podcast do isaúde brasil

Publicada em 12/02/2020 às 13h15. Atualizada em 13/02/2020 às 18h12

HTLV: O que o cirurgião-dentista precisa saber?

Conheça as formas de transmissão, tratamentos e a relação do HTLV com a saúde oral.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
Compartilhe

"... o vírus linfotrópico de células T humanas (HTLV) foi descoberto em 1980, atinge 1,8 % da população soteropolitana e apresenta altos índices de morbimortalidade em todo mundo."

Pertencente à mesma família do vírus da imunodeficiência humana (HIV), o vírus linfotrópico de células T humanas (HTLV) foi descoberto em 1980, atinge 1,8 % da população soteropolitana e apresenta altos índices de morbimortalidade em todo mundo.

Sua transmissão ocorre por relações sexuais desprotegidas, compartilhamento de materiais perfurocortantes, transfusão sanguínea e pela circulação materno-fetal durante o parto ou amamentação, sendo o risco aumentado durante o aleitamento materno devido ao maior tempo de exposição do bebê ao vírus.

Os indivíduos infectados podem desenvolver um tipo característico de neoplasia, a leucemia de células T do adulto (LLcTA) ou uma condição neurológica de caráter progressivo, a mielopatia associada ao HTLV / paraparesia espástica tropical. Manifestações clínicas mais leves podem ser associadas aos pacientes sintomáticos para o HTLV e cursam com debilidade do estado de saúde geral dos indivíduos, a exemplo da artrite, uveíte, escabiose, dermatite infecciosa e tuberculose, além da possibilidade de coinfecções com outras infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis e HIV. 

A negligência no atendimento a pacientes portadores de HTLV é marcante no Brasil, onde o vírus não é considerado uma doença de notificação compulsória. A triagem sorológica obrigatória é requerida apenas para os doadores de sangue, tendo sido iniciada em 1993, com a Portaria 1.376, do Ministério da Saúde. Não existe cura nem vacinas contra o HTLV, de forma que a sua prevenção ocorre por meio da quebra da cadeia de transmissão, com o diagnóstico dos infectados e orientação da população geral.

Diversos trabalhos evidenciam o desconhecimento dos profissionais de saúde sobre o vírus, o que torna o diagnóstico mais tardio e favorece a evolução da doença. O cirurgião-dentista e os estudantes de Odontologia, em sua grande maioria, não conhecem o HTLV e suas manifestações clínicas. Em uma pesquisa realizada por Gomes et al. (2015), onde foram entrevistados 140 graduandos de Odontologia, 39,55% não sabiam o que era o HTLV e alguns acharam que esse vírus era o mesmo vírus do HIV. 

É de suma importância que o cirurgião-dentista conheça o vírus HTLV, sobretudo aquele que exerce a profissão em regiões endêmicas, como a cidade de Salvador, para que possa atuar de forma multidisciplinar com esse paciente, percebendo o seu processo de saúde-doença de forma ampla.

Importante considerar que tais pacientes estão mais predispostos a manifestações bucais decorrentes da doença e isso condiciona a necessidade de uma avaliação criteriosa, no que se refere a aspectos estomatológicos (análise de tecidos moles e possíveis lesões ou alterações causadas pelo uso contínuo de medicamentos), periodontais (pacientes portadores de HTLV apresentam maior gravidade da doença periodontal) e salivares (alterações relacionadas à doença podem levar à maior predisposição à formação de cárie).

"Sabe-se que o HTLV não é agente etiológico de manifestações bucais, mas a presença exacerbada de alguns fatores inflamatórios e o uso contínuo de medicamentos podem ocasionar o desequilíbrio da homeostasia bucal."

Sabe-se que o HTLV não é agente etiológico de manifestações bucais, mas a presença exacerbada de alguns fatores inflamatórios e o uso contínuo de medicamentos podem ocasionar o desequilíbrio da homeostasia bucal. Os corticoides, interferon-?, vitamina C, em altas doses, heparina, azatioprina e anticorpos anti-IL-2, que representam opções terapêuticas para o tratamento do HTLV estão associados a eventos adversos sobre a cavidade bucal e podem alterar de forma significativa o fluxo salivar do paciente, causando lesões na mucosa. Dentre os eventos adversos mais recorrentemente relatados, incluem-se: xerostomia (redução de fluxo salivar), disgeusia (alteração do paladar), estomatite (inflamação da mucosa), glossite (inflamação da língua), hiperplasia gengival (crescimento gengival) e úlceras (feridas na mucosa).

O atendimento odontológico ao paciente HTLV positivo deve ser realizado de maneira segura, mantendo o controle das infecções cruzadas por meio da utilização correta dos equipamentos de proteção individual, que evitam o contato direto com os fluidos orgânicos dos pacientes e limitam a propagação dos micro-organismos, além de auxiliar no seguimento dos processos de descontaminação / esterilização e instrumentais. O atendimento integral prevê também uma anamnese completa com a investigação do estado clínico do paciente questionando sobre a presença de sintomatologias para o vírus HTLV ou se o paciente faz o uso contínuo de medicamentos; no exame físico é de fundamental importância que se observe sinais e sintomas que possam sugerir manifestações clínicas precoces das condições associadas ao vírus HTLV.

Em conclusão, é possível constatar que, diante das muitas interfaces da Odontologia com o HTLV, é imprescindível que o cirurgião-dentista conheça sobre esse vírus, bem como as particularidades no cuidado e manejo de pacientes portadores. O avanço nessa caminhada de conhecimento possibilitará que o profissional da área de Odontologia contribua efetivamente para o diagnóstico, prevenção, orientação e atendimento qualificado, humanizado e efetivo dos pacientes soropositivos, cumprindo, portanto, o seu real papel como profissional de saúde.

Compartilhe

Saiba Mais