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Publicada em 14/07/2020 às 16h14. Atualizada em 15/07/2020 às 09h46

Violências contra as mulheres sob a ótica da psicologia social

Entenda como a psicologia analisa a violência de gênero, em especial contra mulheres

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Diversos estudos, especialmente na área de Ciências Sociais, apontam para a necessidade de adotar uma perspectiva de análise com base nas construções sociais e culturais em torno do ser homem e ser mulher em nossa sociedade. Perspectiva que define “gênero” como o produto dessa construção e elege essa categoria como eixo central na análise de fenômenos sociais que evidenciam a aceitação social do domínio dos homens sobre as mulheres, condição absolutamente favorável à concretização de violências de todas as ordens.

"Por muito tempo, e ainda hoje para algumas abordagens e interpretações, a psicologia defendeu o funcionamento dos indivíduos com base em diferenças sexuais..."

Quanto à psicologia, em larga medida, acabou por ecoar ideias preconizadas por outros campos do saber intelectual, científico, religioso e ideias incorporadas ao senso comum, afirmando diferenciações fixas entre os gêneros. Por muito tempo, e ainda hoje para algumas abordagens e interpretações, a psicologia defendeu o funcionamento dos indivíduos com base em diferenças sexuais, por via de classificações baseadas em características biológicas, associadas às diferenças de personalidade/performance dos sexos feminino e masculino – uma visão que trata a diferença entre mulheres e homens por meio de características essencialistas e a construção de subjetividades por meio da lógica androcentrista-heteronormativa-dominante. Essa posição tem sido rebatida por diversos psicólogas/os, especialmente aqueles alinhados a uma psicologia social crítica, que busca exatamente explorar as dimensões sócio-histórico-políticas dos fenômenos sociais, a fim de questionar e denunciar estruturas mantenedoras de domínios entre indivíduos e grupos, via de regra, produtoras de sofrimentos e injustiças sociais. Dessa posição decorrem diversas interrogações aos fundamentos de práticas sociais e políticas, seus métodos de intervenção, suas implicações na socialização e individuação dos sujeitos, entre outros aspectos.

Em concordância com a Psicologia Social na linha dos estudos de gênero, se as subjetividades são tecidas nas interações sociais, problematizar as questões de gênero é preciso, tanto na identificação de como padrões psicossociais condicionam as mulheres ao sofrimento quanto para constatar como esses padrões são reforçados na sociedade.

A psicologia, no auxílio a pessoas e coletividades em diversas condições, precisa estar preparada para lidar com as mulheres em sofrimento diante das violências e para combater amplamente que ela seja perpetuada em todos os setores da vida, como algo naturalizado, em função das concepções distorcidas de papéis sociais do homem e da mulher. Esse movimento requer, ainda, que se concebam as mulheres em sua diversidade, observando o fenômeno em articulação com outros marcadores sociais (raça, classe, idade, religião e outros), que se sobrepõem nas desigualdades, com abrangência de fatores históricos, culturais, políticos e econômicos que estão em jogo.

No entanto, em que pese um esforço conjunto de psicólogas/os e pesquisadores em Psicologia, no sentido de relacionar as construções de gênero ao grave quadro expresso nas estatísticas acima, esta perspectiva ainda é insuficientemente explorada. Os estudos existentes, via de regra, constatam números absolutamente inexpressivos de Psicólogas/os que consideram, em suas atuações e construções teórico-conceituais, a dimensão de gênero para abordar o problema das violências.

Dessa forma, diante da série de sofrimentos de diversas ordens que recaem sobre as mulheres, em decorrência de quadros de violências geradores de intensos e, por vezes, permanentes estados de sofrimento, este estudo pretende contribuir com as perspectivas sociais críticas da profissão, que requerem a participação da Psicologia na busca de entendimento e de formas de enfrentamento das violências contra as mulheres, e, portanto, o seu compromisso social. O objetivo deste é analisar, criticamente, as formas como a Psicologia tem abordado as violências contra as mulheres, em particular sob a perspectiva de gênero.

Para tal, foram analisadas diversas abordagens, a partir de registros produzidos por entidades reguladoras e associativas da profissão, bem como artigos científicos em Psicologia, publicados em periódicos nacionais, entre os anos de 2013 e 2017. 

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Palavras Chave:

Psicologia violência mulher
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