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Publicada em 10/06/2020 às 16h16. Atualizada em 10/06/2020 às 16h40

Conheça os benefícios e contraindicações do uso de antissépticos orais na Odontologia

Saiba como funciona a atuação da clorexidina, componente dos antissépticos orais e tópicos.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A microbiota (conjunto de microrganismos que habitam a pele e às mucosas) oral é complexa e apresenta grande diversidade de microrganismos. Aproximadamente 700 espécies foram identificadas na cavidade oral humana. Esta microbiota encontra-se em equilíbrio com o indivíduo, colaborando para o desenvolvimento do sistema imune e homeostase (mecanismo de regulação do corpo). No entanto, em condições ambientais e imunológicas específicas, a placa bacteriana (biofilme dental) pode entrar em desequilíbrio, desencadeando uma série de condições clínicas, a exemplo da cárie e doença periodontal. A estratégia mais comum para evitar e remover o acúmulo do biofilme é a sua remoção mecânica através da escovação. No entanto, em casos de impossibilidade ou inadequação, o uso de antissépticos orais, como a clorexidina, é fundamental.

A clorexidina (CLX) é um agente antimicrobiano padrão-ouro comumente utilizado em ambientes hospitalares como antisséptico tópico. Formulações em concentrações baixas possuem efeito bacteriostático enquanto as concentrações mais altas agem como bactericida. É eficaz contra bactérias gram-positivas e gram-negativas, além de ter propriedades antifúngicas e antivirais. Por essas propriedades, é também utilizado como antisséptico oral, sendo um agente efetivo contra o biofilme dental.

Como se dá a sua ação?

A estrutura da CLX é composta por dois anéis clorofenólicos e dois grupos bis-biguanida ligados, além de ser insolúvel em água. Por essa razão, ela é usada na forma de digluconato de CLX, um sal catiônico com amplo espectro de ação contra microrganismos. Após o bochecho, parte da CLX fica retida na cavidade oral onde é adsorvida pela hidroxiapatita do esmalte dos dentes e glicoproteínas salivares devido a sua carga positiva. Com o tempo, o fármaco é liberado (agora em menor concentração) por difusão, proporcionando um ambiente bacteriostático. A molécula catiônica da clorexidina interage com a parede celular da bactéria (aniônica), aumentando sua permeabilidade e permitindo que a CLX entre no citoplasma, o que causa um desequilíbrio osmótico e consequente morte (inativação) da célula por precipitação de seus constituintes.  

Quais as possíveis indicações e contraindicações?

A CLX é um fármaco com diversas vantagens e, por isso, uma boa alternativa no tratamento de infecções bucais, assim como na prevenção destas. 

O bochecho com solução de CLX é recomendado no combate ao biofilme dental e gengivite e pode atuar na prevenção da formação das placas em pacientes com limitações motoras, usuários de aparelhos ortodônticos e portadores de deficiências mentais. Sua utilização também reduz a formação de biofilme em pacientes que utilizam próteses. 

Vale mencionar o papel importante da CLX em pacientes internados em unidades de tratamento intensivo (UTI), pois nestes, a quantidade de biofilme tende a aumentar durante o internamento, assim como a quantidade de patógenos neste biofilme. Outra indicação importante é na profilaxia de pacientes cirúrgicos, evitando infecções e reduzindo formação de aerossóis contaminantes (3) e complicações pós-cirúrgicas.

Entretanto, a CLX não é indicada para pacientes com hipersensibilidade aos seus componentes. Os efeitos adversos descritos na literatura envolvem: alterações na cor dos dentes (quando usada por tempo prolongado), xerostomia (sensação de boca seca), dor, perda do paladar e gosto residual na boca. Entretanto estes efeitos podem ser prevenidos com a prescrição de uso adequada em acompanhamento com um cirurgião-dentista.

Uso em pacientes oncológicos

O uso desta substância em pacientes oncológicos, sujeitos à imunossupressão causada pelo tratamento radioterápico e/ou quimioterápico, parece ser controverso. Alguns estudos indicam o uso de forma preventiva, alegando que os pacientes são passíveis de desenvolver diversas complicações bucais e a CLX poderia diminuir a intensidade das lesões da mucosa em pacientes que desenvolvem mucosite oral, no entanto, outros estudos indicam uma baixa efetividade da CLX no tratamento da mucosite induzida por radioterapia. A MASCC (Multinational Association of Suportive Care in Cancer) e o ISOO (International Society of Oral Oncology) não recomendam o uso da CLX para prevenção ou tratamento da mucosite oral.

Clorexidina e o COVID-19

Uma das principais portas de entrada do novo coronavírus é a cavidade oral. Estudos apontam que alguns novos enxaguantes bucais podem diminuir a carga viral do SARS COV-2, no entanto, não incluem a CLX. O CFO (Conselho Federal de Odontologia) e a AMIB (Associação de Medicina Intensiva Brasileira) em seus protocolos não recomendam os bochechos com CLX no combate ao SARS COV-2 por esta não apresentar eficácia contra o vírus, entretanto, é reforçado seu uso na higiene bucal de pacientes ventilados para prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica e para antissepsia das mãos no pré-operatório.

De modo geral, entende-se que, certamente, a CLX é uma aliada na prática odontológica, por prevenir e tratar doenças na cavidade oral e ser uma substância de uso seguro quando corretamente prescrita.

Referências:

1. Herrera BS, Mendes GIAC, Porto RM, Rigato HM, Moreira LD, Muscará MN, Magalhães JCA, Mendes GD. O papel da clorexidina no tratamento de pacientes com gengivite no distrito de São Carlos do Jamari – RO. R Periodontia. 2007; 17(4):60-4.. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/239536521. Acesso em: 28 Mar 2020.

2. Hortense SR, Carvalho ES, Carvalho FS, Silva RPR, Bastos JRM, Bastos RS. Uso da Clorexidina como agente preventive e terapêutico na Odontologia. Rev Odontol Univ São Paulo. 2010; 22(2): 178-84. Disponível em: http://arquivos.cruzeirodosuleducacional.edu.br/principal/old/revista_odontologia/pdf/maio_agosto_2010/unicid_22_02_178_84.pdf. Acesso em:  28 Mar 2020.

3. Gonçalves L, Ramos A, Gasparetto A. Avaliação do efeito da clorexidina 0,12% na redução de bactérias viáveis em aerossóis gerados em procedimento de profilaxia. Rev Dent Press de Ortod e Ortoped Fac. 2006;11(3):88-92. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1415-54192006000300011&script=sci_abstract&tlng=pt. Acesso em: 09 Abr 2020

4. LABBATE, Rogério; LEHN, Carlos Neutzling; DENARDIN, Odilon Victor Porto. Efeito da clorexidina na mucosite induzida por radioterapia em câncer de cabeça e pescoço. Rev. Bras. Otorrinolaringol.,  São Paulo ,  v. 69, n. 3, p. 349-354,  June  2003. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-72992003000300009&lng=en&nrm=iso. Acesso em  13  Abr.  2020.

5. Foote RL, Loprinzi CL, Frank Ar, O´Fallon JR, Gutavita S, Tewfik HH, et al. Randomized trial of a chlorhexidine mouthwash for alleviation of radiation induced mucositis. J Clin Oncol. 1994;12(12):2630-3. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/7989938. Acesso em: 13 Mar 2020.

7. Paster, BJ; Olsen, I; Aas, JA; Dewhirst, D. The breadth of the bacterial diversity in the human periodontal pocket and other oral sites. Periodontology 2000 2: 80-87, 2006. Disponível em:  10.1111/j.1600-0757.2006.00174.x. Acesso em: 26 Abr 2020.

8. Lalla RV, Bowen J, Barasch A, et al. MASCC/ISOO clinical practice guidelines for the management of mucositis secondary to cancer therapy [published correction appears in Cancer. 2015 Apr 15;121(8):1339]. Cancer. 2014. disponível em:10.1002/cncr.28592. Acesso em: 29 Abr 2020.

9. Pegoraro J, Silvestri L, Cara G, Stefenon L, Ozzini CB. Efeitos adversos do gluconato de clorexidina à 0,12%. J Oral Invest. 2014;3(1):33-7. Disponível em: https://seer.imed.edu.br/index.php/JOI/article/view/1036. Acesso em: 26 Abr 2020 

10. SILVA, Ana Sofia Machado. Microbioma oral: O seu papel na saúde e na doença. Dissertação - Escola de Ciência e Tecnologia da Saúde, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa, 2016. Disponível em: http://recil.grupolusofona.pt/handle/10437/7475. Acesso em: 26 Abr 2020.

11. Carrouel, F .; Conte, MP; Fisher, J .; Gonçalves, LS; Dussart, C .; Llodra, JC; Bourgeois, D. COVID-19: uma recomendação para examinar o efeito de enxaguatórios bucais com ?-ciclodextrina combinada com Citrox na prevenção de infecções e progressão. J. Clin. Med. 2020 , 9 , 1126. Disponível em: https://www.mdpi.com/2077-0383/9/4/1126. Acesso em: 30 Abr 2020.

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