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Publicada em 12/05/2015 às 00h00. Atualizada em 12/05/2015 às 07h56

Ter se recuperado de um tipo de dengue traz imunidade contra os outros tipos?

Confira, nesta entrevista com a infectologista, Ana Verônica Mascarenhas Batista, quais são os tipo de dengue, seus sintomas, os limites da imunidade e como é o tratamento adequado.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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iSaúde Bahia  – Apenas o mosquito transmite a dengue ou uma pessoa também pode contaminar outra?

Ana Verônica Mascarenhas Batista – Não há passagem direta do vírus da dengue de uma pessoa para outra. O mosquito Aedes aegypti é o vetor que, uma vez adquirindo o vírus de uma pessoa infectada, passa para outra susceptível.

iSB – Quais são os tipos de dengue e suas diferenças quanto aos sintomas? Quais os tipos mais fáceis de identificar imediatamente? O que a pessoa deve fazer assim que identificar algum sintoma?

Ana Verônica Mascarenhas Batista – Existem quatro sorotipos do vírus da dengue (Den 1, Den 2. Den 3 e Den 4). Embora possam existir diferenças quanto à gravidade entre eles, isto não tem importância no manejo dos casos. O que, de fato, faz diferença na redução da letalidade é a condução adequada quando se suspeita de um caso de dengue. Na presença de sintomas sugestivos, a pessoa deve buscar o serviço de saúde, de preferência mais próximo de sua residência. Ao médico, cabe reconhecer quando um caso pode ser conduzido em domicílio ou nos serviços de saúde, orientar adequadamente a hidratação; orientar o doente para o reconhecimento dos sinais de alarme e busca imediata dos serviços de saúde na presença de, pelo menos, um deles, pois esses são preditores de gravidade.

iSB – Quais as consequências da doença para os infectados?

Ana Verônica Mascarenhas Batista – A maioria das pessoas infectadas não desenvolve sintomas da doença. Os sintomas, para os que desenvolvem doença, são: febre acompanhada de, pelo menos, dois dos seguintes – dor de cabeça habitualmente atrás dos olhos, dores musculares e nas articulações e caroços vermelhos no corpo. Geralmente, após o terceiro dia de doença, há melhora da febre e, justamente nesse período, podem surgir os sinais de alarme abaixo relacionados. Desidratação, hipotensão, sangramentos, comprometimento de órgãos, como fígado, coração, pulmões e sistema nervoso central caracterizam os casos graves. Em ambas as situações (assintomáticos ou sintomáticos), o organismo desenvolve anticorpos contra o vírus que persistem por toda a vida e podem ser detectados através de exames específicos do sangue.

Sinais de alarme na dengue a) dor abdominal intensa e contínua; b) vômitos persistentes; c) hipotensão postural e/ou lipotímia; d) hepatomegalia dolorosa; e) sangramento de mucosa ou hemorragias importantes (vômitos com sangue ou fezes negras); f) sonolência e/ou irritabilidade; g) diminuição da eliminação de urina, h) diminuição repentina da temperatura corpórea ou hipotermia; i) aumento repentino do hematócrito; j) queda abrupta de plaquetas; k) desconforto respiratório (dificuldade para respirar).

iSB – Quantas vezes é possível um ser humano ser infectado pela dengue? Há algum tipo de imunidade para quem já teve a doença?

Ana Verônica Mascarenhas Batista – A pessoa pode ser infectar por todos os quatro tipos de vírus. Quando ela se infecta, por exemplo, pelo tipo 1, desenvolve imunidade apenas para esse tipo e, assim, sucessivamente. Quando se infecta por um outro tipo diferente daquela infecção prévia, para o qual ainda não tem anticorpos, existe a possibilidade de desenvolver formas graves da doença. Uma vez infectado por um novo tipo, o organismo o reconhece “em parte”, porque já foi infectado previamente por um vírus da dengue, mas o fato de ele ser um novo vírus faz com que o organismo desenvolva uma reação inflamatória exacerbada na tentativa de eliminá-lo. Essa resposta exacerbada é o principal fator relacionado às formas mais graves de doença.

iSB – Como ocorre a evolução para a dengue hemorrágica? É possível sobreviver quando se chega nesse estágio da doença? O tipo hemorrágico é o único que pode levar à morte?

Ana Verônica Mascarenhas Batista – A resposta inflamatória exacerbada é o principal fator relacionado à evolução para as formas mais graves de doença. As consequências da resposta inflamatória são a ativação da cascata de coagulação e o aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos. O aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos faz com que haja extravasamento do conteúdo intravascular de dentro para fora dos vasos o que leva à diminuição do volume sanguíneo, queda da pressão sanguínea, além de perda de plaquetas. Alguns dos distúrbios decorrentes da ativação da cascata de coagulação são também a queda das plaquetas e os sangramentos.

iSB – O que é a síndrome do choque da dengue? Como ocorre?

Ana Verônica Mascarenhas Batista – Tanto a queda de volume dentro dos vasos decorrente do extravasamento de líquidos de dentro para fora deles quanto os fenômenos hemorrágicos podem desencadear a síndrome de choque - uma intensa diminuição de pressão sanguínea, que, se não corrigida, é incompatível com a manutenção do funcionamento do organismo e da vida.

"O tratamento da dengue é essencialmente hidratação que pode ser por via oral, nos casos sem sinais de gravidade, ou por via intravenosa, quando na presença de qualquer sinal de alarme."

iSB – Como funciona o tratamento? Qual o tempo que o infectado tem, após picado, para procurar um médico?

Ana Verônica Mascarenhas Batista – O tratamento da dengue é essencialmente hidratação que pode ser por via oral, nos casos sem sinais de gravidade, ou por via intravenosa, quando na presença de qualquer sinal de alarme. São utilizados também os medicamentos para controle da febre, das dores e para controle dos vômitos. Nos casos mais graves, pode haver necessidade de transfusão de plaquetas ou concentrado de hemácias e os casos de choque devem ser manejados em UTI. Na maioria das vezes, a pessoa não identifica o momento em que foi picada e também não há necessidade de buscar atendimento caso o perceba, pois não há o que se fazer para evitar o aparecimento dos sintomas. Não existe medicamento específico para o vírus.

iSB – Como evitar a proliferação da doença? É possível eliminar de vez a dengue?

Ana Verônica Mascarenhas Batista – Para o controle da dengue são necessárias  diversas  ações: 1- conscientização da população com o objetivo de cuidar do seu ambiente, principalmente o domicílio e peridomicílio (sua área externa), eliminando-se os hábitos que favorecem a manutenção dos criadouros – eliminar água dos vasos de plantas, não jogar recipientes que possam juntar água no peridomicílio, manter depósitos de água tampados; 2- ações dos poderes públicos para viabilização de saneamento, como oferta de água encanada, coleta regular do lixo; 3- ações diretas dos órgãos de vigilância epidemiológica - visitas domiciliares dos agentes de saúde para investigação de focos, utilização de fumacê nas áreas com índices elevados de infestação, entre outras. Vale ressaltar que as ações da vigilância estão diretamente vinculadas à prática de notificação dos casos suspeitos pelos profissionais de saúde ou mesmo pela pessoa que apresente sintomas sugestivos em situações de epidemia.

Eliminar o vetor parece ser impossível, segundo os pesquisadores. São mosquitos totalmente adaptados ao ambiente urbano, cujas condições atuais são altamente favoráveis à sua disseminação. No entanto, os resultados preliminares das pesquisa referentes ao desenvolvimento de vacinas parecem ser animadores.

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