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Publicada em 27/05/2015 às 00h00. Atualizada em 13/07/2015 às 09h01

A Violência Psicológica Cotidiana

“É necessário abrir os olhos também para as pequenas violências cotidianas veladas e consentidas por nossa cultura.”

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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É comum na contemporaneidade que, sem perceber, nos envolvamos com violências veladas ou abertas. Quer como vítimas, algozes ou espectadores. Parece inevitável, nessa era de contrassensos, que não sejamos alcançados ou cooptados por algum tipo de violência. A violência é absurdamente comum, é indesculpavelmente cotidiana, é controvertidamente estrela de TV, é contraditoriamente objeto de medo, ódio, consumo, poder e curiosidade. Todavia, desde que o ser humano existe, a violência se expressa como reação através de seus atos e tem-se especializado cada dia mais. A violência é uma questão fundamental para o setor de saúde, devido ao seu impacto nas condições de vida e de saúde da população.

"A violência é uma construção social, de gotas de “permissões” diárias que dispensamos na convivência social."

Etimologicamente, o termo vem do latim (violentia) que quer dizer veemência ou impetuosidade, mas que é melhor referida como (violare) violação. A violência é uma construção social, de gotas de “permissões” diárias que dispensamos na convivência social. Basta refletirmos sobre nossa própria história enquanto humanidade que logo nos deparamos com incongruências notáveis ao que consentimos (ou não) contra o outro. Os tempos de guerra são exemplos disso, tempos difíceis e de sofrimento, em que abrimos uma exceção à matança, moralmente aceita por ambas as nações envolvidas, embora a guerra seja forjada no sangue, nas armas e lágrimas de milhares. O oposto é os tempos de paz, em que não é tolerado que as pessoas sejam violentas ou matem umas às outras, teoricamente, sob pena de prisão. O resultado da violência é o mesmo, em tempos de guerra ou de paz, porém legitimamos concessões justificadas racionalmente às conveniências e interesses de alguns. Entretanto, as marcas e repetições desses atos violentos se reproduzem sem controle algum, em todos os tempos, embora tenhamos leis que abriguem certa tentativa de domínio e de paz.

A partir da perspectiva dos Direitos Humanos, a violência como fenômeno social configura-se sempre como um ato imoral (contraria a moral). De um modo geral, a violência é percebida como ação, estritamente humana, que se dirige como um mal contra o outro. Por ser humana, existe uma dimensão que vem antes de qualquer comportamento violento, a possibilidade de autojulgamento. Portanto, entende-se que diante da possibilidade de uma conduta violenta, sempre existe latente a possibilidade da não violência e do diálogo. Dentro do termo violência, dessa forma, está contida a sua negação, a não violência, que seria a conduta moral esperada já que evita o mal do outro. Dessa forma, a moral é invocada nas relações humanas para reger atitudes em benefício de outrem, o que não se adéqua às consequências geradas pela violência.

Embora a violência seja uma construção social imoral e compartilhada, é dentro de casa que, em primeiro lugar, aprendemos a lidar com as suas diversas expressões. Desde criança, nos acostumamos, aos poucos, a aceitar a violência, como as surras e palmadas que se tornaram sinônimo de educação, os apelidos e adjetivos pejorativos recebidos que fazem sofrer, o bullying feito pelos colegas na escola, a exposição social provocada por um professor pouco cuidadoso, o abuso sexual infantil, na sua maioria praticados pelos próprios familiares, a TV ligada o dia inteiro em programas que exploram a violência urbana de forma sensacionalista, ou mesmo, a falta de escuta do desejo da criança. Na adolescência, essas questões podem se ampliar, pois parece existir uma falta de compreensão, um conflito existencial, incompatibilidade de pensamentos em relação aos pais e amigos, a iniciação sexual que pode acontecer de forma traumática com agressão. Na vida adulta, o trote na faculdade, o chefe autoritário que assedia moralmente, o cônjuge que bate com gestos ou com palavras etc. Pequenas e grandes violências que marcam nossas vidas sobremaneira.

A violência, portanto, está em toda parte, trata-se de um fenômeno multicausal (envolve fatores biológicos, sociais, contextuais e pessoais) e de complexa compreensão. Existem diversos tipos de violência e, segundo o Ministério da Saúde, ela pode se expressar de forma: física, sexual, psicológica e pela negligência. Quanto aos ambientes onde a violência ocorre, é classificada como: doméstica ou infrafamiliar, bullying (na escola), institucional, urbana e rural. Outra classificação diz respeito ao tipo de pessoa atingida por ela, especifica-se: violência contra a mulher (violência de gênero), contra a criança, contra o idoso, contra o índio, contra o negro (racismo) etc.

Para o Ministério da Saúde e estudiosos que trabalham essa questão, os conceitos atribuídos aos diferentes tipos de violência são: 1) Violência física - ocorre quando alguém causa ou tenta causar dano, por meio de força física, de algum tipo de arma ou instrumento que pode causar lesões internas: (hemorragias, fraturas), externas (cortes, hematomas, feridas). 2) Violência sexual é toda a ação na qual uma pessoa, em situação de poder, obriga uma outra à realização de práticas sexuais contra a sua vontade, por meio da força física, da influência psicológica (intimidação, aliciamento, sedução) ou do uso de armas ou drogas. 3) Negligência é a omissão de responsabilidade, de um ou mais membros da família, em relação a outro, sobretudo, com aqueles que precisam de ajuda por questões de idade ou alguma condição específica, permanente ou temporária. 4) Violência psicológica é toda ação ou omissão que causa ou visa causar dano à autoestima, à identidade ou ao desenvolvimento da pessoa. Inclui: ameaças, humilhações, chantagem, cobranças de comportamento, discriminação, exploração, crítica pelo desempenho sexual, não deixar a pessoa sair de casa, provocando o isolamento de amigos e familiares, ou impedir que ela utilize o seu próprio dinheiro. 

A violência psicológica é caracterizada por outras formas: rejeição, desrespeito, depreciação, punições exageradas, mobilização emocional da vítima para satisfazer a necessidade de atenção e carinho do agressor, a agressão dissimulada (o agressor tenta fazer com que a vítima se sinta inferior, dependente e culpada) e as ameaças de morte. Hirigoyen (2006) classificou a violência psicológica em formas distintas: 1) controle; 2) isolamento; 3) ciúme patológico; 4) assédio; 5) aviltamento; 6) humilhação; 7) intimidação; 8) indiferença às demandas afetivas 9) ameaças - “a antecipação de um golpe pode fazer tanto mal ao psiquismo quanto o golpe realmente dado, que é reforçado pela incerteza em que a pessoa é mantida, sob a realidade da ameaça” . Trindade (2005) destaca a sutileza dessa expressão de violência, produzindo sofrimentos comparáveis aos da violência física.

"A violência psicológica é tão ou mais prejudicial que a física, pois a dificuldade no trato do assunto parte da própria definição conceitual, que se mostra inespecífica."

Segundo Colossi e Falkie (2013), estudos das décadas de 1970, 1980 e 1990 apontam para a grande preocupação com o conceituar e definir a violência psicológica. Diferentemente das outras naturezas de violência, com definição e conceitos mais claros, possibilitando melhor detecção e consequente intervenção, a violência psicológica é pouco diagnosticada apesar de ser mais prevalente do que as outras formas de abuso. A violência psicológica é tão ou mais prejudicial que a física, pois a dificuldade no trato do assunto parte da própria definição conceitual, que se mostra inespecífica. Portanto, as violências física e sexual são as mais citadas, pesquisadas, declaradas e denunciadas se comparadas à psicológica e à negligência. Diferentemenet do que é mais comum e reconhecido socialmente como violência, não é preciso ser agredido fisicamente para estar em uma relação violenta. Não existem estatísticas sobre a violência psicológica, devido a sua difícil identificação e escassez de denúncias. Entretanto, as pesquisas indicam que a violência física é normalmente acompanhada pela psicológica.

A identificação da violência física é mais simples, facilitada também pelas marcas que deixa no corpo; os outros tipos necessitam de um profissional capacitado para identificar ou alguém com uma percepção treinada. Entre as modalidades de violência, a violência psicológica é a mais difícil de ser identificada, pois não deixa marcas corporais visíveis, todavia produzem cicatrizes que podem devastar subjetivamente uma vida para sempre. Ela é bastante frequente e suas consequências são muito devastadoras para a vítima, pois podem levar a pessoa a se sentir desvalorizada, rebaixando a autoestima, sofrer de ansiedade, adoecer com facilidade, precipitar transtornos psicológicos ou surtos e, em situações que se arrastam durante muito tempo, se agravadas, podem levar a pessoa a provocar suicídio.

Esse é um problema social grave que impacta sobre a saúde física e mental das vítimas envolvidas, que não pode ser colocada em segundo plano nas políticas públicas de saúde. Não podemos permitir que a violência seja “naturalizada” de tal forma que banalizemos seu impacto sobre a sociedade e sobre o sofrimento humano. Pesquisas apontam para formas de atuações preventivas, portanto, é possível reorganizar a dinâmica vigente, a fim de prevenir e tratar contextos de violência. Estudos também demonstram que a violência psicológica está saindo da invisibilidade, mas que ainda apresentam inúmeras dificuldades a serem vencidas, para o melhor enfrentamento de tão grave natureza de violência. Estimular a vítima a procurar ajuda, seja denunciando o agressor às autoridades competentes, seja buscando um profissional de saúde, especificamente, um psicólogo, seriam medidas assistenciais importantes. Contudo, medidas de promoção à saúde e preventivas devem aumentar como forma de diminuir os impactos sociais e pessoais desse tipo de violência. A melhoria da comunicação e o diálogo entre as pessoas são apontados pela literatura como forma de prevenção de violência, nos diversos setores: pais e filhos, marido e esposa, políticos e cidadãs comuns. 

É necessário abrir os olhos também para as pequenas violências cotidianas veladas e consentidas por nossa cultura, para evitarmos condições precárias de sobrevivência e sofrimento psíquico. Desde o que assistimos na TV, até aquilo que falamos sobre o outro, precisa passar pelo crivo do autojulgamento, antes que sejamos agentes de condução de violência, segundo Baptista (1999), antes que sejamos “amoladores de facas” - especialistas que nos seus discursos legitimam atitudes violentas.

Referências:

  • Baptista, L. A. A cidades dos sábios. São Paulo: Summus, 1999.

  • Brasil, Ministério da Saúde. (2012) Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – 3. ed. atual. e ampl., 1. reimpr. – Brasília : Ministério da Saúde.

  • Abranches, C. D. ; Assis, S. G. (2011) A (in)visibilidade da violência psicológica na infância e adolescência no contexto familiar. Cadernos de Saúde Pública, Vol 27, Iss 5, pp 843-854.

  • Colossi, P. M., Falcke, D.. Gritos no silencia: a violência psicologica no casal. Psico, Porto Alegre, PUCRS, v. 44, n. 3, pp. 310-318, jul./set. 2013

  • Hirigoyen, M.F. (2006). A violência no casal: da coação psicológica à agressão física. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil.

  • Souza, M. V. O. (2011) Produção de sentidos quanto à dimensão moral da violência em jovens. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal da Bahia. 

  • Trindade, Z.A. (2005). Apresentação. In: Alvim, S.A., Souza, L. Homens, mulheres e violência. Rio de Janeiro: Noos. 143p.
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