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Publicada em 12/05/2020 às 14h27. Atualizada em 15/05/2020 às 12h54

"Como recebi a notícia da chegada da Pandemia no Brasil"

Confira o relato da mestranda em Psicologia e Interveções em Saúde da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Luiza Rodrigues dos Santos.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Segunda-feira, dezesseis de março de dois mil e vinte. São 07:00 horas. Carros na rua. Café quente. Celular na mão, cento e setenta e oito mensagens no whatsapp, onze e-mails não lidos, meu dedo começa a rolar pelas redes sociais, sites de notícias e um clarão toma a minha visão cegada pelas informações que leio, “mais de milhares de mortes registradas”, “Organização Mundial da Saúde declara pandemia de coronavírus”, “acompanhe ao vivo como a curva do gráfico cresce em escala mundial”, “notícias do novo vírus, clique aqui”. Os estímulos não param e nesse mesmo passo meu coração acelera. No mundo inteiro só se fala nisso. Me pergunto o que estaria por vir? 

Não sei, não entendo e é difícil lidar com a incerteza. Assumir a ignorância diante da arrogância do ego quanto às falsas certezas que criei na minha vida é doloroso, angustiante e desorganizador. Sinto que a morte é uma certeza maquiada, esquecida, uma realidade renegada diante da experiência da vida moderna cheia de afazeres. 

O não saber desconserta o que parecia estar em seu lugar e lidar com isso me apavora porque toca em um futuro programado, tão esperado, que estava logo ali na minha frente. Eu, uma jovem recém formada, cheia de planos e desejos de viver, me encontro nesse momento em minha casa, isolada, refletindo sobre a vida, um grande privilégio. A sociedade do sucesso me fez acreditar que ter dúvidas é quase que um desprestígio, o que eu preciso é de respostas conscientes e prontas, ainda que falsas, pois eu nunca me preparei para sustentar a dúvida. 

"Acolher o incerto e aceitar a sua certeza parece-me louco, um grande desconforto que me aponta para o abismo, o precipício da desilusão de que a minha verdade pode não ser tão verdadeira assim." 

Acolher o incerto e aceitar a sua certeza parece-me louco, um grande desconforto que me aponta para o abismo, o precipício da desilusão de que a minha verdade pode não ser tão verdadeira assim. Não, não posso enlouquecer duvidando das verdades que criei para mim. E se a verdade não for nada disso? Talvez estivesse fazendo tudo ao contrário sem partir das perguntas e me permitir viver as dúvidas, somente dando espaço às minhas convicções. Não, não admito. Fujo, corro do não saber, do que me foge à consciência, não me autorizo confessar que simplesmente não sei. Mas não há nada mais verdadeiro nesse momento que aceitar a indeterminação futura. Foi com essa experiência que eu pude compreender: o não saber é uma virtude em um mundo de falsas aparências e incoerência das informações, do ser. Desligo o celular e as notificações. Aos poucos vou me adaptando a essa nova realidade desconexa do não real, do virtual, onde eu finjo existir. 

É o momento para se pensar: até que ponto eu me responsabilizo pelas verdades que compartilho? Verdades para quem? Verdades para que? O excesso é algo que sempre me preocupa, porque nesse contexto de várias verdades, diante do tribunal online de juízes e cientistas autodidatas, não se sabe mais em quem acreditar. E nessa ditadura de informações somos robotizados aos comandos incoerentes de autoridades e veículos de comunicação: fica em casa, vai trabalhar. O que fazer? Quem pode escolher? Essa é uma dúvida que temos que aguentar, há quem não tenha escolhas nem escolha. 

Não há respostas prontas, não há manual de instruções, cabe a nós mantermos a serenidade e o entendimento de que a humanidade não dá conta desse impulso de controlar o futuro e a vida. Em meio a tantas dúvidas, eu me perco no tempo, me desencontro do eu para me encontrar com as perguntas. Lá se vão trinta longos dias desde quando tudo isso começou. Dezesseis de abril de dois mil e vinte e estou aqui para dizer, o que me faz sobreviver ao medo das incertezas é simplesmente entender que desse mundo eu nada sei, como já disse um velho filósofo grego e a dúvida tem me sido uma das poucas e boas companhias nesses dias.

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