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Publicada em 25/04/2017 às 14h56. Atualizada em 07/05/2018 às 13h56

Epilepsia, mulher em idade fértil e as drogas antiepilépticas

A epilepsia atinge 65 milhões de pessoas em todo mundo e, entre elas, estima-se que 25% são mulheres em idade fértil.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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"Um diagnóstico de epilepsia pode ter um considerável efeito sobre a qualidade de vida."

A epilepsia ocorre devido a uma atividade excessiva do cérebro, como se fossem curtos circuitos, sendo definida como duas ou mais crises não provocadas por doenças ou outras circunstâncias. Quando essas descargas acontecem em uma região específica do cérebro, são chamadas de parciais e, se acontecem em todo o cérebro, são chamadas crises generalizadas. Sua caracterização clínica, entretanto, é definida por crises de contraturas musculares (geralmente espasmos, tremores em pernas e braços), perda de consciência, mordedura de língua e salivação excessiva. 

Um diagnóstico de epilepsia pode ter um considerável efeito sobre a qualidade de vida. As atividades cotidianas podem ser prejudicadas, essas pessoas devem ser desencorajadas a dirigir, nadar, cozinhar, ou seja, qualquer atividade na qual a crise traga risco de ferimento ou morte. O tratamento deve ser realizado fazendo uso do medicamento nos horários corretos e acompanhamento com profissionais de saúde. Cerca de 70% das pessoas tratadas adequadamente conseguem ficar livres de crises.

O agravo atinge 65 milhões de pessoas em todo mundo e, entre elas, estima-se que 25% são mulheres em idade fértil. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, mulher em idade fértil são aquelas com idade de 10 a 49 anos de idade. As mulheres tornam-se um grupo especial, pois, além de lidarem com os papéis e prioridades que elas têm em suas vidas, como carreira, educação dos filhos e o cuidar da família, elas enfrentam desafios específicos devido às implicações clínicas relevantes em função das crises e do uso das drogas antiepilépticas (DAEs).

A avaliação do diário menstrual é importante para categorizar o ciclo em ovulatório e anovulatório permitindo relacionar menstruação e crise. Os transtornos menstruais podem estar relacionados a politerapia.  A epilepsia catamenial refere-se ao aumento das crises durante as diferentes fases do ciclo menstrual. Esse aumento é mais comum no ciclo anovulatório, podendo estar associado aos níveis hormonais. 

Para o tratamento, recomenda-se o aumento da dose das DAEs e o uso de medicação indicada no tempo da exacerbação das crises. Mulheres com epilepsia também podem apresentar menopausa precoce. Na menopausa, pode haver a piora das crises, que se acredita estar associada à substituição hormonal. Drogas antiepilépticas afetam a densidade óssea e predispõe à osteoporose e às fraturas. O distúrbio endócrino mais comum na mulher com epilepsia é a síndrome do ovário policístico, também conhecida como SOP, que tem uma prevalência estimada de 4 a 19%. A doença é caracterizada pela menstruação irregular, alta produção de hormônio masculino e presença de microcistos nos ovários. Sua causa pode estar relacionada ao uso de DAE. 

Embora a maioria das mulheres com epilepsia tenha uma vida sexual normal, disfunção sexual tem sido relatada nessa clientela, podendo estar associada a múltiplos fatores psicológicos e físicos como o uso das DAEs. As queixas variam desde a diminuição do desejo sexual e do prazer a crises induzidas por orgasmo. 

As DAEs aceleram o sistema hepático do citocromo, que é a principal via metabólica dos hormônios levando a uma rápida absorção, podendo assim, diminuir a eficácia dos anticoncepcionais via oral permitindo a ovulação nessas mulheres que fazem uso do método. Uma recomendação é aumentar a dose de etinilestradiol para 50 microgramas. Vale ressaltar que essa dosagem pode aumentar o risco de câncer de mama. O adesivo transdérmico apresenta taxas de falha mais altas quando utilizado com as drogas antiepilépticas. 

A injeção de depósito acetato de medroxiprogesterona na dosagem de 150 mg, pode ser outra opção sendo importante diminuir o espaço de tempo recomendado (12 semanas) entre as aplicações para 8 a 10 semanas. Os Dispositivos Intrauterinos (DIU) são um método bem tolerado, eficaz e de fácil inserção e estão disponíveis em dois tipos (liberação de hormônio e cobre). O DIU de progesterona age em nível local do endométrio sendo pouco provável que as DAEs tenham um efeito sobre a sua eficácia. Sendo assim, o DIU é considerado o contraceptivo mais indicado para a mulher com epilepsia que não deseja engravidar.

"As mulheres com epilepsia que planejam engravidar precisam conversar com a equipe de saúde que a acompanha antes mesmo da gestação, pois a gravidez deve ser cuidadosamente planejada e acompanhada."

As mulheres com epilepsia que planejam engravidar precisam conversar com a equipe de saúde que a acompanha antes mesmo da gestação, pois a gravidez deve ser cuidadosamente planejada e acompanhada. Não há evidências disponíveis de complicações obstétricas ou aumento das crises relacionadas a epilepsia, mesmo assim a gestação é considerada de alto risco, mas, se a doença e as crises estiverem controladas, a paciente pode ter uma gravidez e parto normais. 

Quando apropriado, deve-se manter monoterapia com menor dose possível, pois algumas drogas antiepilépticas têm efeito teratogênico. Crianças nascidas de mulheres com epilepsia em uso de determinados medicamentos antiepilépticos podem apresentar problemas de linguagem, diminuição significativa no QI, aumento do risco de autismo, defeitos do tubo neural, defeitos cardíacos congênitos, crescimento reduzido, entre outras alterações. É recomendado que toda mulher com epilepsia em idade fértil faça uso do ácido fólico, diariamente, para prevenir malformações fetais. 

Com relação a amamentação, as mulheres com epilepsia que tomam DAEs podem amamentar, a maioria das drogas excretam pequena quantidade de fármaco para o leite materno. As questões relacionadas a gravidez e epilepsia que afetam as mulheres com epilepsia são o medo em relação aos efeitos das DAEs no feto, aumento da frequência das crises durante a gestação, efeitos teratogênicos, medo de a criança nascer com epilepsia e medo do nascimento. Para algumas mulheres, a gestação pode ser um período estressante com presença constante de sentimentos como ansiedade e medo podendo resultar em depressão. 

A depressão tem uma taxa de prevalência alta em pessoas com epilepsia e as mulheres apresentam um maior risco ao desenvolvimento. Além da depressão, outras comorbidades psiquiátricas podem acometer pessoas com epilepsia, podendo estar relacionadas ao uso dos antiepilépticos. Não há restrição ao uso de drogas antiepilépticas e psicotrópicos, mas, a escolha do medicamento deve ser feita de maneira cuidadosa devido ao potencial de interação e recomenda-se avaliar as classes farmacológicas. 

Neste artigo, discutimos algumas questões clínicas relevantes que acometem as mulheres em idade fértil com epilepsia. O tratamento dessa mulher não requer apenas o conhecimento da epilepsia, mas também o reconhecimento da atenção para as questões específicas do gênero e seu impacto na qualidade de vida. Pensando nessa amplitude, o Centro Médico da Bahiana Saúde, localizado na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, bairro de Brotas, em Salvador, dispõe de uma equipe interdisciplinar composta por neurologista, enfermeira, psicóloga e neuropsicólogo que vem buscando construir planos terapêuticos para um cuidado integral a essa clientela. 

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