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Publicada em 04/09/2019 às 15h11. Atualizada em 18/09/2019 às 08h45

Como atender uma pessoa que tentou suicídio?

Saiba mais sobre o papel da enfermagem no acolhimento do indivíduo que tentou suicídio e como dados mostram que esse é um problema de saúde pública.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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"Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio constitui-se em um ato deliberado realizado por  uma  pessoa  com pleno conhecimento ou  expectativa   de um resultado fatal, ou seja, provocar a própria morte."

Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio constitui-se em um ato deliberado realizado por  uma  pessoa  com pleno conhecimento ou  expectativa   de um resultado fatal, ou seja, provocar a própria morte. O suicídio como violência autoinfligida está, na maioria dos países, entre as dez principais causas de morte e entre as mais frequentes em adolescentes e adultos jovens, constituindo-se em um grave problema de saúde pública.

O Brasil encontra-se no grupo de países com baixa taxa de suicídio, mas, como é um país populoso, atinge o nono lugar em números absolutos.  Além do suicídio em si, há outro problema a ele ligado: o elevado número de pessoas que tentam o suicídio. Registros oficiais sobre tentativas de suicídio são escassos, porém estima-se que o número supere o de suicídios efetivados em, pelo menos, dez vezes.

Estudo refere dados da OMS que estimam para o ano de 2020 aproximadamente 1,53 milhão de mortes por suicídio e um número de 10 a 20 vezes maior de tentativas. Isso representa uma morte a cada 20 segundos e uma tentativa de suicídio a cada meio segundo. No Brasil, a taxa oficial de suicídio varia em torno de 5,0 por 100 mil/habitantes.

No Ceará, as taxas de mortalidade relacionadas a agressões autodirigidas registram ascensão significativa. Um estudo ecológico de Oliveira (2010) realizado no estado constatou o aumento de 265 ocorrências de suicídio/ano em 1998 para 525 ocorrências de suicídio/ano em 2007 gerando uma elevação na taxa de 3,8 para 6,3/100.000, o que corresponde a um crescimento de 65,79% na taxa de suicídio, enquanto a população cresceu, nesse mesmo período, somente 18,66%.

Com relação ao cuidado  dos pacientes após a   tentativa   de   suicídio, mais especificamente no ambiente de emergência, sabe-se que essa primeira abordagem  está diretamente relacionada à  ocorrência de novas tentativas e ao seguimento referenciado do paciente na rede de atenção psicossocial  visando  diminuir a  exposição  aos fatores de risco e desenvolver, em âmbito familiar e social, ações de promoção à saúde e valorização da vida.

Para a categoria dos profissionais de enfermagem, que atua na emergência e  em todos os demais pontos  da  rede,  traçar   ações  específicas para essa demanda  tem sido um desafio. Esse fato tem instigado pesquisadores oriundos de vários campos da área científica. Mesmo assim, poucos estudos têm descrito o fenômeno, seja no aspecto médico, epidemiológico ou social. Daí surge a importância de se investigar o assunto por meio de pesquisas que revelem a magnitude do agravo e caracterizem os casos possibilitando intervenções da gestão em saúde e o aperfeiçoamento do cuidado.

MAIS SOBRE SUICÍDIO

O suicídio é um fenômeno determinado biopsicologicamente influenciado por aspectos socioculturais que cercam cada indivíduo. Trata- se de um percurso que vai desde a motivação e ideação até o planejamento do ato e a autoagressão.

"O suicídio é um fenômeno determinado biopsicologicamente influenciado por aspectos socioculturais que cercam cada indivíduo."

Diversas circunstâncias podem aumentar o risco de suicídio por serem produtoras de estresse, como: desemprego, pobreza, perda de um ente querido, desentendimentos com familiares e amigos, término de uma relação afetiva,  problemas legais ou de trabalho,  uso abusivo de  álcool e  outras drogas, disponibilidade dos meios para efetuar o ato suicida, violência física e/ou  sexual, isolamento social e distúrbios psíquicos, como a depressão  ou a esquizofrenia. As diferentes formas de lidar com esse estresse e com a perda de sentido na vida podem disparar, em algumas pessoas, pensamentos de morte.

Mediante essa realidade,  em 2006,  o  Ministério da   Saúde  instituiu  as  Diretrizes Nacionais para Prevenção do  Suicídio, que  destacam,  entre  seus objetivos, o  desenvolvimento de   estratégias  de promoção da  saúde  mental, qualidade  de  vida, educação, proteção, recuperação da saúde e prevenção de  danos. 

Manual de Prevenção ao Suicídio (2006) também se constitui de um normativo ministerial dirigido a profissionais da saúde com o intuito de transmitir informações básicas que possam orientar a detecção precoce do comportamento suicida e o manejo inicial de pessoas que se encontrem sob risco auxiliando no desenvolvimento de ações em diversos níveis de atenção.

Sob esse prisma, é possível inferir que as ações estão ainda limitadas para combater o problema. É imperativo ampliar a produção do conhecimento sobre o impacto do comportamento suicida nas famílias, os aspectos próprios do cuidar de cada uma das  profissões de  saúde,  os estigmas sociais que  dificultam a  reabilitação  dos  pacientes  e  o adequado uso dos registros.

Estudo realizado de 2013 a 2014, na unidade de emergência adulta da Santa Casa de  Misericórdia de Sobral  (CE), apontam a cidade como procedente da maioria dos casos de tentativa de suicídio (38,3%), dentro de um conjunto de 55 municípios atendidos pela unidade de saúde estudada.  

Essa expressividade pode estar relacionada à  maior densidade demográfica  do município ou  à  proximidade  dos  pacientes  em relação ao hospital facilitando os encaminhamentos. Tais considerações também despertam para o fato da comercialização aberta de venenos muito utilizados nas tentativas de suicídio e para um possível déficit no acompanhamento de pacientes com fatores de risco presentes, visto que a cidade possui os serviços substitutivos propostos pela política de saúde mental brasileira, tais como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), ambulatório psiquiátrico e equipes multiprofissionais atuando na Estratégia Saúde da Família.

A prevalência de  adolescentes  e  adultos  jovens  detectados pelo estudo também  aponta para  uma discussão sobre a falta  de  informações e preparo  emocional, baixa escolaridade  e  frágil estrutura familiar por risco social  comum nessa  faixa  etária como  fatores determinantes na ocorrência de autoagressão.

A pesquisa também revelou que os casos ocorrem em sua maioria com mulheres jovens, solteiras  e  sem   apoio   social.  Alguns estudos corroboram esse resultado afirmando que geralmente as mulheres tentam mais o suicídio, enquanto que nos homens essa tentativa culmina, na maioria das vezes, em morte. Isso ocorre porque os homens procuram meios mais letais para a tentativa do suicídio, como arma de fogo, enforcamento, uso de arma branca, ingestão de substâncias nocivas, enquanto que as mulheres cometem a  tentativa por intoxicação exógena (ingestão de substâncias nocivas à saúde)  e outros meios, em geral, de menor letalidade.

Quanto à ocupação dos pacientes, a maioria dos casos estava desempregada, estudantes e agricultores. 

Remete-se, portanto, a falta de apoio  social que consiste na  omissão dos governos em reduzir estressores relacionados ao ambiente  social,  como meios de transporte, saneamento básico, oportunidades de emprego, habitação  digna,  redução  da  violência e  apoio financeiro para  tratamento psiquiátrico.

É consenso apresentar o lazer e a religião como fatores protetores contra o percurso suicida. De maneira divergente, este estudo retratou que 55% dos casos de tentativas de suicídio desempenham com frequência atividades de lazer como sair com os amigos, frequentar  festas, praticar  esportes, ir ao  cinema e 66,7%  dos casos afirmaram ter apoio  espiritual e desenvolver práticas  religiosas rotineiramente.  Podem-se associar esses valores ao fato de que a maioria dos casos constitui-se de primeira tentativa geralmente por impulso emocional jovem não caracterizando  um ato  idealizado   e planejado.

Dos 60 casos estudados, 21 referiram uso abusivo/dependência de crack, álcool e outras drogas. Esse dado indica a relação direta do uso de drogas na determinação da  tentativa  de   suicídio. Muitos dos pacientes referiram estar embriagados ao cometer, como se costuma chamar, ‘o último ato’.

Estudo nacional investigou  84 serviços públicos de emergência distribuídos pelo Brasil, em 2007,  por 30 dias, e registrou 516  atendimentos por tentativa de suicídio, sendo que 25% dos pacientes relataram uso abusivo de  drogas  diversas. Isso se relaciona à desesperança e à situação constrangedora  de atrelar   a  vida  ao  consumo de  substâncias que ocasionam sofrimentos psíquicos intensos no núcleo familiar gerando pensamentos de autodestruição.  Considerando  os   três   principais  determinantes da  tentativa  de  suicídio:  ocorrência de  tentativa anterior, histórico de suicídio na família e em pessoas próximas e  ser  portador  de  transtornos mentais, mais especificamente a  depressão, a  pesquisa apresentou  resultados condizentes com estudos semelhantes já publicados.

É notável o fato de que 40% dos pacientes tentaram suicídio mais de uma vez levando a discussão sobre um acompanhamento possivelmente ineficaz nos serviços de saúde  mental e  na  Atenção Primária à Saúde, bem como a prevalência dos estressores relacionados com a autoagressão.  Estudos chamam a atenção para o fato de que a probabilidade de tentativas aumenta depois da primeira, elevando, assim, o risco de consumação do suicídio.

Os pacientes que tiveram tentativas ou óbitos por suicídio em pessoas próximas nos últimos cinco anos relataram um ambiente mórbido e a perda de entes queridos como fatores idealizadores do suicídio.  A busca por ‘encontrar o ente querido que morreu’ em outros planos de  vida foi referida  algumas vezes durante os encontros. ‘A morte que induz a morte’. 

O diagnóstico indicado para 86,7% dos casos é de intoxicação exógena, em sua maioria, por agrotóxicos, raticidas, produtos de limpeza e por medicações de uso contínuo do próprio paciente, em grande parte dos casos, ansiolíticos. Em seguida, surgem os enforcamentos e os métodos combinados em que o paciente aplica mais de um ato violento autodirigido sequenciado.

Essas intoxicações apresentaram-se, em sua maioria, leves; o tempo de busca por atendimento é curto e o suporte de emergência eficaz, o que permite a evolução da maioria dos casos com alta melhorada sem sequelas (56,7%). 

Os sentimentos mais referidos foram insegurança, angústia e fragilidade com baixas perspectivas de  futuro e  medo de  repressões  familiares, bem como de discriminação social. Outro fato relevante é a causa dessas tentativas de suicídio; a maioria relatou tentar contra a própria vida motivada por conflitos familiares e amorosos.

Os aspectos subjetivos intrínsecos à tentativa de suicídio são obtidos sob uma lógica conflituosa no que tange ao sentido da vida e a autopercepção. É preciso considerar o contexto em que foram coletados os dados permitindo declarações  que podem simular realidades  em busca de alta prévia ou apoio dos familiares.

Leia a segunda parte: O papel da enfermagem nos episódios de tentativa de suicídio

Leia o ARTIGO CIENTÍFICO  

Referências:

1. Organização  Mundial de Saúde (OMS). Relatório mundial da saúde: saúde mental – nova concepção, nova esperança. Genebra. 2001.

2. Krüger LL, Werlang BSG. A dinâmica familiar no contexto da crise suicida. Psico-USF. 2010;15(1):59-70.  doi: 10.1590/S1413-82712010000100007

3. Macente LB, Zandonade E. Estudo  da série histórica de mortalidade por suicídio no Espírito Santo (de 1980 a 2006). J Bras Psiquiatr. 2011;60(3):151-7.  doi: 10.1590/S0047-20852011000300001

4. Brasil. Secretaria da Saúde do Estado do Ceará. Doenças e agravos não transmissíveis - DANT no Ceará: situação epidemiológica, 1998 a 2004. Fortaleza. Ceará. 2006

5. Macente LB, Santos EG, Zandonade E. Tentativas de suicídio e suicídio em município de cultura Pomerana no interior do estado do Espírito Santo. J Bras Psiquiatr. 2009;58(4):238-244. doi: 10.1590/S0047-20852009000400004

6. Brasil. Ministério da Saúde.  Diretrizes Nacionais para  Prevenção do Suicídio. Portaria nº 1.876 de 14 de agosto de 2006.

 7. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Manual de Prevenção ao Suicídio dirigido aos profissionais das equipes de saúde mental. Campinas. São Paulo. 2006

8. Organização  Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-10. Décima revisão. 2008;1.

9. Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. Conselho Nacional de Saúde. Normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos. Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012- CNS. Brasília.  DF. 2012.

10. Bertolote JM, Mello-Santos C, Botega NJ. Detecção do risco de suicídio nos serviços de emergência psiquiátrica. Rev. Bras. Psiquiatr. 2010;32(suppl.2):S87-S95. doi: 10.1590/S1516-44462010000600005

11. Alves AAM, Rodrigues NFR. Determinantes sociais e econômicos da saúde mental. Rev. Port. Saúde Pública. 2010;28(2):127-131

12. Werlang BSG, Borges VR, Fensterseifer L. Fatores de risco ou proteção para  a presença de ideação suicida na adolescência. Interamerican Journal of Psychology. 2005;39(2):259-266. doi:10.1590/2175-3539/2015/0193857

13. Sá NNB, Oliveira MGC, Mascarenhas MDM, Yokota RTC, Silva MMA, Malta DC. Atendimentos de emergência por tentativas de suicídio, Brasil, 2007. Rev. Méd. Minas Gerais. 2010;20(2):145-52

14. Abasse MLF, Oliveira RC, Silva T.C, Souza ER. Análise epidemiológica da morbimortalidade por suicídio entre adolescentes em Minas Gerais, Brasil. Ciênc. saúde coletiva. 2009;14(2):407-416. doi: 10.1590/S1413-81232009000200010

15. Santos AS, Lovisi G, Legay L, Abelha L. Prevalência de transtornos mentais nas tentativas de suicídio em um hospital de emergência no Rio de Janeiro, Brasil. Cad. Saúde Pública. 2009;25(9):2064-2074. doi: 10.1590/S0102-311X2009000900020 

16. Werneck GL, Hasselmann  MH, Phebo LB, Vieira DE, Gomes VLO.  Tentativas de suicídio em um hospital geral no Rio de Janeiro, Brasil. Cad. Saúde Pública. 2006;22(10):2201-2206. doi: 10.1590/ S0102-311X2006001000026

17. Sá ACA, Medeiros MFN, Diniz ERS, Silva MLN, Medeiros SS. Percepções dos profissionais de enfermagem acerca do cuidar do paciente suicida. FIEP Bulletin.  2012;82

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