podcast do isaúde brasil

Publicada em 18/09/2019 às 00h00. Atualizada em 18/09/2019 às 08h41

Como entender o suicídio?

Psiquiatra explica as principais causas do comportamento suicida e qual o papel do Estado e da família nesses casos.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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iSaúde Bahia - Segundo a OMS, há uma tendência no crescimento de morte por suicídio entre jovens, especialmente em países desenvolvidos. A condição social é um fator determinante nesse tipo de comportamento?

Dr. André Caribé -  O suicídio e a tentativa de suicídio são considerados como desfecho de um fenômeno complexo e multidimensional. Não há um fator causal único, portanto, ele deve ser compreendido como resultado da interação de fatores genéticos, biológicos, sociológicos, epidemiológicos, psicológicos e culturais. Dentro desta perspectiva a condição social pode contribuir de alguma maneira para tal comportamento, porém não de um modo determinante. 

iSB - É verdade que a estimativa é de que, no Brasil, 25 pessoas cometem suicídio por dia e que houve um aumento de 30% entre os brasileiros com idades de 15 a 29 anos? Por que o número de casos de suicídio vem aumentando em nosso país?

Dr. André Caribé - É importante observar se houve um aumento real (e de quanto foi este aumento) da taxa de suicídio no Brasil ou há alguma contribuição de um artefato metodológico resultante da melhoria da coleta de dados em nível nacional. Outras questões podem estar de fato contribuindo para o aumento destas taxas em jovens, como por exemplo:  grade pressão ocupacional, aumento da competitividade no mercado de trabalho, falta de assistência adequada em relação a identificação precoce e ao tratamento das doenças mentais e outros fatores que devem ser avaliados e estudados em cada região do pais, visto que as taxas variam muito de estado para estado.

iSB - Existe como avaliar as principais causas do suicídio?

Dr. André Caribé - O suicídio constitui o que se considera uma condição de multicausalidade, ou seja, mais de um fator, ou mesmo vários deles contribuem para sua ocorrência. É um comportamento multideterminado resultante de uma complexa relação entre fatores de risco e de proteção que interagem de uma forma que dificulta a identificação e a precisão do peso relativo de cada um deles. Porém, através de estudos epidemiológicos e clínicos, podemos identificar fatores de maior risco para o suicídio como, por exemplo, ser do sexo masculino, viver em isolamento social, ter fácil acesso a métodos letais, já ter tentado suicídio anteriormente, possuir alguma doença mental, principalmente transtornos de humor, esquizofrenia, transtornos de personalidade, dependência drogas

"...através de estudos epidemiológicos e clínicos, podemos identificar fatores de maior risco para o suicídio como, por exemplo, ser do sexo masculino, viver em isolamento social, ter fácil acesso a métodos letais, já ter tentado suicídio anteriormente, possuir alguma doença mental..." 

iSB - Podemos considerar o suicídio um problema de saúde pública?

Dr. André Caribé - Sim.

iSB - Como funciona a política de prevenção ao suicídio?

Dr. André Caribé - Como comentado acima o suicídio é algo multifatorial e sobre influencias de diversas condições tornando sua prevenção uma missão mais difícil, porem não impossível. Existem alguns programas de saúde publica que visam alcançar este objetivo, porém ainda temos que melhorar muito nossas políticas publicas em relação a prevenção do suicídio

iSB - Quais os principais entraves encontrados hoje para que essa política se torne mais efetiva?

Dr. André Caribé - Existem vários fatores de risco associados ao suicídio, porém é importante destacar o papel da doença mental. Pesquisas demostram que mais de 90% dos suicidas apresentam algum transtorno psiquiátrico associado. Pensando nisso precisaríamos melhorar muito nosso sistema público de tratamento e acompanhamento de pacientes com doença mental. Atualmente existe um abismo entre a demanda  e os serviços de saúde mental  disponíveis que de fato funcionem bem. Existe um numero ainda insuficiente de CAPS, faltam leitos para internação psiquiátrica aguda, faltam leitos psiquiátricos em hospital geral, e na maioria das vezes não há uma articulação adequada entre os serviços.

iSB - Os médicos e profissionais de saúde brasileiros estão preparados para identificar e prevenir um possível caso de suicídio? Há investimento em capacitação para isso?

Dr. André Caribé - De uma maneira geral, os profissionais de saúde não estão preparados para lidar adequadamente com pacientes com risco de suicídio. Há pouco investimento em capacitação. É importante colocar que os profissionais da atenção básica seriam de extrema importância para identificar, iniciar o acompanhamento e encaminhar (se necessário) estes pacientes para tratamento especializado. 

iSB - Como os familiares e pessoas próximas podem ajudar no diagnóstico ou na prevenção?

Dr. André Caribé - É preciso diminuir o tabu que ainda existe em relação ao suicídio. É necessário que a população e as famílias tenham acesso a informação adequada sobre o tema, que se possa conversar e discutir sobre isso abertamente. A mídia também tem uma responsabilidade sobre isso na medida que vincula matérias sensacionalistas sobre o suicídio. O papel da família é fundamental na identificação de sintomas ou comportamentos que sugiram um comportamento suicida, e de apoio aos parentes que sofrem de alguma doença mental e que estejam sob risco de se matar.

iSB - Existe um "perfil" do suicida potencial?

Dr. André Caribé - Não, porém como mencionei acima existem vários fatores de risco que são sinais de alerta como principalmente a presença de  doença mental,  traços de comportamento impulsivo e agressivo,  e tentativa de suicídio previa.

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