podcast do isaúde brasil

Publicada em 03/05/2020 às 16h40. Atualizada em 03/05/2020 às 16h46

Reflexões em tempos de quarentena

Reclamávamos do que hoje nos sobra. Seremos os mesmos depois dessa pandemia?

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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O medo do invisível e a incerteza sobre o desconhecido nos cala. Mesmo a quem nunca faltaram palavras ou o velho e conhecido “jeitinho”, do rico ao podre, do negro ao branco, a pandemia de Covid-19 atinge. Falo do lugar onde a pressa era sempre a nossa companheira diária, que fazia com que os cômodos das nossas casas não fossem totalmente preenchidos, do lugar onde a aglomeração de pessoas era ritmo de vida. E isso me traz grandes reflexões. Em pensar que a nossa vivência planetária sobre ganhar dinheiro e reunir fortunas tornou-se algo incessante. Falo mesmo sobre acumular riquezas, pois sobre usufruir, para muitos, era uma questão de falta de tempo. 

Antes da tão calorosa relação familiar, as famílias estavam separadas pela força do hábito de manter trabalho, escola, ballet, futebol, reuniões, congressos, antes da tão calorosa relação familiar. Agora, a internet segue fazendo perfeitamente o seu papel de nos manter naquela sensação de falsa presença. Mas como assim “falsa presença”? Quantas vezes você esteve em reuniões, aniversários, jantares, encontros familiares, somente de corpo? Sua mente e seus dedos rápidos e práticos seguiam ali, com pressa de chegar, curtir, postar, saber e falar. Mas e quanto à reunião de que falávamos minutos atrás? Passou que você nem percebeu, não foi? E agora estamos assim, sentindo tanta falta do nosso caloroso convívio social, de um abraço apertado, de dois beijinhos pra lá, dois beijinhos pra cá. Tudo que fica é: “isolamento social”. 

Se pudéssemos voltar atrás e reclamar menos, afinal, perdemos tanto tempo reclamando sobre a falta de tempo que até nos esquecemos de viver.  E, assim, fomos mantendo os laços no mundo virtual, aquele “feliz aniversário” caloroso se transformava em uma bela postagem de Instagram, aquele “não se esqueça de pegar as crianças na escola”, pelo áudio do WhatsApp, já fazia a sua função e, por fim, aquele “eu te amo” que nunca dava tempo de dizer pessoalmente, pois precisávamos sair rapidamente da cama para não perder a reunião de trabalho, também ficou por conta dela – a internet. 

"Se pudéssemos voltar atrás e reclamar menos, afinal, perdemos tanto tempo reclamando sobre a falta de tempo que até nos esquecemos de viver."

E assim seguimos, muitas vezes, vivendo uma longa espera de 30 dias para encontrar um grande grupo de amigos. Mas por que tanto tempo?  Não podemos esquecer aqui a existência sobre a difícil missão de encontrar agenda para dar certo reunir todos em uma mesma data, hora e local. Mas essa saga fica por conta do famoso grupo de WhatsApp, o qual simplesmente adoramos, para fazer programações, projetar local e detalhes do encontro. Mas, quando chega o grande dia, mais uma vez nos deixamos ser engolidos pela necessidade de publicar o que estamos vivendo, por meio de fotos e mais fotos que precisam ser postadas. Além disso, estamos atualizando as mensagens do próximo grupo de que, possivelmente, “nos encontraremos em breve”, aproveitando para atualizar as informações no mundo, pois não podemos nos desconectar. E quanto ao encontro com os amigos? Off-line mais uma vez. 

Fizemos tanta questão de manter os contatos por mensagens... e agora que assim precisamos manter, por conta do isolamento social, não estamos dando conta. O capitalismo está ameaçado, e nem adianta correr, pois não estamos falando de você parar de pedalar, falamos do mundo descendo de suas bicicletas ou pendurando as chuteiras para aguardar os próximos comandos. Sim, por enquanto, assim será. Agora aproveite para ficar em casa, rever os planos, refazer conceitos, reorganizar os pensamentos, colocar literalmente a casa em ordem. Assustados com a impossibilidade de correr, com medo das condições de saúde, econômicas e, principalmente, tendo que lidar habilidosamente para manter a sanidade mental. 

Como diria Freud: “somos feitos de carne, mas temos que viver como se fôssemos de ferro.” Sim, nos reinventando para suportar tanto desequilíbrio psíquico em meio à pandemia. Agora que somos convidados a abraçar, beijar, acolher pela nossa tão querida internet, não estamos dando conta de assim viver. Será que depois de tudo isso teremos uma nova sociedade? Será que aprenderemos a dar tempo ao tempo e ainda conseguiremos ensinar aos nossos filhos e netos um novo modo de viver a vida?  Vamos entender esse momento como uma nova oportunidade para recomeçar, dar valor ao que de fato tem valor, acolher os nossos familiares com abraços longos e risadas gostosas, só que, dessa vez, ao vivo. Aprender a deixar os telefones de lado na hora das refeições, nos interessar em saber como foi o dia de quem amamos. Vamos subir novamente nas nossas bicicletas e começar a pedalar, só que, dessa vez, prestando atenção em tudo a nossa volta, até sentir o vento batendo em nossos cabelos.

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