podcast do isaúde brasil

Publicada em 24/09/2019 às 18h06. Atualizada em 26/09/2019 às 10h22

Atenção na hora de fazer xixi!

Conheça um pouco da história de um paciente que teve uma pedra de 1,3 Kg extraída da bexiga.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Sensação de que urinou, mas com esvaziamento incompleto, como se ainda tivesse xixi na bexiga? Pode ser interessante fazer uma investigação com um médico urologista. Este pode ser um sintoma de uma disfunção miccional, que é uma incompatibilidade no ato de a bexiga contrair com o ato de o esfíncter do sistema urinário relaxar. Quem fala um pouco sobre o tema é o médico cirurgião João Cleber Coutinho Pires, que, em maio deste ano, virou notícia internacional pela retirada de uma pedra de mais de 1,3Kg e com 18cm de comprimento, que estava na bexiga de um lavrador. Trata-se da maior pedra já retirada de um organismo humano no mundo. “A gente imagina que esse paciente tinha uma disfunção miccional. Quando nós vamos fazer xixi, a gente relaxa o esfíncter e a bexiga se contrai. Quando essas duas estruturas não estão coordenadas, há uma disfunção e pode acontecer uma obstrução funcional. O paciente, então, acumula urina, obstruindo e retendo sais. É a principal suspeita para o caso desse paciente”, explica Dr. João Cléber.




iSaúde – Por que o exame de ultrassonografia apontou que era um cálculo de 10cm, quando, na verdade, era essa enorme pedra de 1,3kg e 18cm? Pode ter sido uma falha no equipamento?

Dr. João Cléber – 
Um cálculo pétreo formado de cálcio, como era o caso desse, não era para ter erro no diagnóstico. A ultrassonografia vai ter um erro aí de no máximo meio centímetro. Por exemplo, para um cálculo de 10cm, o exame pode apresentar margem de erro entre 9,5cm e 10,5cm. No entanto, o exame foi confirmado pela tomografia, então é muito difícil, do ponto de vista clínico, eu dizer onde foi o erro. Quer dizer, onde foi a gente sabe foi no aspecto do tamanho – quase o dobro. Mas por que que os aparelhos erraram tanto? Uma pedra de oito milímetros (0,8 cm) pode variar para mais, no ultrassom, até 1 cm, pode variar dois milímetros a mais. Mas um erro de 8cm é um absurdo inexplicável. Falha no equipamento? Acho difícil porque o ultrassom era de uma instituição e o tomógrafo de outra instituição, mas é possível que tenha sido.

iSaúde – Foi noticiado que o lavrador já não urinava, mas "perdia urina". O que isso quer dizer?

Dr. João Cléber – A bexiga é um órgão que tem uma mucosa por dentro, depois tem a parte muscular e uma estrutura tecidual chamada serosa, que cobre o órgão. A parte muscular é que distende, e essa distensão ela é suportável por um longo tempo, mas não tem como ser medida. De fato, há um enigma da capacidade de recuperação da contração dessa bexiga por conta do tempo que ela passou distendida, mas não há relatos de rompimento desse órgão por conta de retenção urinária. Às vezes, o paciente retém a quantidade de líquido de um volume superior até ao tamanho dessa pedra. Eu mesmo já tirei quase dois litros e meio de urina da bexiga de um paciente, então ele tinha um volume muito maior e a bexiga não explode, ela segura.

Existe um negócio chamado continência urinária, que é o seguinte: quando um paciente vai urinar, ele não bota força para urinar. Ele simplesmente relaxa, e o músculo da bexiga contrai sozinho. Há uma estrutura chamada esfíncter, que é o que segura a urina, que garante que o indivíduo não ande pela rua se urinando, pois, mesmo que haja urina na bexiga, esse esfíncter se contrai. Quando o paciente acumula urina demais ou tem uma pedra, como nesse caso, ele extravasa urina. Ele junta tanta urina que o esfíncter, que é a estrutura responsável por segurar a urina, não dá conta. Aí é como se fosse um tanque que transborda pela tampa, que, em vez da água descer pela torneira (se tiver entupida), extravasa e sai por cima. Então a urina sai, porque o paciente está incontinente. Ele não segura mais a urina.

iSaúde – Existe algum caso de cálculo maior do que esse na literatura mundial?

Dr. João Cléber – O que está descrito na literatura mundial é que há duas pedras (inclusive uma brasileira, ao que parece) de 12cm de comprimento, e tem uma pedra relatada na China de 24cm, mas parece que elas não têm foto nem pesagem oficiais registradas, por isso esses achados não têm valor. Essa pedra que retiramos tem um registro fotográfico logo depois da cirurgia e o peso dela de 1.328 gramas, ou seja, um quilo e trezentos e vinte e oito gramas. Até que se prove o contrário, ela é a maior pedra do mundo.

iSaúde – O que será feito com a pedra? Do que ela é composta?

Dr. João Cléber – Essa pedra vai ser estudada bioquimicamente e do ponto de vista de minerais, para que se veja justamente de que ela é composta. A maioria das pedras da bexiga é composta de sódio, mas pode haver outros elementos, como minerais e ácido úrico, entre outros que podem compor essa pedra.

iSaúde – O senhor tem alguma suspeita do que pode ter ocorrido para que esse cálculo se formasse? É uma questão alimentar ou genética?

Dr. João Cléber - Na verdade, quando o paciente é idoso e tem uma pedra desse tamanho, normalmente, é a próstata que é o agente causador, porque ele teve dificuldade de urinar por muito tempo. Isso acaba obstruindo a passagem da urina e acumulando-a, então aí não seria uma questão alimentar ou genética, seria por acúmulo de urina, retenção de urina. Como é um paciente de 51 anos de idade, provavelmente, o problema tenha começado lá pelos 25 a 30 anos de idade. Então a gente imagina que, provavelmente, ele tenha uma disfunção miccional, que é uma incompatibilidade no ato de a bexiga contrair com o ato de o esfíncter relaxar. Quando nós humanos vamos fazer xixi, a gente não bota força para fazê-lo, a gente relaxa o esfíncter e a bexiga se contrai. Quando essas duas estruturas não estão coordenadas, há uma disfunção, podendo acontecer uma obstrução funcional que leve o paciente a acumular urina. Essa é a principal suspeita para o caso desse paciente.

iSaúde – Para retirar uma pedra como essa, e tendo descoberto o seu tamanho apenas na hora da cirurgia, imagino que o senhor e a sua equipe tenham passado por um susto. Foi difícil a extração?

Dr. João Cléber – Em primeiro lugar, foi um susto muito grande porque a gente se preparou para uma cirurgia de uma pedra de 10cm, que já não seria fácil de extrair. Uma pedra de 10cm já nos daria muito trabalho. Então, quando a gente abordou a bexiga e a abriu, a gente percebeu que era uma pedra muito maior. Não tinha como medir porque estava dentro da bexiga, e a gente teve extrema dificuldade. Eu, sinceramente, parei a cirurgia e pedi ajuda a Deus, como costumo fazer, e pedi para que ele retirasse a pedra, porque eu realmente tinha findado todos os meus esforços e minhas habilidades. Aí, depois que acabei de fazer minha oração, peguei a pedra e tirei. Pode-se atribuir isso ao que quiser, eu prefiro dizer que é a vontade de Deus.

iSaúde – Como a bexiga desse paciente suportou esse peso, essas dimensões, sem que houvesse ruptura no tecido? Ele foi liberado imediatamente? 

Dr. João Cléber – O paciente evoluiu com um pequeno problema chamado Íleo paralítico, que é a parada temporária do peristaltismo intestinal. O intestino dele parou no segundo dia, talvez por causa do trauma que ocorreu. O intestino sofreu muito por ser um órgão vizinho à bexiga e, provavelmente, deu uma parada por conta disso. Nós tomamos as atitudes necessárias. Lentamente, ele voltou a funcionar e, salvo engano, já no quarto dia pós-operatório, com dreno seco, com a urina saindo clarinha, o paciente teve alta. Saiu andando do hospital, satisfeito, comendo, feliz e realizado. 

iSaúde – Quando a pessoa deve suspeitar que está acumulando sais minerais e corre o risco de ter cálculos?

Dr. João Cléber – Na verdade, não há um screening para isso. A população como um todo não precisa fazer exames para saber se tem pedras, porque o índice de presença de pedras na bexiga na população em geral não é alto. A orientação verdadeira que deve se fazer é a de que todo mundo faça a ingestão de pelo menos dois litros e meio de líquido por dia, para evitar o acúmulo desses sais. Agora, se o paciente perceber que, ao urinar, fica a sensação de que ainda tem urina, ou seja, de esvaziamento incompleto, ou tem a impressão de que está urinando com muito mais frequência, isso pode denotar uma dificuldade de urinar, aí, sim, é preciso procurar um urologista para fazer uma investigação.

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