitar dia após dia.

Durante a gestação, os pais idealizam um bebê em seus sonhos e, com o nascimento, passam a confrontar-se com um bebê real. Essa confrontação implica em reconhecimento mútuo: a mulher, em geral, sente-se mãe quando é reconhecida como tal pelo bebê, momento que coincide, muitas vezes, com o olhar que ele dirige a ela. É preciso, do mesmo modo, que ela consiga olhá-lo...E como ela não conseguiria, se ele se encontra sob seus olhos?... É que, às vezes, o bebê imaginário rouba a cena: digamos que a mãe fez um enxoval belíssimo e pretende vestir o bebê conforme seus sonhos, porém, o bebê real, apesar das suas boas intenções, começa a suar e fica desconfortável metido nessas roupinhas e, se ela insiste em vesti-lo desse modo, é bem provável que ela não o esteja olhando efetivamente e, sem vê-lo, não consegue dar-se conta de suas reais necessidades.

Mas, se os pais conseguem olhar e falar com o bebê, estabelecendo um verdadeiro diálogo, é porque são capazes de interpretar seus sinais de prazer e desprazer, de alerta e quietude, de consolo ou irritabilidade. Se o fluxo do comportamento da criança pré-verbal é interpretado e acompanhado com falas, a criança terá maiores chances de desenvolver a linguagem e seu sistema motor de forma saudável. 

Pensemos em um dos primeiros controles da motricidade, o da cabeça e do pescoço, que ocorre por volta do terceiro mês de vida; essa competência não vai ocorrer como um passe de mágica, ela vai sendo adquirida desde as primeiras horas após o nascimento, a partir do momento em que os pais dirigem falas ao bebê e ele vira a cabeça na direção de suas vozes, fortalecendo, assim, os músculos dessa região... Se o rosto da mãe é cativante, o bebê de bruços, em geral aos três meses, será capaz de sustentar o pescoço e levantar a cabecinha tentando reencontrá-lo. Já foi observado que o corpo do bebê se move em sintonia com a fala do adulto, assim como o sorriso materno provoca distensões motoras no bebê. O toque e as massagens ativam respostas que demonstram o seu relaxamento, estimulam a produção de hormônios do crescimento e auxiliam o sistema imunológico.

Todas essas trocas vão construindo, pouco a pouco, laços afetivos que tendem a se tornar duradouros. O vínculo afetivo é resultado dessa descoberta que se faz no contato, na intimidade, na proximidade, além do reconhecimento mútuo que se faz necessário desde os momentos inicias, através da percepção de que o bebê, desde o seu nascimento é ativo no seio da relação. Ao reconhecer as potencialidades e necessidades de afeto desse ser recém-chegado ao mundo tem-se a chave do seu desenvolvimento saudável.

Referências:

 

Badinter, E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1985.

Klaus, MH, Kennell, JH,.Klaus, PH. Vínculo, construindo as bases para um apego seguro e para a independência. Porto Alegre: Artes Médicas: 2000.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção humanizada ao recém-nascido de baixo-peso: Método canguru – 2.ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2011

Lebovici. S. O bebê, a mãe e o psicanalista. Porto Alegre: Artes médicas, 1987.

Klaus MH, Klaus PH. Seu surpreendente recém-nascido. Porto Alegre: Artmed, 2001.

 

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção humanizada ao recém-nascido de baixo-peso: Método canguru – 2.ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2011.

 

 

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