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Publicada em 01/10/2019 às 09h40. Atualizada em 01/10/2019 às 09h49

Doença de Chagas mata até três pessoas por dia na Bahia

Exatos 110 anos após sua descoberta, a enfermidade transmitida pelo barbeiro ainda representa inúmeros desafios à saúde pública.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Principal causa de óbito por parasitos na América, endêmica em 21 países e responsável pela morte de duas a três pessoas diariamente na Bahia, a doença de Chagas afeta cerca de 116 milhões de pessoas no mundo. São dados epidemiológicos que – 110 anos após a descoberta da enfermidade pelo cientista Carlos Chagas – ainda preocupam a população, as instâncias governamentais e a comunidade científica.

"Principal causa de óbito por parasitos na América, endêmica em 21 países e responsável pela morte de duas a três pessoas diariamente na Bahia, a doença de Chagas afeta cerca de 116 milhões de pessoas no mundo."



O Ministério da Saúde, os poderes públicos, as instituições de pesquisas e as universidades têm debatido e direcionado esforços ao longo desse mais de um século de descoberta da doença e obtiveram relativo sucesso nas últimas décadas, quando se diminuiu substancialmente o número de casos novos da enfermidade.

No entanto, algumas situações mais contemporâneas têm preocupado toda a sociedade, como a persistência de focos residuais de Triatoma infestans (nome científico do inseto), a existência de grande número de espécies potencialmente vetoras de barbeiros e de mecanismos de transmissão, como os surtos episódicos de transmissão oral. A doença é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi.

Com o surgimento e aumento das arboviroses e a necessidade do controle do Aedes aegypti, além de insuficiente investimento público, notou-se uma carência de agentes de endemias para controle de Chagas, abrindo lacunas na vigilância entomológica, profilaxia e controle desses insetos vetores.

Infelizmente, também é verdade que a indústria farmacêutica ignora essa e outras doenças conhecidas como “negligenciadas” e “extremamente negligenciadas” (esta última é o caso da doença de Chagas). Apenas 5% dos recursos globais para pesquisas e desenvolvimento são aplicados na categoria das doenças negligenciadas. Na maioria das vezes, esses recursos são oriundos de instituições privadas, como as indústrias farmacêuticas.


Por se tratar de uma doença conceituada como Doença Tropical Negligenciada (DTN), são insuficientes os investimentos em busca de vacinas, novos medicamentos, saneamento básico e educação em saúde. Quase todo o investimento nessa área vem de instituições filantrópicas ou públicas e é insuficiente para dar sustentabilidade a essas ações de combate à doença ao longo dos anos. As doenças conhecidas como globais, as que incidem em países ricos e pobres – tais como sarampo, hepatite B, diabetes e doenças relacionadas com o tabagismo – levam a maior parte desses investimentos.

Por outro lado, não apenas a população mais carente está sob o risco de contrair a doença de Chagas. Barbeiros têm sido encontrados em áreas urbanas, condomínios de luxo e próximo às matas, onde residem as pessoas de maior poder aquisitivo. Além disso, há relatos de infecções via oral, por ingestão de alimentos contaminados, como o açaí não pasteurizado, em pessoas de diferentes classes sociais.

Um outro problema ligado à enfermidade é que ela, geralmente, é assintomática. A fase aguda seria a fase inicial da doença. As pessoas adquirem e nem imaginam que se infectaram. Quando apresentam sintomas, eles são inespecíficos na maioria, tais como febre e dor de cabeça.

Em alguns casos, quando a infecção se dá por via ocular (quando o barbeiro defeca nessa região), ocorre o chamado “sinal de Romana”, um edema bipalpebral unilateral. Algumas pessoas podem ir a óbito nessa fase, por meio de insuficiência cardíaca ou mesmo meningoencefalite.

Cessada a fase aguda, surge a fase crônica, que pode ser assintomática (indeterminada) ou sintomática. Na fase crônica assintomática, como de se esperar, não aparecem sintomas da doença, eletrocardiogramas e órgãos afetados estão aparentemente normais. Por motivos ainda desconhecidos, entre dez a 30 anos, em média, surge a fase crônica sintomática, fase na qual podem surgir as formas cardíacas, digestivas e nervosas.

Na forma cardíaca, ocorre a diminuição de massa muscular e insuficiência cardíaca. Pode haver comprometimento do sistema nervoso autônomo, o que provoca arritmias, cansaço fácil, falta de ar e morte súbita.

Na forma digestiva, a pessoa pode ter dificuldades em engolir alimentos sólidos, regurgitação, soluço, tosse, dilatações, megaesôfago e megacólon. Na forma nervosa, alucinações e problemas neurológicos são relatados.

Há chances de cura ou de tratamento que permita sobrevida?

As chances de cura são elevadas ao se descobrir a doença no início, ou seja, na fase aguda. O benzonidazol, medicamento oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e produzido no Brasil, é altamente eficaz. Embora seja o fármaco de primeira escolha para o tratamento da doença, ele é ainda muito pouco eficaz para a cura de pacientes durante a fase crônica.

"Um dos motivos de a doença passar despercebida é que, na fase aguda, muitas vezes, não é relacionada a situação clínica com os dados epidemiológicos."

Um dos motivos de a doença passar despercebida é que, na fase aguda, muitas vezes, não é relacionada a situação clínica com os dados epidemiológicos. Na fase crônica, na sua forma indeterminada, a única questão que faz pensar nessa doença é, também, a situação epidemiológica. 

Sabe-se que apenas três ou quatro entre dez pessoas realmente vão apresentar sintomas na fase crônica, quando as formas cardíaca, digestiva e nervosa, podem se manifestar, isoladamente ou em conjunto.

Na fase aguda da doença, o diagnóstico vem do exame direto do sangue em busca dos parasitos, que se encontram na circulação sanguínea ou exame sorológico, em algumas situações, assim como xenodiagnóstico, hemocultura e PCR.

Já na fase crônica, o diagnóstico vem dos exames sorológicos, sendo feitos pelos menos dois testes com métodos sorológicos diferentes. Exames por imagens e eletrocardiograma também podem apresentar anormalidades nos órgãos afetados.

O sintoma mais clássico da doença quando ela atinge o intestino, é a obstipação, devido ao desenvolvimento do megacólon, no intestino grosso. Também denominada constipação intestinal ou prisão de ventre, a obstipação se apresenta por dificuldades em defecar e fezes duras e ressacadas. Também ocorre a disfagia, ou dificuldade de engolir os alimentos, se houver a dilatação do esôfago ou megaesôfago.

Se o paciente desenvolver a forma crônica indeterminada (quando não há sintoma nenhum), pode viver por longos anos. O transplante de coração pode sim, dar uma melhor qualidade de vida ao paciente que evolui para a forma cardíaca, em geral, após três décadas. Existem até casos de pacientes viverem vidas de atletas após o transplante de coração.

Prevenção –Alguns dos cuidados mais importantes são: não acumular entulhos, madeiras, tijolos e lixo ao redor da casa, pois servem de abrigo para barbeiros; evitar a implantação de galinheiros e outros abrigos de animais próximo de casas, pois servem de alimento para barbeiros; rebocar as paredes das casas e pintar sempre com cores mais claras, para enxergar melhor os insetos invasores, que inclusive são atraídos pela luz; permitir as ações de controle dos agentes de saúde e procurar os serviços de saúde sempre que tiver suspeita e ao aparecerem os sintomas da doença, ou ao ser picado pelo barbeiro.


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