podcast do isaúde brasil

Publicada em 28/09/2011 às 17h41. Atualizada em 29/09/2011 às 19h18

Alzheimer: atenção aos sinais!

É bom ficar atento. Neurologista explica causas, sintomas e tratamentos para o mal de Alzheimer.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Dificuldades em encontrar as palavras certas para se expressar, falta de concentração, problemas para executar tarefas complexas como pagar contas. Esses são alguns dos sinais da Doença de Alzheimer (DA) ou, como é mais conhecida popularmente, mal de Alzheimer. Hoje se estima que 60% dos casos de demência são em decorrência dessa doença. Para esclarecer o assunto e orientar  familiares, amigos, cuidadores e aqueles que convivem com as vítimas da DA, o iSaúde Bahia entrevistou o Dr. Humberto de Castro Lima Filho, neurologista assistente do setor de eletroencefalografia do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da USP, preceptor do serviço de neurologia do Pronto Socorro Central da Faculdade de Medicina do ABC (SP) e membro titular da Academia Brasileira de Neurologia.

iSB - O que é a doença chamada Mal de Alzheimer? A presença de quais aspectos definem a doença?

HCLF - A Doença de Alzheimer (DA) é a causa mais frequente de demência. Demência é o termo médico usado para definir o quadro clínico caracterizado por comprometimento progressivo da memória e de outras funções cognitivas, tais como raciocínio, julgamento, planejamento, linguagem e funções visuoespaciais, levando a um prejuízo funcional das atividades de vida diária. Tipicamente os pacientes com DA têm esquecimentos para fatos recentes, dificuldade em reconhecer ambientes familiares, em se expressar, compreender e executar tarefas complexas. A DA não é a única causa de demência, mas como já foi dito, é a mais comum, sendo responsável por mais de 60% de todos os casos.

A causa específica da DA ainda não foi definida, mas muito se avançou nos últimos anos. Sabemos que ocorre depósito de proteínas beta amilóide (também conhecidas como placas senis) nos neurônios do córtex cerebral e formação de emaranhados neurofibrilares dentro desses neurônios. Isso leva à morte dessas células, com uma perda neuronal progressiva e atrofia difusa do córtex cerebral.

iSB - É mais comum se manifestar em homens ou mulheres, a partir de qual idade e por quê?

HCLF - Mulheres e homens são afetados com frequência semelhante. O principal fator de risco para a doença é a idade. Quanto mais idoso maior é a chance de o paciente desenvolver a DA. Quinze por cento da população acima dos 65 anos é acometida.

Fatores genéticos também são importantes. A chance de ter a doença aumenta para cerca de 10 a 30%, nos indivíduos que têm um parente de primeiro grau com a doença, sobretudo se ela começou antes do 70 anos.
Recentemente foi identificado um gene chamado APOE épsilon 4 que aumenta o risco para o desenvolvimento da DA. A testagem desse gene não é recomendada como rotina, sendo reservada para protocolos de pesquisa e estudos científicos.

Alguns trabalhos científicos também sugerem que pressão alta, tabagismo, diabetes, sedentarismo, ingestão excessiva de sal, e menor nível educacional também podem aumentar o risco para o desenvolvimento da DA. 
    
iSB - Quão grave ela pode ficar?

HCLF - A DA é uma doença degenerativa progressiva. Inicialmente pode ser um quadro mais leve com esquecimento de fatos recentes, confusão mental discreta, dificuldade em encontrar as palavras certas, dificuldade de concentração, problemas para executar tarefas complexas como pagar contas, dificuldades em reconhecer os ambientes levando o paciente a se perder em locais conhecidos. Nos quadros mais avançados pode haver alteração do comportamento com agressividade e, às vezes, apatia, alucinações, desorientação no tempo e espaço, necessidade de auxílio para as atividades mais básicas (alimentação, higiene pessoal, vestuário), incontinência urinária e fecal. Nas fases terminais o paciente fica restrito ao leito e necessita de cuidados constantes.
A evolução é variável, sendo que alguns pacientes podem progredir para as fases mais avançadas em menos de cinco anos após o diagnóstico, porém, muitos pacientes podem demorar mais de dez anos até evoluírem para o estágio mais tardio.

iSB - A quais sinais devemos ficar atentos para procurar um médico? Que médico procurar? Que serviço (emergência, consultório)?

HCLF - Muitas pessoas temem que suas dificuldades de memória sejam causadas pela DA. O envelhecimento normal pode levar a uma dificuldade muito discreta da memória de curto prazo e lentificação para processar informações, contudo sem interferir nas atividades do dia a dia. No momento em que houver qualquer comprometimento do funcionamento cotidiano, ou qualquer prejuízo no meio profissional, pessoal, familiar ou social, não podemos atribuir os achados ao envelhecimento normal e essa pessoa tem grande chance de estar evoluindo com uma demência, devendo ser avaliada por um neurologista. Não há necessidade de procurar um serviço de emergência, por se tratar de uma doença crônica lentamente progressiva. Portanto, os pacientes com queixa de memória progressiva devem marcar uma consulta com o neurologista que fará um exame clínico e solicitará os exames de imagem e de sangue que forem necessários.  
 
iSB - Existe cura? Se não, existe controle?

HCLF - Infelizmente ainda não existe cura para a DA, mas esse é um campo muito promissor e muita pesquisa tem sido feita. Apesar de não haver um tratamento curativo, existem tratamentos para controle dos sintomas.

Nos pacientes com Alzheimer há uma deficiência de um neurotransmissor chamado acetilcolina. Existem três medicações no mercado que levam a um aumento na quantidade acetilcolina no sistema nervoso central: Donepezil, Galantamina e Rivastigmina. Esses remédios podem melhorar o desempenho cognitivo dos pacientes e facilitar os cuidados pelos familiares. Nos casos moderados a graves, outra medicação chamada memantina também pode ser usada, trazendo alguns benefícios.

Com a evolução da doença outros sintomas podem aparecer. A depressão é uma comorbidade frequente e deve ser tratada preferencialmente com os antidepressivos conhecidos como inibidores seletivos de recaptação da serotonina, assim como terapia comportamental. Ansiedade e agressividade também podem ocorrer e, nesse caso, os familiares devem ser orientados sobre o fato de que esses sintomas são consequências da doença e da dificuldade que o paciente tem de se relacionar com o meio. Por exemplo, até 30% dos pacientes com DA podem evoluir com um quadro no qual eles acreditam que os familiares foram trocados por impostores (conhecida com síndrome de Capgras). Isso torna a convivência com o paciente muito difícil, porém, os cuidadores têm que entender que o paciente não pode ser responsabilizado pela doença. Algumas vezes medicações conhecidas como neurolépticos ajudam no controle do comportamento.
 
iSB - Esta é uma doença rara? Existem comunidades de pessoas com esta doença que eu possa me comunicar?

HCLF - Esta é uma doença comum, atingindo mais de 15% dos indivíduos com mais de 65 anos. Existem várias comunidades na internet. Uma delas é a Abraz que é a Associação Brasileira de Alzheimer, cujo site é abraz.com.br e traz informações para pacientes e familiares. Aliás, recentemente, no dia 21/09, foi celebrado o dia mundial da doença de Alzheimer com o intuito de informar sobre a doença e alertar a população para o diagnóstico.
 
iSB - Existe alguma forma de prevenir os males da doença?

HCLF - O mais importante é levar uma vida saudável. Controlar bem a pressão arterial, o diabetes, o colesterol. Comer menos sal, evitar o cigarro, fazer atividade física regularmente. E, sobretudo, manter o cérebro sempre ativo, ler, estudar, trabalhar, aprender coisas novas, ouvir músicas diferentes, ir ao cinema, conversar com as pessoas, ou seja, sempre exercitar a mente para manter o cérebro em forma. Na minha opinião, esse é o segredo para envelhecer com saúde.

 
iSB - Para os familiares, como é conviver com um portador do Mal? O que ele pode fazer para contribuir para um melhor estado físico e psíquico do paciente?

HCLF - Boa pergunta. O médico que trata do paciente com Alzheimer sabe que não só o paciente precisa de atenção, mas os familiares também precisam ser cuidados. É grande o estresse que os cuidadores sofrem, pois, como se trata de uma doença debilitante, os pacientes demandam cada vez mais auxílio conforme a doença evolui.

Algumas dicas para auxiliar os familiares:

1. Faça um planejamento diário.

2. Seja calmo e paciente ao responder as perguntas repetitivas e comportamentos.

3. Ofereça ao paciente mecanismos de ajuda para a memória, como fazer uma lista por escrito das tarefas diárias, números de telefones importantes, lembretes de como usar os equipamentos domésticos (microondas, telefone...).

4. Mantenha horários fixos para dormir, e evite tirar o paciente da “rotina”.

5. Evite grandes mudanças nos ambientes da casa.

6. Tome algumas medidas de segurança como: chave na gaveta de medicação, não mudar os móveis de lugar para evitar quedas, colocar barras de apoio no banheiro etc.

7. Ajude o paciente nas atividades de cuidado pessoal que ele precisar. Não insista ou brigue se ele não quiser tomar banho naquele momento (deixe para outra hora).

8. Fale lentamente e de forma explicada.

9. Estimule atividade física como caminhadas diárias.

10. Considere a possibilidade de contratar um cuidador (auxiliar de enfermagem, acompanhante de idosos) para ajudar. Isso pode melhorar o desgaste do familiar, e facilitar a convivência com o paciente.   

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