podcast do isaúde brasil

Publicada em 17/07/2019 às 09h46. Atualizada em 18/07/2019 às 10h15

Cirurgia robótica: tecnologia de ponta a serviço da saúde

O uso de robôs para oferecer procedimentos cirúrgicos minimamente invasivos chega com força no Brasil.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Menores taxas de sangramento, menor incidência de dor e recuperação mais rápida. Esses são apenas alguns benefícios oferecidos pela cirurgia robótica, modalidade que oferece ainda maior precisão do que as cirurgias por videolaparoscopia. Segundo o urologista e cirurgião robótico Nilo Jorge Leão Barretto, “a curva de aprendizado do cirurgião é notavelmente mais rápida do que outras técnicas, assim como a ergonomia é considerada, de forma unânime, mais confortável para o cirurgião que a exerce, aumentando inclusive, a vida útil do cirurgião”. Para saber mais sobre o assunto, o iSaúde Brasil conversou com o médico ex-aluno de medicina da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, coordenador do Núcleo de Uro-Oncologia do Hospital Santo Antônio – Obras Sociais Irmã Dulce, cirurgião robótico dos Hospitais Samaritano, Sírio Libanês, São Luiz (Rede Dor), 9 de Julho, Hospital Paulistano-SP e coordenador e co-fundador do Instituto Baiano de Cirurgia Robótica. 

iSaúde Brasil – O que é cirurgia robótica?

Nilo Jorge Leão Barretto – A cirurgia robótica é uma modalidade de cirurgia minimamente invasiva que se assemelha à cirurgia por videolaparoscopia. Tal como as cirurgias clássicas por vídeo, essa técnica utiliza pequenas incisões para a realização de grandes procedimentos cirúrgicos. Contudo, a tecnologia robótica agrega ainda a utilização de uma plataforma que amplia a imagem em 10 vezes, de forma tridimensional, com ergonomia mais confortável para o cirurgião e movimentos mais precisos, livres de tremores. 

iSaúde Brasil – Muito se fala que a tecnologia no âmbito da saúde distancia a relação médico-paciente.  O uso de mais aparelhos pode causar esse “afastamento”?

Nilo Jorge Leão Barretto – Gostei dessa “pergunta”, pois foi a primeira vez que me deparo com ela. A distâncias que existe nas relações médico-pacientes, a meu ver, é fruto de valores individuais de cada profissional. Quem exerce sua profissão por vocação e com amor jamais sofrerá influência de um determinado tipo de técnica cirúrgica na relação com o seu paciente. É importantíssimo lembrar que, diferentemente do que possa soar, quando um paciente faz uma “cirurgia robótica”, quem comanda e guia todos os movimentos do robô é um cirurgião, um médico, um ser humano. O robô é apenas um aparato tecnológico que facilita o procedimento e otimiza resultados. Depois que o paciente está anestesiado sendo submetido ao ato operatório, pouca diferença faz se o corte para realizar a cirurgia é grande ou pequeno no que diz respeito à relação médico-paciente. 

iSaúde Brasil – Qualquer cirurgião pode realizar o procedimento? Como é essa capacitação? É uma especialidade médica?

Nilo Jorge Leão Barretto – Ótima pergunta! Infelizmente o processo de capacitação ainda é heterogêneo e não tem um padrão bem estabelecido. Poucos serviços no país oferecem uma subespecialidade em cirurgia robótica, que é o caso, por exemplo, do Hospital AC Camargo, em São Paulo. 

A Intuitive/Stratner, empresa que fabrica e revende o robô mais utilizado, o Da Vinci, exige uma “certificação” para que o cirurgião seja considerado apto a utilizar a máquina. Contudo, isso não atribui a ele o certificado de capacidade para realizar cirurgias robóticas com proficiência.  A praxe é que, depois da certificação, o cirurgião recém-certificado realize suas primeiras cirurgias sob a orientação de um cirurgião robótico mais experiente e habilitado ao ensino da tecnologia. Esses cirurgiões orientadores são conhecidos como “proctors” e serão responsáveis por dizer quando o cirurgião robótico em treinamento está habilitado a operar sozinho, sem supervisão. O número de cirurgias para o treinamento varia em função da facilidade de cada indivíduo em aprender a nova tecnologia e da complexidade demandada por cada caso. Um cirurgião robótico recém-certificado precisa atuar, sob supervisão, aproximadamente, em 20 procedimentos. Contudo, como foi dito, esse número pode variar para mais ou para menos.

É importante salientar que o papel primordial do hospital que compra o robô é prezar pelo respeito a essas normas de preparação dos seus cirurgiões robóticos, visando a segurança dos seus pacientes. O não seguimento desses preceitos pode resultar em cirurgias muito prolongadas, complicações cirúrgicas potencialmente evitáveis e a perda dos benefícios que podem ser proporcionados por essa nova tecnologia. Um fato que merece ser enaltecido na cirurgia robótica é que essa tecnologia permite que o cirurgião treine exaustivamente em programas de simulação do próprio robô antes de, de fato, realizar cirurgias em pacientes reais. 

iSaúde Brasil – Existe algum preparo especial do paciente para esse tipo de procedimento?

Nilo Jorge Leão Barretto – Não. Em geral, o paciente precisa apenas de um jejum de oito horas e, ao acordar, na maioria das cirurgias, já pode se alimentar, levantar e caminhar com o auxílio de um fisioterapeuta. 

iSaúde Brasil – Na Bahia já existe algum espaço onde é realizado esse procedimento?

Nilo Jorge Leão Barretto – A cirurgia robótica começou a ser realizada na Bahia no fim de março de 2019, no Hospital Santa Izabel e ganhou tanta força, que outro hospital da rede privada já se encontra muito próximo de iniciar o seu programa de cirurgia robótica, com o segundo robô do estado já em fase final de testes.

iSaúde Brasil – Quantos procedimentos como esse ocorrem por mês e (maioria) em quais especialidades?

Nilo Jorge Leão Barretto – Depende do local que estamos falando. Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de 85% das cirurgias para tratar câncer de próstata são realizados por meio da cirurgia robótica. No Brasil, desde o início, em 2008, foram mais de 30.000 cirurgias realizadas e, em 2018, mais de 9.000 procedimentos realizados. Atualmente, existem 62 robôs que estão presente em 13 estados do Brasil. Em 2019, foram realizadas, aproximadamente, 5.000 cirurgias até o mês de junho.

iSaúde Brasil – Sobre resultados, há alguma comprovação científica de melhor êxito no tratamento de enfermidades?

Nilo Jorge Leão Barretto – Sim. Já é cientificamente bem estabelecido que a cirurgia robótica de forma global está associada às menores taxas de sangramento, menor incidência de dor e recuperação mas rápida . Além disso, a curva de aprendizado do cirurgião é notavelmente mais rápida do que outras técnicas, assim como a ergonomia é considerada, de forma unânime, a mais confortável para o cirurgião que a exerce, aumentando inclusive, a vida útil do cirurgião. Além disso, há uma série de benefícios potenciais, como no tratamento do câncer de próstata, em que alguns estudos sugerem poder haver benefício na preservação da potência sexual, fato esse explicado pela melhor visualização de estruturas delicadas.

iSaúde Brasil – Quais as vantagens da cirurgia robótica sobre as técnicas mais antigas de cirurgia minimamente invasiva ?

Nilo Jorge Leão Barretto – A cirurgia robótica representa uma visão diferenciada, ampliada, tridimensional, ergonomia confortável para o cirurgião e movimentos mais precisos. Essas características possibilitam que o robô possa realizar cirurgias altamente complexas, em regiões com espaços pequenos, com taxas de complicação muito baixas e, consequentemente, proporcionando maior segurança aos pacientes.

Comprovadamente, as cirurgias robóticas associam-se a taxas de sangramento extremamente reduzidas, recuperação rápida com breve retorno ao trabalho e às atividades de esporte e lazer, assim como um tempo de internação hospitalar curto.

Na cirurgia pra tratamento do câncer de próstata, por exemplo, há uma expectativa grande que trabalhos venham a comprovar melhores taxas de preservação da potência (função sexual) e recuperação mais rápida da continência urinária.

iSaúde Brasil – Quais as especialidades que podem se beneficiar da cirurgia robótica?

Nilo Jorge Leão Barretto – As especialidades que mais avançaram na cirurgia robótica foram a urologia e a ginecologia. Mas a coloproctologia, cirurgia oncológica, gastrocirurgia, cirurgia torácica e até cirurgia de cabeça e pescoço não param de avançar na evolução da cirurgia robótica nessas especialidades.

iSaúde Brasil – Quais doenças podem ser tratadas pela cirurgia robótica?

Nilo Jorge Leão Barretto – A cirurgia robótica consagrou-se no âmbito do tratamento de diversos cânceres, como câncer de próstata, rim, endométrio e reto. Contudo, aos poucos, todas as cirurgias que são feitas classicamente por videolaparoscopia vão sendo, paulatinamente, substituídas pela cirurgia robótica que torna os procedimentos realizados mais fáceis e seguros.

iSaúde Brasil – A cirurgia robótica é uma realidade ao alcance de todos?

Nilo Jorge Leão Barretto – Nos Estados Unidos, a grande maioria da população já tem acesso a esse avanço tecnológico. Contudo, no Brasil, isso ainda é uma realidade distante. Devido ao seu elevado custo (um robô custa em torno de 13 milhões de reais), essa cirurgia, no SUS, só existe em poucos lugares, em São Paulo e, mesmo assim, com acesso restrito. No âmbito privado, a maioria dos convênios fornece cobertura privada, devendo parte do procedimento ainda ser custeado pelo próprio paciente.

iSaúde Brasil – O que é o Instituto Baiano de Cirurgia Robótica?

Nilo Jorge Leão Barretto – O IBCR é um grupo de cirurgiões robóticos das mais diversas especialidades, sem qualquer vínculo institucional, que se uniu, de forma independente, pra se ajudar e difundir informações a respeito da cirurgia robótica. Esse grupo é composto por profissionais da urologia, ginecologia, coloproctologia e cirurgia oncológica, além de uma instrumentadora especializada em cirurgia robótica, que se ajudam em procedimentos robóticos e que constituíram uma plataforma digital interativa (por meio de site, e-mail e WhatsApp) para difundir conhecimento e esclarecer dúvidas da população sobre essa nova tecnologia . 

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