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Publicada em 26/11/2019 às 11h33. Atualizada em 26/11/2019 às 21h48

Como a neurociência explica a birra infantil?

Saiba mais sobre o assunto neste artigo do neuropediatra Clay Brites.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Você, provavelmente, já se perguntou por que o seu filho faz tanta birra em determinados momentos, ou então esse questionamento já foi feito diante de uma crise protagonizada por outra criança. A impressão é de que a birra infantil é mais forte em alguns do que em outros, correto? Bom... É importante ressaltar que isso depende muito de vários fatores. No entanto, a neurociência tem uma versão que responde às principais dúvidas de pais e mães com relação a isso.

Por que a birra infantil acontece?

É preciso ter em mente que o cérebro de uma criança durante a primeira infância não se desenvolveu completamente. Isso significa que, quando nascemos, a região cerebral ainda se encontra incompleta. Vale destacar pelo menos uma dessas partes.

Uma das áreas que não se desenvolve durante os primeiros meses de vida é o neocórtex – aquela parte superior da massa cinzenta –. Vale ressaltar que essa região, considerada a mais recente a obter o seu desenvolvimento sob ponto de vista evolutivo, costuma ser responsável por capacidades imprescindíveis para a autonomia de um indivíduo, tal como o pensamento analítico, a reflexão, a imaginação, a solução de problemas e o planejamento. 76% do cérebro depende dessa parte especificamente.

A birra infantil atua como se a parte mais primitiva do cérebro fosse acionada, mais precisamente a região inferior do órgão. Mas é importante ressaltar que a birra tal como a conhecemos não é uma simples pirraça diante de uma frustração. Esse comportamento pode ser a manifestação – segundo a neurociência – de algumas emoções, como o medo, a raiva ou, até mesmo, o temor de uma eventual separação.

Segundo a psicóloga e diretora de educação e treinamento do Centre for Child Mental Health, Margot Sunderland, “sem o auxílio da parte superior do cérebro para racionalizar e se acalmar, o resultado é que a criança fica superexcitada, com altos níveis de substâncias químicas associadas ao estresse percorrendo o seu corpo e cérebro”.

Quais são as causas da birra infantil no dia a dia?

Após vocês ficarem sabendo dos fatores cerebrais que levam à ocorrência da birra infantil, falaremos dos motivos que causam essas crises. Geralmente, como a criança não domina completamente a linguagem verbal, ela não encontra formas de lidar com as frustrações surgidas em sua vida. Isso significa que ela não consegue contornar os problemas e encontra na birra a forma de chamar a atenção para algo que não está agradando. Situações, como fome, cansaço, sono, falta de vontade para realizar determinadas tarefas, alimentar-se, tomar banho, entre outros fatores são as principais na hora de o pequeno manifestar alguma crise.

Uma pesquisa realizada em cientistas portugueses identificou alguns dados importantes sobre a birra infantil, a saber:

– entre os 2 e os 3 anos de idade, aproximadamente 20% das crianças apresentam birras pelo menos 1 vez por dia e de 50% a 80% têm birras pelo menos 1 vez por semana;

– as crianças que têm birras frequentes aos 2 anos continuam, em 60% dos casos, a ter birras aos 3 anos, e as birras persistem aos 4 anos em 60% desses pequenos;

– o temperamento explosivo mantém-se ao longo da infância em 5% das crianças;

– as birras excessivas são acompanhadas, geralmente, de outras perturbações do neurodesenvolvimento e comportamento (GOUVEIA, 2009).

A birra em excesso pode indicar algo mais sério?

É preciso salientar o que é considerado excessivo neste caso. Para se ter uma ideia, dentro da faixa etária habitual não existe uma quantidade de crises de birra diária. Isso pode variar dependendo de diversos fatores.

"...quando a criança passa da fase comum de manifestar determinados comportamentos, aí sim os pais precisam ficar mais atentos, pois a incidência dessas birras pode indicar a existência de um possível transtorno de neurodesenvolvimento..."

No entanto, quando a criança passa da fase comum de manifestar determinados comportamentos, aí sim os pais precisam ficar mais atentos, pois a incidência dessas birras pode indicar a existência de um possível transtorno de neurodesenvolvimento, tal como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e, até mesmo, o Transtorno Opositivo Desafiador (TOD).

Birra infantil e TOD: existe alguma relação?

Na verdade, não. O que acontece é que algumas crianças fazem muita birra e agem de forma desobediente em determinado momento, mas sempre depois de um determinado tempo ou de outro estímulo, por exemplo. Não é algo que vai durar muito tempo.

Por outro lado, o caso de uma criança com TOD é diferente, pois as crises tendem a ser mais frequentes e até mais sérias, necessitando de um acompanhamento profissional especializado, que possa oferecer subsídios para uma intervenção eficaz.

A criança fez birra... E agora?

Já repararam que não adianta explicar, por “a” mais “b”, os motivos que levaram você a proibir o pequeno de fazer alguma coisa (motivando a birra)? Pois é, não se preocupe. É uma situação absolutamente normal, de acordo com estudos. Isso acontece porque, até os quatro anos de idade, a atividade no hemisfério esquerdo, que corresponde ao pensamento lógico, não está completamente desenvolvida. Então, essa parte do cérebro ainda se encontra limitada. Especialistas explicam que, como não há uma percepção clara de linearidade e passagem do tempo, prometer algo para depois, a fim de tranquilizar a criança, será praticamente em vão.

A melhor forma de resolver essas crises de birra é tentar atrair a atenção da criança para outra coisa ou atividade, desde que atraia o interesse do pequeno diante da frustração de não ter um desejo correspondido.

Propor alternativas frente a alguma situação de birra infantil também pode ser uma saída muito boa. Por exemplo, se a criança quer brincar na cozinha (local que oferece riscos), tente convencê-la a realizar atividades em outro local da casa. Mas, para isso, será preciso um “jogo de cintura” para entrar na brincadeira e despertar a confiança do seu filho. Lembre-se de que você precisa ser convincente para atraí-lo.

Outro detalhe que precisa ser ressaltado é o humor dos pais e das mães. É verdade que, às vezes, a birra pode causar certa impaciência nos adultos. Mas a forma com a qual vocês lidam com suas crianças nesses momentos pode influenciar a crise. Portanto, procurem ficar calmos e encontrar as soluções.

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