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Publicada em 26/06/2017 às 17h27. Atualizada em 04/07/2017 às 09h00

Entenda mais sobre o uso de drogas lícitas e ilícitas

Nesta entrevista com a psiquiatra Julieta Guevara, confira algumas informações sobre esse problema de saúde pública.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Margaret Chan, da Organização Mundial da Saúde, apresentou um quadro no qual aponta que, de 2013 até hoje, as mortes diretas pelo uso de drogas dobraram e, considerando a América e a Europa, torna-se de extrema relevância discutir esse consumo, conforme demonstrado na entrevista a seguir.

iSaúde Bahia – Conhece a estatística de consumo de drogas lícitas e ilícitas no Brasil e no mundo? E estatística sobre as mortes causadas entre os que fazem esse consumo?

Julieta Guevara – Cinco por cento da população mundial usa drogas. Drogas ilícitas, englobando os estimulantes (cocaína, anfetamina e catinona), maconha e opiáceos, estão entre aquelas mais usadas atualmente. O crescimento do THC (maconha) vem da concepção errada de que as políticas econômicas de arrecadação, propondo legalização, chancelam o uso "medicinal".

É importante ressaltar que a comparação entre o que é arrecadado com a venda deve ser feita em relação aos gastos com as consequências na saúde mental e física. Os números do Estado sobre saúde mental sofrem um viés de avaliação, no Brasil, por não serem cobertos pelos planos de saúde, não sendo prioridade para a legislação do SUS, como documenta o Dr. Valentim Gentil, diretor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em SP, num filme pouco conhecido, chamado, "Omissão de Socorro".

No nível global, o ópio, por exemplo, financia a guerra do Oriente Médio contra "os infiéis". No Ocidente, os derivados do ópio, analgésicos de prescrição controlada, são exemplos dos medicamentos mais abusados, constituindo-se num problema de saúde pública mundial. 

É conhecido o impacto das drogas no desenvolvimento produtivo da população, resultando em que, por exemplo, adia ou elimina a capacidade trabalhista, aumentando a população de rua. 

iSB – As bebidas alcoólicas são o tipo de droga que mais causa problemas à sociedade por ser o tipo mais generalizado, o mais difundido e aceito socialmente? 

Julieta Guevara – Fala-se sobre o uso recreativo e o uso abusivo do álcool. No caso do uso abusivo, entramos na patologia das dependências. Trata-se de uma droga lícita, como sabemos, mas quando começa a alterar as atividades do dia a dia, resulta em absenteísmo ao trabalho, em problemas na vida familiar e na inserção trabalhista, já não se configurando, assim, como um uso recreativo. O alcoolismo caracteriza-se quando o paciente precisa beber de manhã, se não ele começa a tremer e o tremor só para quando ele toma o primeiro gole. Com isso, o fígado começa a apresentar insuficiência, o pâncreas desenvolve diabetes avançadas, o cerebelo degenera e as pernas já não andam coordenadas.

iSB – Há alguma relação entre o grau de prejuízo biológico (neurológico, fisiológico) das drogas e o grau de prazer que proporcionam? Em outras palavras, as “piores drogas” são as que proporcionam mais prazer (antes da fase em que a pessoa já sente mais dependência do que prazer)? Há alguma relação, também, entre a facilidade de provocar vício e o grau de prazer proporcionado pelas diferentes substâncias?

"Todas as drogas geram um tipo de lesão ao organismo. Cada um delas tem uma lesão específica."

Julieta Guevara – Todas as drogas geram um tipo de lesão ao organismo. Cada um delas tem uma lesão específica. O álcool, por exemplo, tem a toxidade cerebelar, hepática, pancreática, mas a maconha, por sua vez, tem a toxidade pulmonar igual ao cigarro e ela abre a possibilidade para uma esquizofrenia mais cedo.

A cocaína tem a toxidade cardíaca e hepática. O crack, que é a base da cocaína, tem uma toxidade muito mais potencializada e deteriora a capacidade de a pessoa raciocinar.

iSB – Quais são os principais fatores de risco que levam pessoas a transporem o consumo recreativo rumo à dependência, ao vício e ao prejuízo de sua vida social?

Julieta Guevara – Diversos fatores de risco podem estar presentes quando a pessoa desenvolve problemas com qualquer tipo de droga. Eles podem incluir a história familiar, idade e até mesmo o círculo de amigos. Porém, nem todos os fatores de risco levam à dependência. Por exemplo, muitas pessoas enfrentam depressão e nunca se tornam alcóolatras. Para outras pessoas, um problema pode ser tão arrasador que, sozinho, pode ser a causa de um vício.

iSB – Nos últimos anos ou décadas, quais são os principais avanços conseguidos no Brasil em termos de Política Pública de Saúde em relação ao consumo de drogas? E quais são os principais desafios? 

Julieta Guevara – Como crítica geral, devo destacar que a saúde pública do Brasil é muito esvaziada. Nosso sistema de saúde deficitário empurra cada vez mais as pessoas à busca pelo plano de saúde, e a saúde mental, infelizmente, ao que parece, é a última das prioridades do governo. A legislação, nesse caso, também é muito falha. O número de internações foi restringido, assim como o dinheiro disponível para saúde mental.

O projeto das oficinas terapêuticas é um dos exemplos de boas ideias que nunca saíram do papel, infelizmente. Seria uma instituição onde o paciente passaria o dia, faria várias atividades e, depois, iria para casa. Com o projeto engavetado, transferiu-se a responsabilidade do Estado para a família e para instituições privadas, ou seja, o que ocorreu realmente foi uma omissão de socorro. Esse é o nosso quadro.

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