podcast do isaúde brasil

Publicada em 09/09/2019 às 17h13. Atualizada em 09/09/2019 às 17h32

Como a vida em grupo pode ajudar na prevenção da depressão em idosos?

Estudo de pesquisadores de Vitória da Conquista aponta ganho na qualidade de vida de idosos que participam de grupos de convivência.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
Compartilhe

"A população idosa é alvo dos olhares de áreas distintas do conhecimento, por estar sendo a de maior crescimento. "

O Brasil encontra-se em mudanças demográficas significativas, representadas pela queda da taxa de mortalidade, seguida pela  queda  da  taxa  de natalidade.  Isso pode estar relacionado à diminuição da taxa de fecundidade média da mulher brasileira, atrelada à redução da taxa de mortalidade, à melhoria do padrão de vida populacional, maior acesso à inovação médica, programas de saúde, além dos cuidados pessoais e  de saneamento básico, aumentando assim a esperança e dobrando o tempo médio de vida da população brasileira.

A população idosa é alvo dos olhares de áreas distintas do conhecimento, por estar sendo a de maior crescimento.  Estima-se que, em 2040, haverá 153 idosos para cada 100 jovens, mantendo  a  perspectiva  de  crescimento  até  2050,  o  que  assegura um  novo  tempo  em  que  a  população  idosa  cresce e  finca  raízes.   Envelhecer é um processo natural, porém complexo, traz inúmeros desafios, envolve diversos aspectos, alterações biopsicossociais, perdas, dependência, privações e  todo  o  oposto  do  que o  ser humano  almeja  e  vive  até  então,  tendo,  pois, associação direta com o histórico do indivíduo, seu contexto cultural e sua aceitação.

Vale lembrar que essas mudanças podem tornar os idosos fragilizados e dependentes, provocar sentimentos negativos,  principalmente  devido  à  perda de autonomia, à vulnerabilidade e, sobretudo, tornar algumas pessoas susceptíveis a agravos de problemas de saúde e até aparecimento de doenças, como a depressão.

A depressão

A depressão, entendida como um transtorno do humor, perda da capacidade de sentir interesse em tudo, melancolia e queda da autoestima, tem sido destaque na população idosa e é considerada um problema de saúde relevante. Suas características são devastadoras, destroem a graça pelo viver, a esperança de dias melhores e trazem consigo um turbilhão de sentimentos negativos, destruindo a autoestima, fazendo da tristeza o seu combustível, e os quadros mais graves de depressão podem ter como desfecho o suicídio. Porém, no idoso, nem sempre as características são claras, dificultando o diagnóstico, que pode ser confundido, devido às mudanças físicas e neurológicas associadas, com o processo próprio do envelhecimento.

No ajustamento pessoal ao processo de envelhecimento, o indivíduo pode tornar-se vulnerável à depressão, isso porque os idosos sofrem algumas privações e até exclusões, perdem espaço no mercado de trabalho, consequentemente, ganham menos e, dessa maneira, sobrevivem em uma sociedade, que, na maioria das vezes, dita o seu futuro e suas restrições, fazendo-os trocar oportunidade por ajudas caridosas.

Acrescenta-se a isso o fato de o processo de envelhecimento envolver medo da inutilidade, dependência e abandono, isolamento, exclusão, vulnerabilidade e rompimento de laços, o que pode provocar sinais de tristeza e sentimentos negativos.

Grupos de convivência

Estudos têm descrito a importância de grupos de convivência para idosos, especialmente no que se refere aos benefícios para a sua proteção e para o distanciamento de  pensamentos  e  atitudes negativas. Isso porque esses grupos são locais que contribuem positivamente para a população idosa, no sentido de proporcionar a eles o desempenho de atividades sociais, de suas habilidades e vínculos de amizade. Além do mais, esses encontros possibilitam momentos prazerosos e contribuem para a restauração da autoestima.

O envelhecer

O  processo  de  envelhecimento  pode  ser  marcado por desânimo, isolamento, doenças, sentimento de desmerecimento, entre outros pontos negativos, pois, erroneamente, os idosos ainda são vistos como inúteis pela sociedade e sofrem pelo desprezo.

Os grupos de convivência são fundamentais na inclusão dessas pessoas na sociedade, e o envolvimento nesses grupos é  positivo,  pois  os  idosos  lidam  com pessoas da mesma faixa etária, dividem seus sentimentos  (sejam  eles  positivos  ou  negativos),  seus conhecimentos  e suas perdas,  reduzem sentimentos, como angústia e insegurança, oferecem e recebem afago, compartilham  momentos  e  saberes  da  vida,  além de motivação e apoio emocional, o que favorece a prevenção da depressão ou mesmo serve como apoio para aqueles que já se encontram nesse quadro.

A depressão aumenta a morbimortalidade, provocando impactos na funcionalidade e na qualidade de vida, portanto, deve ser acompanhada pelos profissionais de saúde no sentido de reduzir os sintomas consequentes da doença e ser tratada por completo para evitar recidiva.

Estudo

Este artigo tem base em um estudo que evidenciou que os idosos que participam dos grupos de convivência têm a média de idade de 70 anos, não tendo semelhança direta com outros estudos que apresentaram, respectivamente, a média de 70, 72 e 65 anos. Porém, percebe-se que esses resultados se aproximam.

Os participantes de grupos de convivência observados pelos autores deste texto foram, predominantemente, do sexo feminino, semelhante a outro estudo que aponta que o perfil dos participantes brasileiros em grupos de convivência é, em sua maioria, composto por mulheres. Os homens participantes são poucos e, na maior parte, são acompanhantes de suas esposas. Outro estudo também observou menor participação dos homens nesses encontros e chegou à conclusão de que eles se mostram mais resistentes, muitas vezes, por preconceito ou por medo de serem caracterizados como frágeis.

Os idosos participantes são, em sua na maioria, viúvos, divorciados ou solteiros.  Esse perfil pode ser justificado pela menor longevidade do homem,  com  a preferência da mulher em ficar sozinha, mantendo as  lembranças  do  ex-parceiro,  muitas  vezes,  até  o final  da  vida,  e  a  escolha  dos  homens  idosos  por mulheres mais jovens.

A  maioria  dos  idosos  participantes  era  de  baixa renda  e  escolaridade e, no  que  se  refere  à  atividade  laboral,  os idosos, em sua maioria, não a realizam e são aposentados. O apoio social é de suma importância para pessoas idosas de baixa renda e para quem parou de trabalhar e se aposentou. Ele aumenta a capacidade de sobrevivência em situações inesperadas e melhora,  significativamente,  a qualidade de vida.

Concernente à depressão, o estudo mostrou um menor índice  da  doença  nos  idosos  que  se  integram em  grupos  de  convivência,  sendo  estes  grupos  de grande  relevância  no  processo de  envelhecimento, pois possibilitam a ressocialização, visto que os idosos têm uma vida ativa, praticam atividades físicas, exploram seus novos limites, compartilham saberes e, consequentemente, ganham melhora na qualidade de vida.

No decorrer do tempo, foram mantidos preconceitos em  relação  aos  idosos,  associando  a  eles  decadência e privações, impedindo uma visão ampla dessa fase.  Por outro lado,  os  grupos  surgiram para contribuir na identificação do idoso frente ao envelhecimento e enfrentamento de seus receios,  possibilitando  que  descubram  os bônus dessa fase e que a percebam como um recomeço e não um fim, sendo imprescindível a convivência em grupo, pois eles contribuem para a melhora da  saúde  e  do equilíbrio  emocional  por meio dos  vínculos afetivos, que são fundamentais para a integração  a  uma  rede  social.  Ademais, os grupos proporcionam  relações  e  atividades  que  causam satisfação nos idosos, especialmente em relação a hábitos saudáveis, favorecendo melhora significativa na qualidade de vida.

Quanto aos idosos que não participam de grupos, os  resultados  foram  similares  no  que  se  refere  à depressão,  visto  que  demonstrou  que  metade  dos idosos apresentou depressão e a outra metade não, o  que  aponta  a  necessidade  de  observação,  pois esses que não apresentaram a doença podem estar vulneráveis diante da possibilidade do desencadeamento de sentimentos negativos, devido às mudanças do processo de envelhecimento, que podem causar estranheza.
A  depressão  e  o  envelhecimento  têm  intensa  relação com a diminuição de atividades rotineiras e da saúde  e possível  dependência,  entre  outros  fatores, demonstrando a necessidade de identificação correta sobre si e a nova fase. Nesse sentido, é de extrema importância a convivência em grupo, pois possibilita ao idoso dividir os seus anseios, aprender a lidar com as novas mudanças, ser amparado, além de ser influenciado a ter hábitos para um melhor padrão de vida, e, consequentemente, melhor saúde, tanto física quanto, principalmente, mental. Além disso, a convivência em grupo contribui, de forma efetiva, no enfrentamento aos desafios gerados por essa nova fase e no afastamento dos fatores de risco da doença, como a solidão e o isolamento social.

Conclusão

Avaliar a depressão em idosos que participam e idosos que não participam de grupos de convivência foi uma possibilidade de colocar em voga um tema de extrema relevância. Os achados apontam os benefícios dos grupos de convivência, que podem ser considerados preventivos, pois proporcionam atividades, viagens, eventos, bate-papo, entre outras atividades, além de inserir o idoso novamente na sociedade. Porém, nem todos têm acesso aos seus benefícios, muitas vezes pela dificuldade de locomoção ou até mesmo devido a sentimentos negativos, principalmente os de solidão e exclusão social.

Diante disso, torna-se relevante a necessidade de o profissional de saúde se aprofundar em  conhecer  os  ônus  e bônus do envelhecimento para ajudar o idoso a trilhar um envelhecimento digno e ativo, ainda que isso comece nas unidades de saúde, devido à facilidade de acesso, de acordo com o acompanhamento dos profissionais de cada unidade.

"O processo de envelhecimento é amplo e rico, não sendo apenas um lugar a chegar, mas um caminho a percorrer."

O processo de envelhecimento é amplo e rico, não sendo apenas um lugar a chegar, mas um caminho a percorrer. Infelizmente, de forma errônea, o envelhecer é associado à fraqueza  e  ao adoecimento. Uma visão inadequada, pois o envelhecimento pode ocorrer de maneira  saudável,  e  os  grupos  contribuem para isso, possibilitando ao idoso uma saúde mental, física e social. 

Frente ao exposto, aponta-se a necessidade de mudanças de hábitos, adaptação, aceitação e, principalmente, a quebra de conceitos e associações errôneas ligadas ao envelhecimento.  Salienta-se, portanto,  a necessidade cada vez mais urgente de investimento em  grupos  de  convivência  que  deem  possibilidade aos idosos de uma integração ativa nos meios sociais, com  manutenção  da  saúde  mental  e,  consequentemente, uma melhora da qualidade de vida.

Referências:

1. Alves JED. Transição demográfica, transição da estrutura etária e envelhecimento. Revista Portal de Divulgação. 2014;40(4):8-15.
2. Mello MV. O envelhecimento da população brasileira: intensidade, feminização e dependência. Rev Bras Estudos de Pop. 1998;15(1).
3. Dawalibi NW, Anacleto GMC, Witter C, Goulart RMM, Aquino RC. Envelhecimento e qualidade de vida: análise da produção científica da SciELO. Estud psicol. 2013;30(3):393-403. doi: 10.1590/S0103-166X2013000300009
4. Miranda GMD, Mendes ACG, Silva ALA. O envelhecimento populacional brasileiro: desafios e consequências sociais atuais e futuras. Rev Bras Geriatr Gerontol. 2016;19(3):507-519. doi: 10.1590/1809-98232016019.150140
5. Silva JVF, Silva EC, Rodrigues APRA, Miyazawa AP. A relação entre o envelhecimento populacional e as doenças crônicas não transmissíveis: sério desafio de saúde pública. Ciências Biológicas e da Saúde. 2015;2(3):91-100.
6. Gomes JB, Reis LA. Descrição dos sintomas de Ansiedade e Depressão em idosos institucionalizados no interior da Bahia, Brasil. Kairós Gerontologia. 2016;19(1):175-191.
7. Abelha L. Depressão, uma questão de saúde pública. Cad Saúde Colet. 2014;22(3):223. doi: 10.1590/1414-462X201400030001
8. Martins RM. A depressão no idoso. Millenium-Journal of Education, Technologies, and Health 2016;34(13):119-123.
9. Sommavilla L. O sofrimento psíquico dos idosos [monografia]. Ijuí: Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul; 2015.
10. Soares SMS, Coronago VMMO. Grupos de Convivência: Influência na Qualidade de Vida da Pessoa Idosa. Id on Line Rev Psic. 2016;10(33):127-140. doi: 10.14295/idonline. v10i33.603
11. Andrade NA, Nascimento MMP, Oliveira MMD, Queiroga RM, Fonseca FLA, Lacerda SNB et al. Percepção de idosos sobre grupo de convivência: estudo na cidade de Cajazeiras- PB. Rev Bras Geriatr Gerontol. 2014;17(1):39-48. doi: 10.1590/S1809-98232014000100005
12. Lima AMP, Ramos JLS, Bezerra IMP, Rocha RPB, Batista HMT, Pinheiro WR. Depressão em idosos: uma revisão sistemática da literatura. R Epidemiol Control Infec. 2016;6(2):97-103. doi: 10.17058/reci.v6i2.6427
13. Folstein MF, Folstein SE, Mchugh PR. “Mini-mental state”: a practical method for grading the cognitive state of patients for the clinician. J Psychiatr Res. 1975;12(3):189-198.
14. Beck ATMD, Ward MDCH, Mendelson MDM, Mock MDJ, Erbaugh MDJ. An inventory for measuring depression. Arch Gen Psychiatry. 1961;4(6):561-571.
15. Dalmolin IS, Leite MT, Hildebrandt LM, Sassi MM, Perdonssini LGB. A importância dos grupos de convivência como instrumento para a inserção social de idosos. Revista Contexto & Saúde. 2011;10(20):595-598. doi: 10.21527/2176-7114.2011.20.595-598
16. Wichmann FMA, Couto AN, Areosa SVC, Montañés MCM. Grupos de convivência como suporte ao idoso na melhoria da saúde. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia. 2013;16(4):821-832. doi: 10.1590/S1809-98232013000400016
17. Lustosa LP, Marra TA, Pessanha FPAS, Freitas JC, Guedes RC. Fragilidade e funcionalidade entre idosos frequentadores de grupos de convivência em Belo Horizonte, MG. Rev Bras Geriatr Gerontol. 2013;16(2):347-354. doi: 10.1590/S1809-98232013000200014
18. Cruz RVS, Pitanga CDS, Gonçalves BO, Moura MVA, Gonzaga PD. Avaliação do risco de violência contra idosos participantes de um grupo de convivência em Itabuna, BA. Memorialidade. 2014;11(22):49-64.
19. Koc RF, Leite MT, Hildebrandt LM, Linck CL, Terra MG, Gonçalves LTH. Depressão na percepção de idosas de grupos de convivência. Rev Enfermagem UFPE on line. 2013;7(9):5574-5582. doi: 10.5205/reuol.3529-29105-1- SM.0709201327 
20. Vieira KFL, Coutinho MPL, Saraiva ERA. A sexualidade na velhice: representações sociais de idosos frequentadores de um grupo de convivência. Psicologia Ciência e Profissão. 2016;36(1):196-209. doi: 101590/1982-3703002392013
21. Braga IB, Santana RC, Ferreira DMG. Depressão no Idoso. Id on Line Revista de Psicologia. 2015;9(26):142-151.

Palavras Chave:

Compartilhe

Saiba Mais