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Publicada em 27/01/2020 às 12h35. Atualizada em 27/01/2020 às 16h29

Você sabe o que é cárie de radiação?

Causas, sintomas e tratamento. Saiba mais sobre esse problema.

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"A cárie de radiação, por sua vez, representa uma das diversas manifestações orais tardias decorrentes do tratamento radioterápico em pacientes com câncer de cabeça e pescoço."

A cárie dentária é uma doença multifatorial de grande ocorrência, responsável pela desmineralização das estruturas dentárias. Fatores como tipo de dieta e higiene oral deficiente propiciam o desequilíbrio da microbiota da cavidade oral, o que acarreta perdas irreversíveis do tecido dentário.

A cárie de radiação, por sua vez, representa uma das diversas manifestações orais tardias decorrentes do tratamento radioterápico em pacientes com câncer de cabeça e pescoço. A radioterapia compreende a utilização de radiação ionizante eletrocorpuscular ou eletromagnética, que tem como objetivo a inibição e/ou destruição das células tumorais por meio da ação direta e indireta sobre o DNA celular. Essa modalidade terapêutica é amplamente empregada no tratamento de carcinomas orais devido aos seus benefícios, todavia, a radiação ionizante é capaz de provocar efeitos adversos na cavidade oral que irão depender da dose total de radiação, do local irradiado e das condições sistêmicas do indivíduo. Altos níveis de exposição à radiação podem afetar de forma significativa os tecidos dentários, o que pode favorecer o desenvolvimento da cárie de radiação.

A irradiação nos tecidos dentários, a exemplo do esmalte e da dentina, pode influenciar nas suas estruturas nanomecânicas, diminuindo a resistência do dente à tração e à fratura. Já para os dentes restaurados, a irradiação afeta a ligação de materiais à base de resina. Estas alterações, por sua vez, podem acelerar o processo de evolução da cárie. O tecido pulpar também reage por meio da atrofia e diminuição da vascularidade, de modo que diminui a resposta da dor frente a uma lesão cariosa nesse tecido, podendo ter como consequência a demora na procura de tratamento. Outro fator que deve ser levado em consideração é que o paciente irradiado produz saliva em quantidade insuficiente e de baixa qualidade, tornando-se incapaz de neutralizar os ácidos secretados e de remineralizar o esmalte dos dentes (Figura 1).

Sempre foi uma questão de debate a origem das cáries de radiação. Alguns autores acreditam que esse fenômeno ocorre devido ao efeito direto da radioterapia sobre os tecidos dentários (esmalte, dentina e polpa), enquanto que existe outra linha literária que inclui forma indireta de promover esta sequela por meio do dano direto às glândulas salivares que se encontram dentro do campo de radiação, resultando em hipossalivação.

A hipossalivação, que compreende a diminuição do fluxo salivar, é um dos primeiros efeitos colaterais da radioterapia em região de cabeça e pescoço, pois a radiação ionizante promove rápido efeito sobre as células das glândulas salivares. Além das alterações quantitativas, a saliva também sofre alterações qualitativas por meio de modificações das propriedades antimicrobianas e concentração iônica, com consequente redução da capacidade tampão e do pH, o que interfere diretamente na qualidade do fluido salivar. A média de pH da saliva em pacientes pós-irradiados gira em torno de 5,0, o que é considerado um pH crítico (cariogênico), uma vez que o pH neutro é de 7,0. Além disso, efeitos colaterais agudos da radioterapia, como a mucosite oral e quadros infecciosos de candidíase oral também provocam alterações na dieta dos pacientes, que passam a incluir alimentos macios e ricos em carboidratos, o que também contribui para o desenvolvimento de cáries.

De forma geral, a cárie de radiação possui rápida progressão e alto poder destrutivo. Clinicamente, existem três tipos de lesões. A lesão pode se iniciar na área próxima à gengiva, com progressão para o interior da estrutura dentária, levando, muitas vezes, à amputação da coroa (Figura 2). A lesão dentária também pode iniciar com coloração amarronzada à enegrecida (Figura 3). Outra manifestação clínica, que ocorre com menos frequência, é uma depressão localizada na parte superior dos dentes anteriores (bordas incisais). Com o tempo, a estrutura dentária é destruída deixando a coroa reduzida, irregular e descolorida projetando-se sobre a gengiva (Figura 4). 

Os efeitos da radiação sobre a dentição afetam diretamente a qualidade de vida dos pacientes afetados, portanto, a prevenção deve ser realizada antes de iniciar o tratamento radioterápico através de orientação de higiene local (uso de escova macia, pasta dental fluoretada e fio dental), além de condicionar a cavidade oral do paciente com procedimentos que visem eliminar possíveis focos de infecção. Durante e após o tratamento oncológico, haverá acompanhamento do cirurgião-dentista sobre os efeitos colaterais agudos e tardios da radioterapia loco regional, por meio de intervenções com o uso de substitutos salivares, orientação de higiene oral, mudança de dieta, controle da microflora cariogênica e aplicações frequentes de flúor. Após a conclusão do tratamento oncológico, caso o paciente desenvolva lesões de cárie de radiação, prioriza-se o tratamento restaurador atraumático, todavia, restaurações convencionais podem ser realizadas, de acordo com a indicação individual de cada indivíduo.

Em resumo, o conhecimento sobre a cárie de radiação em pacientes com câncer de cabeça e pescoço permitirá um melhor manejo desta condição através da prevenção e tratamento, a fim de evitar outras possíveis complicações associadas, a exemplo da osteorradionecrose, além de diminuir a morbidade e melhorar a qualidade de vida desses pacientes.

Referências:

1. Konjhodži?-Prci? A, Keros J, Ajanovi? M, Smajki? N, Hasi?-Brankovi? L. IncidenceofRadiation Caries in PatientsUndergoingRadiationTherapy in the Head andNeck Region. PesqBrasOdontopedClinIntegr, 2010; 10(3):489-492.

2. Vissink A, Jansma J, Spijkervet FK, Burlage FR, Coppes RP. Oral sequeleofheadandneckradiotherapy. CritRev Oral Biol Med,2003; 14(3):199-212.

3. Cooper JS, Fu K, Marks J, Silverman S. Late effectsofradiationtherapy in theheadandneck region. Int J RadiatOncolBiolPhys, 1995; 31(5):1141-64.

4. Donato ES, Rodrigues PF, Azevedo LF, Frigo L, Nicolau M, Jeronimo S. Cárie de radiação: efeitos da radioterapia na estrutura dentária. Rev Cubana Estomatol, 2019; 56(1):86-92.

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