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Publicada em 27/05/2020 às 09h07. Atualizada em 27/05/2020 às 09h37

Serão os desastres naturais uma resposta da “ira de Deus”?

Estudo realizado na Colômbia mostra como as crianças entendem as catástrofes e sua relação com a religiosidade.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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"Um desastre vai além da ameaça que o origina, pois tem a ver com o desequilíbrio da vida cotidiana, na qual risco e sua construção social, bem como a vulnerabilidade e a resiliência coexistem."

Os desastres são consequências de fenômenos naturais causados pela ação do homem e que desencadeiam processos de danos físicos, perda de vidas e capitais humanos, alterando a vida de comunidades e a atividade econômica das localidades afetadas. Essas situações marcam a cultura, os costumes das pessoas e, consequentemente, a sua maneira de ver o mundo. Um desastre vai além da ameaça que o origina, pois tem a ver com o desequilíbrio da vida cotidiana, na qual risco e sua construção social, bem como a vulnerabilidade e a resiliência coexistem. 

Especificamente, as crianças perdem a visão de mundo de seu ambiente como um local seguro e previsível quando sofrem um desastre. Além disso, esses fatos causam distúrbios significativos devido à velocidade com que as mudanças ocorrem, gerando nas crianças, medo, desamparo e isolamento. Catástrofes também interferem na capacidade de as crianças desenvolverem um equilíbrio funcional com o ambiente que as cerca, alterando o seu senso de segurança e proteção. 

O próprio deslocamento, a separação dos pais e das redes de apoio, como também o empobrecimento de famílias já pobres, expõem as crianças a um risco aumentado de doenças relacionadas à desnutrição, baixa qualidade da água e saneamento. Além disso, a interrupção das atividades na escola, seja pela destruição da escola ou falta de educadores, aumenta a vulnerabilidade das crianças, expondo-as ainda mais ao perigo e aos traumas físicos e emocionais causados pelos eventos vivenciados. 

Pesquisadores apresentam alguns argumentos sobre como as crianças assumem esses eventos e quais são suas respostas a desastres. Estudos como o realizado por Zhang et al., (2010) determinaram que, no caso de eventos que ocorrem naturalmente, como terremotos em que as perdas humanas e materiais são maiores, o enfrentamento dos bebês é mais complexo, gerando alterações em seus processos mentais e comportamentais. Em contraste, autores, como Cryder, Kilmer, Tedeschi e Calhoun (2006), relatam que crenças e competências inseridas positivamente nas crianças mudam significativamente a maneira como percebem e enfrentam desastres. 

Outros estudiosos também destacam o potencial dos grupos de jovens como agentes de mudança em suas comunidades e fazem um apelo à participação ativa de crianças e adolescentes na gestão de riscos para prevenir desastres, argumentando que as crianças desenvolvem habilidades de comunicação na prevenção de riscos, que devem ser usadas para influenciar os ambientes da casa, da escola e da comunidade onde encontraram espaço de participação.

"Outros estudiosos também destacam o potencial dos grupos de jovens como agentes de mudança em suas comunidades e fazem um apelo à participação ativa de crianças e adolescentes na gestão de riscos para prevenir desastres..."

A fim de entender como se processa a compreensão de crianças diante de grandes calamidades, foi realizada uma pesquisa com crianças em um bairro da cidade de Medellín, Colômbia. O objetivo foi entender as crianças como participantes ativos nos processos de gerenciamento de riscos e como multiplicadoras de mudanças de comportamentos sociais no cuidado com o meio ambiente. 

O estudo considerou 24 crianças em idade escolar, entre 7 e 12 anos que passaram por situação de desastre, independentemente de sua condição social. Foram feitas perguntas sobre suas experiências em relação ao evento (com conhecimento e consentimento de seus pais e de líderes comunitários da localidade estudada).

A programação da pesquisa compreendeu a realização de jogos de integração, passeios pelas localidades do bairro, permitindo a abordagem do território, o desenvolvimento de uma linguagem comum de interpretação das diferentes percepções da realidade e a coleta de informações experimentais por meio da construção de mapas de ameaças ou perigos, jogos de integração, brainstorming e a elaboração de histórias em que as crianças expressaram suas experiências em torno do desastre e sobre o que acontece na comunidade quando as ameaças se materializam. 

Os desenhos elaborados permitiram identificar os locais onde estão localizados os perigos, tanto em suas casas quanto na vizinhança, e a encenação evidenciou as atividades que os participantes realizaram durante um evento desastroso. 

O que mostrou a pesquisa

Para crianças, adultos cometem pecados que causam a ira de Deus, que se manifesta por meio de fenômenos naturais que causam desastres à população, gerando graves danos às casas à família e ao meio ambiente. Segundo elas, essas situações não podem ser evitadas porque não é possível intervir no comportamento dos adultos. 

Causa de desastres 

Para crianças, os desastres causam danos e elas os definem como um evento que destrói suas casas e pode matar sua família, composta de sua mãe e irmãos. "É algo que pode danificar muitas coisas e as pessoas morrem", disse uma garota de 12 anos, participante da pesquisa. O desastre está associado a Deus que, como ser supremo, fica zangado quando os pecados são cometidos, reclamando, portanto, o que deve ser pago. 

Essa “ira de Deus”, descrita pelas crianças, se manifesta por terremotos, ventos e chuvas, que causam muitos danos ao aparecer no bairro onde vivem,  lugar que reconhecem que é uma área vulnerável. Segundo as crianças, diante dos eventos enviados por Deus, “você não pode realizar atividades de prevenção ou redução dos danos para proteger você e sua família, porque as crianças não podem impedir os pecados dos adultos”.

Manifestações da “ira de Deus”

Para um dos garotos (8 anos de idade), o terremoto é uma manifestação da ira de Deus. Ele gera um movimento de terra que afeta as colunas, o piso, as paredes e as estradas. "Ele tem muito perigo, porque os gravetos estão podres e a terra está desabando" (...) "O perigo é que uma coluna da casa seja mais ‘gorda’ que a outra”, diz outro menino de 10 anos apontando a fragilidade das moradias do local. 

Os ventos geram forças tão fortes que arrancam os telhados, que são feitos principalmente de zinco, latas, telhas de barro e plástico, e, por serem fracos, descobrem as casas e deixam as pessoas desprotegidas. "O vento pega os azulejos quando sopra muito e lá minha irmãzinha dorme", depoimento de um garoto de 7 anos.

Os danos causados por fortes chuvas também são vistos como a ira de Deus. Um dos meninos, com 10 anos, relata: "O que me assusta na minha casa é que chove e a terra fica úmida e cai". Nos períodos de chuva devido à alta precipitação, os córregos aumentam seu fluxo e, como no bairro há dificuldades na gestão de resíduos que, muitas vezes, acabam nos córregos, a água é represada e sai gerando inundações. “A ravina continua cheia de lixo e inundações.  A água já entrou na casa uma vez”, aponta uma das meninas (12 anos).

LEIA A SEGUNDA PARTE DO ARTIGO: Crianças podem auxiliar na gestão de crises de calamidades?

LEIA O ARTIGO CIENTÍFICO: Los desastres no son prevenibles si vienen de la ira de Dios

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