podcast do isaúde brasil

Publicada em 20/11/2015 às 00h00. Atualizada em 02/12/2015 às 11h22

Como a percepção da consciência negra está inserida no ensino de base e na atuação da(o) psicóloga(o)?

A psicóloga, Dra. Marilda Castelar, faz uma reflexão de como o assunto está sendo abordado do ensino básico ao superior.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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O dia da Consciência Negra, designado como o dia 20 de novembro, ainda é um dia de luta e não é um dia para ser “comemorado”, embora seja fundamental positivar, no sentido de valorizar todas as contribuições históricas da população negra, valorizar as novas gerações afrodescendentes e discutir seriamente como andam as nossas relações étnico-raciais.  

Compreendo esse dia como uma oportunidade para refletir sobre como as relações raciais e as consequências do racismo ainda representam pouca expressão na sociedade brasileira e isso é reflexo no ensino do tema nos cursos de saúde. As consequências do racismo exigem dos profissionais de diversos campos das ciências uma atenção especial no Brasil. Convivemos com manifestações explícitas e implícitas do racismo em nosso cotidiano, devido à disseminação da crença em uma “Democracia Racial” em nossa sociedade, crença que parte da premissa de que vivemos em harmonia e que todos, brancos e negros têm igualdade de oportunidades. Entretanto, basta olhar rapidamente para o Mapa da População Negra no Mercado de Trabalho Brasileiro para perceber as desigualdades sociais. 

Em um contexto mais amplo, é preciso valorizar e visibilizar as iniciativas sintonizadas com as conquistas do movimento negro, com seus reflexos na psicologia, mas também nos diversos campos da saúde no início do século XXI.  É preciso reconhecer, a partir da premissa de que o racismo e seus derivados são causadores de sofrimento psíquico, perceber que existem justificativas naturalizantes de injustiças sociais e, por isso, necessita de enfrentamentos em diferentes níveis.

"Na educação, houve um frutífero debate sobre as cotas que se tornaram uma realidade no ensino superior em muitas universidades públicas do país."

Na educação, houve um frutífero debate sobre as cotas que se tornaram uma realidade no ensino superior em muitas universidades públicas do país.  Surgiram, também, críticas contundentes à qualidade do ensino público e sobre a falta de discussão sobre cultura e história da África nos conteúdos curriculares.  Como resposta, houve investimentos no ensino médio e fundamental amparados na lei 10.639/2003 e, posteriormente, na lei 11.645/2008. No caso do ensino dos cursos superiores, o tema se tornou estratégico na formação de professores para o ensino médio e fundamental com a inclusão das discussões sobre direitos humanos e relações raciais. E quanto aos outros cursos do ensino superior? Não seria fundamental a inclusão do tema para o enfrentamento do racismo presente em nosso cotidiano, nas relações institucionais?  Pode-se observar que, nesse sentido, temos poucas iniciativas concretas e, por isso, esse ainda é um tema que parece interessar apenas àqueles que convivem com o racismo.

Algumas iniciativas pontuais ocorreram na psicologia, destacando-se, entre elas, as discussões geradas pela Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que elegeu o ano de 2002 para refletir sobre a humilhação social e o sofrimento psíquico, frutos do racismo. Embora essa campanha tenha sido avaliada como tímida pelas psicólogas e militantes negras, o fato é que ela resultou em uma resolução sobre preconceito racial, em vigor desde 2002. Neste mesmo ano, foi publicado um número especial da revista Ciência e Profissão, dedicado às relações raciais. Portanto, pode-se afirmar que a psicologia não esteve totalmente à parte das repercussões nas conquistas do movimento negro.

No âmbito da psicologia já é possível perceber que “existe algum consenso que o problema do racismo e suas consequências não podem ser vistos enquanto um problema do negro e sim um problema de todos e todas. Entender como a psicologia tratou historicamente o conceito de raça no Brasil foi imprescindível para compreender os momentos de silêncio e falta de sensibilidade de alguns profissionais para perceber o racismo enquanto fator de promoção de humilhação e sofrimento psíquico. Pretendeu-se no trabalho desenvolvido em sala de aula oferecer uma sensibilização para busca de soluções coletivas e referências que possam subsidiar o entendimento e implicação do discurso psicológico emanado da atuação de profissionais de psicologia em nossa sociedade desigual, estratificada e ‘racializada’. Neste contexto torna-se importante explicar de onde surgiram estas preocupações com estes conteúdos. E qual a origem da presente experiência de ensino”.

"Entretanto, para um profissional de psicologia conseguir perceber o sofrimento oriundo do racismo a partir da perspectiva daquele que sofre o preconceito, é preciso rever seu lugar e ter sido formado para possibilitar essa compreensão."

 

Entretanto, para um profissional de psicologia conseguir perceber o sofrimento oriundo do racismo a partir da perspectiva daquele que sofre o preconceito, é preciso rever seu lugar e ter sido formado para possibilitar essa compreensão. Como deveria ser a atuação do psicológico frente a uma pessoa que é constantemente alvo de racismo? 

Consideramos que a luta será longa e, por outro lado, as práticas psicológicas e suas contribuições ainda se mantêm bastante tímidas, apesar de já existirem algumas referências para a atuação com a produção de teses, dissertações, artigos, muitos profissionais já se demonstram sensibilizados e a discussão ter efetivamente se ampliado no âmbito da psicologia.

Referências:

1-CEERT – Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades; INSPIR – Instituto Sindical Interamericano Pela Igualdade Racial; DIEESE – Departamento lntersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos, 2005.

2-CASTELAR, M; SANTOS, CCO, Relações raciais no ensino de psicologia: uma experiência de sensibilização, v.1(1), p. 75-86, 2012. Disponível em:  http://www5.bahiana.edu.br/<wbr></wbr>index.php/psicologia/article/<wbr></wbr>view/43 

3- SOUZA, Ana Lucia e CROSSO, Camila (Coord.). Igualdade das relações raciais étnico-raciais na escola: possibilidades e desafios para a implementação da Lei 10639/2003.  São Paulo: Peirópolis: Ação Educativa, CEAFRO e CERRT, 2007.

4- DÓRIA, M, ROCHA, R. A construção da identidade negra em uma instituição municipal de ensino. Trabalho de Conclusão de Curso. Graduação em Curso de Psicologia, Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. Orientadora: Elizete Passos. Salvador: BAHIANA. 2008.

5 -SILVA, MVO (Coord). Psicologia e direitos humanos: subjetividade e exclusão. São Paulo: Casa do Psicólogo, Brasília: CFP, 2004

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