podcast do isaúde brasil

Publicada em 27/01/2020 às 13h10. Atualizada em 27/01/2020 às 13h39

Comportamento de “garanhão” pode indicar transtorno psicológico

Confira a segunda parte da entrevista com a psicóloga Silvana Melo sobre satiríase.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
Compartilhe

Leia a primeira parte da entrevista: Ninfomania todo mundo sabe o que é. Mas em satiríase ou donjuanismo, você já ouviu falar?

"Esse comportamento remete ao conflito inconsciente vivenciado pelo homem quando criança, dentro do Complexo de Édipo."

iSaúde - O comportamento de Don Juan pode evidenciar que tipo de problemas ou aspectos na relação desse homem com seu pai e sua mãe? Há algum estudo na literatura? Quais são as possíveis causas?

Silvana Melo - Há estudos que evidenciam a existência de um conflito inconsciente no "donjuanismo". O homem que apresenta a síndrome de Don Juan sente a necessidade de seduzir o tempo todo e, normalmente, tem como alvo de sua sedução uma pessoa difícil de conquistar, pois, às vezes, a vítima tem uma situação civil proibida (é casada, freira, irmã ou filha de um amigo, por exemplo). O escritor Carlos Fuentes alega a sua versão da personagem, criada pelo escritor Tirso de Molina (1579-1648) e presente em várias outras obras literárias, com a seguinte frase: "Porque nenhuma mulher me interessa se não tiver um amante, marido, confessor ou deus ao qual pertença". Assim, esse comportamento evidencia o desejo de seduzir e conquistar a figura feminina proibida, representando a mãe, e tem como rival a figura masculina, representando o pai, com quem pretende duelar e vencer, recebendo como prêmio a mulher desejada – o que nunca acontece, de fato, pois ele não estabelece nenhum relacionamento duradouro com nenhuma delas. Esse comportamento remete ao conflito inconsciente vivenciado pelo homem quando criança, dentro do Complexo de Édipo. Alguns autores interpretam o "donjuanismo" como a fixação na figura materna, já que muitos deles não constituem família e terminam vivendo eternamente com suas mães. A psicanálise estudou muito essa síndrome. Segundo ela, o "donjuanismo" está ligado ao Complexo de Édipo mal elaborado e, até mesmo, não elaborado, causando assim sentimento de culpa por um desejo incestuoso, proibido, recalcado no inconsciente. Ainda segundo a psicanálise, o sentimento de culpa aciona o superego (que é a "censura"), fazendo com que Don Juan procure por mulheres compulsivamente, mas não consiga sentir prazer com nenhuma delas. Inconscientemente, eles sentem que devem ser punidos por haver traído o seu pai em seu desejo incestuoso com a mãe.

iSaúde - A cultura machista não transforma esse comportamento em algo tolerável?

Silvana Melo - Apesar de a cultura machista estimular uma alta frequência sexual no sexo masculino e os homens se sentirem mais viris quando têm uma vida sexual extremamente ativa, a compulsão sexual se torna um problema porque existe uma falta de controle sobre o desejo sexual, a ponto de interferir nas tarefas do dia a dia do mesmo. Além do mais, o sexo deixa de ser um prazer e passa a ser sinônimo de dor. O homem tem uma sensação de ter perdido o controle de suas vontades. Com o passar do tempo, os sintomas se exacerbam e ele tende a se expor a situações perigosas e vexatórias. Esse comportamento negativo de cunho moral é menos aceito pela sociedade.

iSaúde - Há tratamento? Ele envolve apenas terapia ou uso de alguma medicação?

Silvana Melo - Normalmente, a satiríase é tratada como os demais tipos de dependência, portanto ele deve buscar um tratamento psiquiátrico e psicoterápico. O tratamento psiquiátrico geralmente adota o uso de antidepressivos, que regulam a serotonina e podem ajudar a diminuir o desejo sexual, a ansiedade, os pensamentos obsessivos e a aumentar o autocontrole e o bom humor.

iSaúde - Quais são os principais transtornos que isso pode causar às pessoas que se envolvem com indivíduos que têm esse perfil? 

Silvana Melo - Em primeiro lugar, é importante lembrar que existem pessoas que se sentem particularmente atraídas pelo homem que apresenta esse perfil sedutor. Essas pessoas que têm uma personalidade que busca ser seduzida são mais vulneráveis e até buscam, inconscientemente, um relacionamento com um sedutor. Como o "donjuanismo" se caracteriza pela compulsão em busca da sedução pelo sexo, traz consigo um comportamento que pode levar o sofrimento àquelas pessoas com as quais eles se envolvem. O homem que desenvolve a síndrome de Dom Juan sente prazer apenas na fase da conquista. O prazer dele é seduzir. Quando atinge esse objetivo, perde o interesse pela vítima e assume um comportamento frio e distante. Assim, a pessoa que está envolvida, muitas vezes apaixonada, pode sofrer demasiadamente com esse comportamento. Em termos sexuais, o risco que essa vítima corre é de contrair alguma doença sexualmente transmissível, pois é extremamente comum as frequentes relações sexuais ocorrerem sem camisinha.

iSaúde - Em alguns lugares, há uma comparação entre Satiríase e ninfomania. Faz sentido? 

Silvana Melo - Na verdade, tanto a satiríase quanto a ninfomania se caracterizam pelo desejo sexual exagerado, sem nenhuma causa orgânica. Ambas são consideradas um transtorno psíquico caracterizado por um comportamento compulsivo. Tecnicamente falando, ninfomania se refere à mulher, e a satiríase ou "donjuanismo" ao homem. No entanto, o termo ninfomania se expandiu, incluindo os homens que têm um forte desejo sexual, um excessivo desejo sexual, chegando a ser insaciável. Tanto o homem como a mulher que apresentam esse transtorno não conseguem se satisfazer sexualmente em um ato sexual, por isso a busca, de maneira compulsiva, por essa satisfação através de várias relações sexuais, gerando sentimentos de arrependimento, de culpa, de angústia e também de ansiedade. É interessante destacar que a mulher ninfomaníaca pode ter compulsão por afeto, com múltiplos parceiros, e não apenas a compulsão por sexo. Ter relacionamentos afetivos pode se tornar uma fonte de alívio momentâneo para a mulher que tem ninfomania.

"É interessante destacar que a mulher ninfomaníaca pode ter compulsão por afeto, com múltiplos parceiros, e não apenas a compulsão por sexo. Ter relacionamentos afetivos pode se tornar uma fonte de alívio momentâneo para a mulher que tem ninfomania."

iSaúde - Por que se fala tanto em mulheres ninfomaníacas como “uma ideia já consolidada no imaginário coletivo no Brasil” e não se vê os satíricos com a mesma repercussão? 

Silvana Melo - Em nossa cultura, aprendemos a enxergar a alta frequência sexual masculina como algo natural e até admirável. No entanto, o mesmo não acontece com a mulher. Apesar da revolução sexual, que ocorreu na década de 1960, e mesmo diante do posicionamento e empoderamento feminino na atualidade, a expressão do desejo sexual e uma alta frequência sexual por parte da mulher ainda é alvo de crítica e reprovação por parte da sociedade. Portanto, quando a sociedade se depara com a ninfomania, de fato isso chama muito mais a atenção das pessoas. Por isso, as pessoas criticam, reprovam e, consequentemente, falam mais sobre o assunto, e assim o termo “ninfomania” se tornou muito mais conhecido e até mesmo utilizado entre as pessoas.

Compartilhe

Saiba Mais