podcast do isaúde brasil

Publicada em 26/05/2020 às 09h26. Atualizada em 27/05/2020 às 08h58

Busca-se humanidade, encontra-se pandemia

“Plantamos a semente da supervalorização da economia em detrimento da vida, impactando nas relações/configurações do viver.”

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
Compartilhe

"A situação que estamos a viver, mais do que um grave problema de saúde pública, está a pôr em causa o paradigma socioeconômico, político e humano." 

A situação que estamos a viver, mais do que um grave problema de saúde pública, está a pôr em causa o paradigma socioeconômico, político e humano. Em tempos de neoliberalismo desenfreado, alimentado pelo capital, globalização e excesso de tecnologia, plantamos a semente da supervalorização da economia em detrimento da vida, impactando nas relações/configurações do viver. Incutindo o mercantilismo da vida e a cultura pop da competitividade, colhemos a deificação do lucro, a estimulação desenfreada das pessoas para um consumo irracional de tudo – desrespeitando e destruindo o ambiente – a estimulação que daí resulta para um individualismo que corrói a sociabilidade e destrói os sentimentos intrínsecos da sociedade humana. 

Se viver já não era fácil, hoje o horizonte eclipsou-se no mundo. Refletimos os efeitos do vírus dentro de um quadro sociopolítico-econômico-cultural. Os sentimentos de solidariedade, empatia e equidade, característicos do humano, tornam-se escassos, da mesma forma que falta álcool ou álcool em gel nos supermercados, e as prisões tecnológicas, que antes eram optativas, passam a ser uma opção restrita. Tais novos ventos modernos levam-nos a passos preocupantes, em cenários alarmantes, e a preservação da vida deverá ser sempre a única prioridade da raça humana. A partir disso, o presente artigo busca oferecer uma reflexão sobre a experiência da humanidade em tempos de pandemia.

Em tempos de grande investimento tecnológico e retrocessos no que se refere a aspectos humanos, o “Homo” descrito pela biologia como “sapiens” caminha a passos longos para o “Homo” acometido pelo excesso de informação e tecnologia (Huxley, 1932; Punset, 2005). O conceito de individualidade, que teve função estrutural para a modernidade, trouxe como consequências o individualismo para a contemporaneidade. O triunfo da racionalização em detrimento do subjetivo é marcador principal dos ventos modernos. O predomínio da razão cultural, tecnológica e científica é a nova forma de subjetivação/produção do “Homo moderno” que se vende a uma vida de consumo. Em paralelo, cresce a desigualdade, segregação e intolerância na sociedade. Os modelos de funcionamentos extremistas, competitivos e violentos sobrepõem os movimentos coletivos-cooperativistas, e a preocupação com os direitos humanos torna-se assassinada por uma ainda minoria corrente que promove o extremismo, militarismo e soberania da democracia burguesa. 

A partir dos ideais mercantis de colocar o homem a responder do lugar do capital – a vida tornou-se um ciclo de produzir para consumir. O homem que dançava com os lucros do capitalismo passa a dançar o dobro para sobreviver às vantagens do neoliberalismo e seus efeitos no crescimento de 11,6% no desemprego, queda de 2,17% para 1,99% do Produto Interno Bruto (PIB) e aumento da inflação para 3,20% em 2020 (Bauman, 2009; Calhau, 2016; IBGE, 2020 e Brasil, 2020). E, desse novo molde de sociedade, surge a demanda de redescobrir um “sujeito” (ser subjetivo) afundado no sentimento de vazio produzido pelo excesso de racionalização (Touraine, 1994). 

Os ventos da Globalização trouxeram consigo um novo cenário sociopolítico-cultural, crescimento alarmante da poluição, danosas mudanças climáticas, centralização do capital e incentivo às desigualdades sociais. Acompanhado a ele a discussão entre o individual e o coletivo, o público e o privado, o contextual e o universal. A alteridade culturalizou-se no cancelamento do outro. Associou-se a isso, o arranjo “Here and now” de vida tecnológica- científica-capitalizada pareada aos ideais de bem-estar social neoliberal e sua promessa de horas de trabalho, tendo como recompensa uma vida integral, economicamente estável e segura (Touraine, 1994; Bauman 2001). 

"Dessa forma, todos os controles psicopolíticos voltados para a construção do “Homo economicus contemporâneo” são ameaçados com uma bomba microbiológica."

Dessa forma, todos os controles psicopolíticos voltados para a construção do “Homo economicus contemporâneo” são ameaçados com uma bomba microbiológica. Eis que o cenário de bem-estar social e subjetivo prometido é invadido por uma calamidade sanitária, uma enfermidade que se espalhou ferozmente por continentes, esgotando os frágeis sistemas de saúde e matando agressivamente a população que não se beneficiou das políticas de prevenção (Foucault, 1987; Bauman, 2001; Han, 2015). O Coronavirus disease – 2019 (Covid-19), é um grupo de vírus SARS-COV-2 que pode causar infeções graves associadas ao sistema respiratório, podendo levar ao adoecimento em massa, colapso do sistema de saúde, que não dispõe de aparelhagem suficiente para ofertar a toda população, e morte no grupo de risco, como, por exemplo, pessoas idosas, portadores de doenças crônicas e de deficiência no sistema imunitário (Hörmansdorfer & Sing, 2008; Safadi, 2020; Organização Pan-Americana de Saúde, 2020). 

A Covid-19 adentra o berço da Revolução Industrial. O continente que colonizou as sociedades com a cultura mercantilista é obrigado a desacelerar o seu maquinário em nome da preservação de vidas. Os noticiários estampam “O país entra em estado de alerta”. As próximas notícias anunciam o parlamento europeu a decretar isolamento social obrigatório. A vida, e com ela os registos de funcionamento, acompanha a abrupta, mas também, necessária mudança. Portugal decreta a não atividade social, e todo o sistema econômico-estrutural o acompanha, tentando reduzir os efeitos sociopolíticos do fechamento por período indeterminado. As ruas tornam-se silenciosas. Os cafés são obrigados a fechar. O continente europeu modifica toda a sua estrutura de funcionamento para evitar a propagação e, consequentemente, mais óbitos. 

Atravessando o Oceano Atlântico, a pandemia alcança as Américas. O caos na Ásia não se torna exemplo para relevância política e, consequentemente, também afeta a crença social. A seriedade e mortalidade tornou-se sensacionalismo de fake news de origem partidária. Em consequência, o isolamento profilático é tardio em meio ao cenário de contradições já posto no país: o Governo declara a importância de não matar a economia; o caos econômico mata há tempos populações mais pobres, com suas políticas neoliberais que impedem a saúde pública de ser extensa a todos os cidadãos; a população demonstra carência com extermínio físico – político e subjetivo e o poder continua concentrado em 1% da população (World Inequality Report, 2018). 

A banalização dos efeitos da Covid-19 no Brasil tornou-se tamanha que se estampa em campanhas de retorno às aulas, sob a fundamentação de crianças não pertencerem ao grupo de risco, de o proletariado não pode parar o trabalho em nome da produção social e de o isolamento ser a doença que afeta diretamente o sistema capitalista. O paradoxo de um sistema criado pelos humanos, que se aliena, ou melhor, se aliena em estruturas concupiscente, reduzidas ao produtivismo, cuja a pandemia de funcionamento é sonegar, salvaguardar a população. 

Leia a segunda parte do artigo: Autodestruição em tempos de pandemia da COVID-19

Referências:

Bauman, Zygmunt. (2001). Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Bauman, Zygmunt. (2009). A arte da vida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Brasil, Boletim da Economia. (2020). Disponível em: 

Brasil, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica – IBGE – PNAD (2020). Estatísticas Sociais.  Disponível em:

Brasil, Organização Pan-Americana de Saúde. (2020) Folha informativa – COVID-19 (doença causada pelo novo coronavírus). Disponível em: <https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:covid19&Itemid=875> Acesso em 20 de abril de 2020.

Bourdieu, Pierre. (1989). O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil S.A. 

Bourdieu, Pierre. (2001). Sobre o poder simbólico. In: BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Trad. Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

Calhau, Filipe Ricardo Ferro. (2016). Esanio Sobre Individualismo. Individualismo, uma alternativa ao (ego) centrismo. Espanha: Chiado.

Daltro, M., & Barreto Segundo, J. D. (2020). A pandemia que nos mostra quem somos? Revista Psicologia, Diversidade e Saúde, 9(1), 5-8. doi: 10.17267/2317-3394rpds.v9i1.2844

Deleuze, Gilles. (1992). Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In: Deleuze, G. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34.

Ferreira, Andrey Cordeiro. (2014). Colonialismo, capitalismo e segmentaridade: nacionalismo e internacionalismo na teoria e política anticolonial e pós-colonial. Sociedade e Estado, 29(1), 255-288. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102-69922014000100013

Foucault, Michel. (1987). Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Trad. Lígia M. Ponde Vassalo. Petrópolis: Vozes.

Freud, Sigmund. (1996). O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago. 

Ferraro, Marcelo Rosanova. (2019). CAPITALISM, SLAVERY AND THE MAKING OF BRAZILIAN SLAVEHOLDING CLASS: A THEORETICAL DEBATE ON WORLD-SYSTEM PERSPECTIVE. Almanack, (23), 151-175. Doi: www.doi.org/10.1590/2236-463320192307

Han, Byung-Chul. (2015). Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes.

Huxley, Aldous. (1932 [1966 ed.]) Admirável Mundo Novo. Antígona.

Hörmansdorfer, S., Campe, H. & Sing, (2008). A. SARS – Doenças Pandêmicas e Emergentes. J. vida consumida 3, 417-420 https://doi.org/10.1007/s00003-008-0374-0

Lipovetsky, Gilles (2007). A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras.

Punset, Eduardo. (2005). Viagem à felicidade – As novas chaves científicas. Espanha: Don Quixote.

Portugal, Direção Geral da Saúde (DGS). (2020). Relatório de Situação. Disponível em: <https://covid19.min-saude.pt/> Acessado em: 17 de abril de 2020.

Rouanet, Sergio Paulo. (1993). Mal-estar na modernidade: Ensaios. São Paulo: Companhia das Letras.

Safadi MAP (2020).  The intriguing features of COVID-19 in children and its impact on the pandemic, Jornal de Pediatria. Disponível em DOI: https://doi.org/10.1016/j.jpedp.2020.04.001.

Touraine, Alain. (1994). Crítica da modernidade. Petrópolis: Vozes, 

Weber, Max. (2006). A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras.

World Inequality Lab. (2018). World Inequality Report?2018. Disponível em: https://wir2018.wid.world/files/download/wir2018-summary-english.pdf.  Acesso em 17 de abril de 2020.

Compartilhe

Saiba Mais