podcast do isaúde brasil

Publicada em 27/08/2020 às 07h23. Atualizada em 27/08/2020 às 11h08

Você tem sido gentil consigo mesmo em tempos de pandemia?

Uma reflexão acerca do bem-estar.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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"A COVID-19 nos incita a mergulharmos no nosso mundo interior e ouvir a música que ele quer que nós ouçamos."

As relações estão sublinhadas no que chamamos de modernidade. Nesse processo do mundo moderno e suas novas configurações nos deparamos com as diferentes formas de lidar conosco e com as nossas relações. Os diagnósticos psiquiátricos, a indústria farmacêutica, o enaltecimento de um belo inatingível e as irradiações do consumismo, nos afastam de quem somos, nos afastam das nossas vontades e do que realmente queremos. Esses fatores de estresse nos afastam da essência de quem realmente somos e do nosso papel no mundo, nos tornando meros reprodutores sem ao menos termos consciência do que estamos fazendo. Nesse tempo moderno e incerto, de pandemia, estamos cheios e saturados de tanto empenho, produção e necessidade de pausa. A COVID-19 nos incita a mergulharmos no nosso mundo interior e ouvir a música que ele quer que nós ouçamos. 

Por vezes, acreditamos que nossas relações estariam desaparecendo por conta da inconstância, das inseguranças, dos medos e da liberdade de escolha. As pessoas desse novo mundo pandêmico, muitas vezes, se inserem em um imediatismo a procura de uma nova amizade, um novo amor, um uma nova roupa, um novo filtro do Instagram ou uma nova edição de imagem pelo Facetune, ainda que dentro de casa, porque o que temos não é o bastante, não é o suficiente, necessita de autoafirmação, de visibilidade, de likes, de ser alguém que você não é para se adequar aos padrões impostos sem ao menos questionar se isso realmente vem do seu desejo, sendo inevitável a procura de novos, ou velhos, horizontes: a procura de escuta, de ser amado, de atenção. 

A construção, reconstrução e reformulação das nossas demandas tornam-se muito complexas e, às vezes, é mais fácil partir para outros espaços do que continuar nesse longo processo de estruturação e deixar nas mãos de outra pessoa o destino da nossa felicidade. A gente se acostuma com o que fere, repetitivamente, por acharmos que não somos merecedores. Mas, somos merecedores e temos que respeitar a nossa história e, não seria diferente, com a situação que estamos experienciando e vivenciando atualmente.

 Se enxergar bem, se amar, se respeitar, se entender, se ouvir, se bem-dizer. É preciso deixar algumas coisas irem embora para que novos ciclos possam se abrir. E, nada mais justo, do que mergulharmos de cabeça no tempo que a COVID-19 está nos trazendo para descobrir como podemos ser melhores e como utilizarmos o nosso poder de antifragilidade para se beneficiar com o caos e em meio ao caos, reinventar o fluxo das coisas, mudar o rumo, fazer algo que a gente nunca fez, se aventurar, cozinhar, prosperar e crescer tornando-nos apreciadores do desconhecido, das desordens e do risco, com a melhor versão de quem somos e fazendo do autocuidado nosso amigo diário. 

É necessário o entendimento de que não temos um controle remoto e não podemos controlar tudo. E está tudo bem. A nossa singularidade e nossa subjetividade nos faz sermos únicos. Não se pode assumir as responsabilidades e projeções do outro. O eu narcísico, às vezes, insiste em aparecer nos tornando meros mortais egoístas a ponto de ver apenas o que é de interesse nosso e onde se pode reconhecer a si mesmo, como um espelho refletindo a própria imagem e semelhança, nos distanciando da alteridade do outro e só o enxergando quando enxergarmos a nós mesmos pelas nossas ações e nosso próprio abandono. 

Não se pode transformar o outro simplesmente em um objeto de cobiça e desejo sem delinear os diversos processos que ocorrem. A nossa própria sobrecarga do dia a dia, o nosso senso perfeccionista e de cobrança fazem com que a gente adoeça e o efeito que isso tem sobre nós alimenta nossa fatiga, nosso desconforto e nosso desprazer perante o sentido da vida que, frequentemente, despojamos em um processo de culpabilização do outro sem distanciarmos o que é nosso do que é do outro.

"O nosso próprio abandono faz a gente imergir em um completo abismo onde a gente não consegue se encontrar, a depressão surge e nossos medos interiores afloram..."

O nosso próprio abandono faz a gente imergir em um completo abismo onde a gente não consegue se encontrar, a depressão surge e nossos medos interiores afloram, a gente se esvazia de nós mesmos. Nesse período de pandemia, a gente precisa lidar com a gente mesmo todos os dias. Todos os dias são novas descobertas, motivações e incentivos. Tem dias que não vamos conseguir levantar da cama, mas tem dias em que iremos lembrar que os dias nublados também passam. Essa jornada chamada autoconhecimento sempre fez parte desse nosso mundo, mas ainda assim, muitas pessoas não se aventuram em desvendar os seus mistérios. 

Com a pandemia, a gente não teve escolha se não nos questionarmos sobre quem realmente somos ou o que gostamos de fazer. Constantemente, nós damos o poder ao outro sobre as nossas próprias escolhas, a gente se submete a diversas situações que adoecem por ter que corresponder a expectativa de um outro que tem as suas próprias demandas e  internaliza as demandas de outras pessoas, dessa forma, surge esse ciclo repetitivo: nunca somos o suficiente para o outro e nem para nós mesmos, sendo que tudo que nós precisamos é ser suficientemente gratos, leves, pacientes, gentis conosco e, posteriormente, com o outro.

Ser gentil é aclamar as qualidades; dar voz a paz interna; se ver e refletir por meio do amor; acolher  as dificuldades; lidar com o julgamento que temos sobre nós mesmos; lidar com nossos processos de comparação (somos seres únicos e com excelência da nossa essência onde cada um tem um propósito diferente); guardar o que for bom e ressignificar o que machuca; se olhar no espelho e respeitar as curvas do nosso corpo; fazer skincare; dançar; escutar uma música; tocar ou aprender algum instrumento; tirar um dia para si mesmo; ligar para os amigos; brincar com os bichinhos; ler aquele livro que estava na prateleira e que você não lia por achar que não conseguia entende-lo ou que não tinha um repertório tão robusto a ponto de conseguir compreende-lo, porém você foi capaz de explica-lo detalhadamente; ver aquele filme que você gosta; fazer atividades físicas para diminuir a ansiedade e o estresse; fazer uma meditação diária, yoga, aromaterapia ou outras práticas integrativas; Ou, é ser você. Fazer você. Se reconhecer enquanto você.

A pandemia serve de instrumento para nos deslocar do nosso lugar de origem e da nossa acomodação começando a visualizar os processos e começando a acolher o que vem de dentro que, muitas vezes, pode ser o caos tentando se desafazer, refazer e encontrar o seu fluxo da vida. Pode ser comparada com a música que com muita mansidão e atenção nos acalma e transmitindo as sensações, percepções, emoções e mudanças que acontecem no nosso corpo e fora dele ao ouvi-la. 

Pensar nas nossas relações, nas demandas do mundo contemporâneo e suas configurações, nos convocam a ter um olhar mais sensível ao afetos e desafetos que essa pandemia nos trouxe. Cada um tem o seu tempo e, possa ser, que o insight seja exatamente a partir da leitura desse texto. Como você tem sido a sua melhor versão na quarentena? Você tem sido gentil consigo mesmo? Essas respostas você só encontrará quando entrar em contato com uma conhecida, às vezes desconhecida e estigmatizada, mas tão importante e fundamental para construção e florescimento do nosso jardim que nos guiará ao nosso caminho e trajetória de vida: a terapia.

Referências:

1. Han, B. C.  (2017). Agonia do Eros. Petrópolis: Vozes. 

2. Taleb, N. N. (2012). Antifragile: Things that gain from disorder. New York: Random House.

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