podcast do isaúde brasil

Publicada em 12/06/2020 às 16h11. Atualizada em 12/06/2020 às 16h21

Será o fim das Relações líquidas?

As relações líquidas, tão difundidas pelos textos de Bauman, vividas por tantas pessoas antes da pandemia, estão em crise?

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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O advento das relações líquidas se espalhou para nossos relacionamentos, amizades, famílias e experiências. As pessoas têm acesso a milhares de perfis nas redes sociais, tinham muitos stories para compartilhar, experiências para viver, mas continuavam solitárias. As redes sociais incentivavam os jovens a exibir suas experiências. Hoje durante a pandemia com todo esse cenário de liberdade e possibilidade de viver todas as experiências no mundo, ficou muito limitado. 

O discurso pungente do liberalismo, ao qual o mercado deveria se autorregular, assim como as pessoas e suas relações, prevalecia. Vivíamos sem questionar essa realidade, que parecia não ter fim e acontecia de maneira natural. Pessoas cada vez mais “livres” para ir e vir, viajar, conhecer várias culturas e ao mesmo tempo sem conexão umas com as outras. A máxima era viver o máximo de experiências que o mundo pudesse proporcionar, sem estar permanentemente conectados a pessoas e lugares. O mundo era o nosso lar, as fronteiras estavam diminuídas e as pessoas conectadas virtualmente e fisicamente, porém distantes socialmente. 

Ao longo do século XX, as várias gerações questionaram a estrutura vigente, valorizando a individualidade e questionando os papeis que estavam postos na sociedade. Procuramos entender essas diferenças individuais para valorizá-las, cada vez mais. A valorização do sujeito possibilitou inúmeros avanços para a humanidade, em termos de direitos e maior igualdade. A própria internet nos levou a uma liberdade muito maior. Ao mesmo tempo que questionamos a estrutura da sociedade e seus papeis, buscamos a possibilidade de mudar de cidade, profissão e relacionamento, caso desejássemos. Uma série de coisas já pareciam ultrapassadas diante do “gostinho” da liberdade de sermos quem quisermos. Essa busca pela liberdade e individualidade abriu muitas portas, mas junto com ela, a incerteza sobre o futuro veio em conjunto. Passamos de uma sociedade ocidental altamente coletivista, hierárquica; para uma sociedade que valoriza a individualidade e as diferenças. Só o que talvez não sabíamos é que o preço da liberdade buscada por gerações passadas é o preço que pagamos pela incerteza da liberdade. Uma sociedade altamente solitária e ansiosa. O avanço do liberalismo, individualismo e autonomia como direitos e garantias individuais, parece ter diminuído a agregação social. Abrimos mão de uma coesão social, diminuindo os laços de solidariedade. Em troca vivemos uma maior globalização, enriquecimento e aumento dos bens materiais. 

" E como conciliar a autonomia e o individualismo, com uma sociedade solidária, coletivista e agregadora socialmente?"

As relações líquidas são um reflexo dessa sociedade que foi se transformando ao longo de tanto tempo. Os avanços em direitos e autonomia transformou a sociedade. Apesar de termos maior igualdade, ainda temos um longo caminho pela frente. E como conciliar a autonomia e o individualismo, com uma sociedade solidária, coletivista e agregadora socialmente? Como construir relacionamentos que valorizem a individualidade ao mesmo tempo que busca uma maior compaixão entre as pessoas que o constituem? A pandemia expõe uma necessidade de agregação social, ao mesmo tempo que direitos individuais são questionados. Muitas transformações estão em curso e como queremos construir essa nova sociedade e nossas relações?

Nos desenvolvemos muito tecnologicamente ao longo de todo esse tempo e pouco emocionalmente. A pandemia é o momento que isso fica mais evidente. Temos medicamentos avançados para o câncer; smartphones que fazem milhões de coisas, mas não sabemos lidar com a incerteza sobre o futuro, isolamento social e sentimentos como a tristeza. Ao mesmo tempo que somos convocados para ações solidárias, diminuição das desigualdades e maior empatia para com aqueles que estão ao nosso redor. Só poderemos ter um futuro se conciliarmos os investimentos em avanços tecnológicos com o desenvolvimento emocional, social e relacional. 

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