podcast do isaúde brasil

Publicada em 19/06/2020 às 09h25. Atualizada em 26/06/2020 às 10h31

Você já ouviu falar na estomatite gangrenosa?

Os casos mais frequentes acometem crianças de 2 a 7 anos de idade. Saiba mais sobre essa enfermidade.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
Compartilhe

"A estomatite gangrenosa afeta principalmente a face dos pacientes, mas pode aparecer em outros partes do corpo, como o couro cabeludo, pescoço, períneo e vulva."

Estomatite gangrenosa, noma ou Cancrum oris é uma patologia orofacial que acomete a sociedade há séculos. Diversos autores já documentaram sua maior frequência no continente europeu e na América do Norte. Com o passar do tempo e com a globalização, esse quadro sofreu alteração na sua incidência e países em desenvolvimento passaram a relatar um número maior de casos, na África, Ásia e América do Sul.

A estomatite gangrenosa afeta principalmente a face dos pacientes, mas pode aparecer em outros partes do corpo, como o couro cabeludo, pescoço, períneo e vulva. Entretanto, os casos mais frequentes acometem crianças de 2 a 7 anos de idade que apresentam um quadro clínico de má nutrição, higiene inadequada e condições de pobreza extrema. Tem sido definida como uma doença causada por múltiplos fatores, acarretando a descompensação da microbiota oral e consequentemente dos tecidos periodontais do paciente. A sua origem pode envolver a deficiência de ácido fólico, o qual altera a integridade das células epiteliais gengivais e também acarreta aumento na permeabilidade do sulco gengival. Entre as deficiências nutricionais, a carência de ácido ascórbico também contribui para a biossíntese de um tipo de colágeno mais amorfo, com diminuição da força tênsil. 

Sabe-se que a má nutrição causa uma desordem na flora bucal do paciente e pode interferir na imunidade do indivíduo. Diante disso, alguns casos raros de estomatite gangrenosa já foram também relatados em pacientes adultos desnutridos ou imunodeficientes. Pacientes com diabetes mellitus, doenças infecciosas e síndrome da imunodeficiência adquirida apresentam também uma maior predisposição. Tem sido documentado na literatura o envolvimento de cepas virulentas das espécies Fusobacterium e Prevotella no desenvolvimento dessa condição. 

"Sabe-se que a má nutrição causa uma desordem na flora bucal do paciente e pode interferir na imunidade do indivíduo."

Muitos dos pacientes afetados pela patologia têm como quadro inicial uma lesão aftosa, uma úlcera intraoral pequena, a qual progride em menos de 72h e forma uma placa gangrenosa. Ocorre destruição da barreira protetora da mucosa, fato esse que possibilita a entrada de bactérias que destroem os tecidos moles e duros do paciente. Se estabelece um quadro de gengivite ulcerativa necrosante (GUN), com alterações inflamatórias intensas que evoluem para um processo de necrose, hemorragia e dor intensa e, na maioria dos casos, leva à destruição de grande parte dos tecidos da esfera orofacial. 

A GUN pode ser tratada por meio da instituição de medidas de higiene oral. Porém, em crianças malnutridas, há uma grande chance de essas medidas não impactarem positivamente, sendo necessário o uso de antibióticos. 

O quadro clínico de noma agudo possui três estágios: no primeiro estágio, o paciente apresenta edema e intensa halitose; o segundo, é identificado por necrose, que se estende rapidamente pelos tecidos faciais adjacentes; por fim, o terceiro estágio é caracterizado pela descamação e cicatrização da região afetada, pois após a demarcação da área necrótica, ela começa a se desprender do tecido. Normalmente, muitos dos pacientes não sobrevivem nesse estágio.

A diferenciação entre o estágio inicial e tardio do noma é essencial para determinar a escolha do tratamento. Dessa forma, na fase inicial, a escolha deve contemplar a administração de antibióticos e tratamentos específicos para doenças coexistentes. Por fim, com o estágio inicial superado e com melhora no estado nutricional, o tratamento cirúrgico com a reconstrução pode ser instituído. Como todo portador de estomatite gangrenosa, em geral, tem um organismo deficiente em vitaminas, urge a adoção de complementação com as vitaminas A, B, C e D. Esse grupo de vitaminas agirá melhorando a resistência orgânica e favorecendo a cicatrização de lesões, principalmente nas mucosas. 

Referências:

CORRÊA, Antônio. Vitaminoterapia no noma (estomatite gangrenosa) – a propósito de um caso curado (1). BJORL, 1944. Disponível em: http://oldfiles.bjorl.org/conteudo/acervo/acervo.asp?id=1140. Acesso em: 05 de março de 2020.

VALADAS, Gabriela; LEAL, Maria. Cancrum Oris na Infância. Apresentação de Caso. CENTRO HOSPITALAR UNIVERSITÁRIO LISBOA, 1995. Disponível em: http://hdl.handle.net/10400.17/1747. Acesso em: 05 de março de 2020.

JIN, et al. Staged lower lip reconstruction following gangrenous stomatitis in an immunosuppressed patient. ACFS, 2018. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6177670/. Acesso em: 05 de março de 2020.

KIM, Pedro; DIRK, Smit; JEAN, Morkel. Cancrum Oris (noma) in an HIV positive adult: a case report and literature review. SADJ, 2016. Disponível em: http://www.scielo.org.za/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-85162016000600004. Acesso em: 05 de março de 2020.

SROUR, M; MARCK, Klaas; MAYER, Denise. Noma: Overview of a Neglected Disease and Human Rights Violation. ASTMH, 2017. Disponível em http://www.ajtmh.org/content/journals/10.4269/ajtmh.16-0718. Acesso em: 05 de março de 2020.

ALVES, et al. Noma: uma revisão de literatura. BJSCR, 2018. Disponível em: https://www.mastereditora.com.br/periodico/20180103_164406.pdf. Acesso em: 05 de março de 2020.

Compartilhe

Saiba Mais