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Publicada em 14/10/2019 às 11h51. Atualizada em 21/10/2019 às 17h55

Há relação entre a doença periodontal e o câncer colorretal?

Mais propensa a partir dos 40 anos de vida, a doença periodontal é mais prevalente em idosos. Saiba mais.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A doença periodontal é uma condição inflamatória, de grande prevalência, caracterizada pela perda de suporte dental. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa prevalência varia, em todo o mundo, de 10% a 15% nas populações adultas. Geralmente, se desenvolve na quarta década de vida, sendo mais prevalente em idosos. O biofilme bacteriano é considerado o fator etiológico primário para o estabelecimento da doença periodontal, porém os fatores ambientais e do hospedeiro também estão envolvidos na progressão da doença, tais como hereditariedade, sistema imune, estresse, alterações sistêmicas e percepção do indivíduo sobre a doença e higiene bucal.

A patogênese da doença periodontal é caracterizada pela interação das substâncias bacterianas com as células fagocíticas monomorfonucleares e fibroblastos, resultando na ativação e produção de mediadores catabólicos, incluindo, principalmente, IL-lß, PGE2, TNFa e IL-6. Essas citocinas mediam a secreção de metaloproteinases da matriz (MMP). 

Cerca de 20 espécies bacterianas foram consideradas importantes na patogenia das doenças periodontais. Pode-se citar, entre elas, a P. gingivalis, B. Forsythus, Actinobacillus actinomycetemcomitans, Campylobacter rectus, Eubacterium nodatum, Fusobacterium nucleatum, Prevotella intermedia /nigrescens.

A virulência bacteriana influencia na gravidade da doença, por meio de mecanismos de evasão. Porém, a resposta do hospedeiro, por meio da expressão de citocinas inflamatórias, enzimas proteolíticas, aumento do estresse oxidativo e falha na resolução da inflamação são os protagonistas no processo de destruição periodontal. O envolvimento da doença periodontal com o sistema imune corrobora para os estudos que relacionam essa doença com outras alterações sistêmicas, dentre elas o câncer colorretal.

O câncer colorretal

As doenças e agravos não transmissíveis já são as principais responsáveis pelo adoecimento e óbito no mundo, com destaque para doenças cardiovasculares e o câncer. Estima-se para o Brasil, entre 2018 e 2019, a ocorrência de 600 mil casos novos de câncer, para cada ano, sendo o câncer de próstata, pulmão, mama, cólon e reto os mais incidentes.

O intestino é marcado pela diversidade de sua microbiota que, diante de condições saudáveis, produz vitaminas e oligoelementos essenciais, além de permitir a extração de energia de carboidratos indigestíveis. Outras funções reconhecidas incluem a defesa contra a colonização de enteropatógenos por meio da inibição do crescimento, da produção de acetato, bacteriocinas e da estimulação da resposta imune.

O câncer colorretal é uma doença maligna, que atinge o intestino grosso e o reto. A carcinogênese colorretal representa processos heterogêneos com diferentes conjuntos de alterações genéticas e epigenéticas, influenciados pela dieta, exposições ambientais, microbianas e pela imunidade do hospedeiro. Suas causas ainda não estão totalmente esclarecidas, entretanto um número crescente de evidências indica uma ligação complexa entre microbioma intestinal, imunidade e tumorigênese intestinal. Esses fatores podem promover o aumento da inflamação e alteração na imunidade, sugerindo que a inflamação desempenha um papel importante no desenvolvimento da doença. Estes fatores podem modificar a microbiota intestinal e potencializar o crescimento das Porphyromonas, Fusobacterium, Peptostreptococcus e Mogibacterium.

A doença periodontal e o câncer colorretal

Na doença periodontal, a translocação de bactérias orais, toxinas bacterianas, mediadores inflamatórios e a bacteremia transitória são capazes de promover uma inflamação sistêmica. Sabe-se que a inflamação persistente está diretamente relacionada ao desenvolvimento neoplásico. Biomarcadores inflamatórios comuns na doença periodontal, como o fator de necrose tumoral 2 (TNFRSF1B ou sTNFR? 2), interleucina? 8 (IL8) e interleucina? 6 (IL6) estão associados a um risco maior de câncer colorretal.

A inflamação muda a microbiota intestinal para uma configuração pró-inflamatória, facilitando a indução de um estado inflamatório crônico, a biossíntese de genotoxinas, a produção de metabólitos tóxicos e a ativação de aminas heterocíclicas.

Além disso, em tecidos tumorais da região colorretal e amostra de fezes de pacientes com câncer colorretal, foram observadas bactérias do tipo Fusobacterium Nucleatum, que estão fortemente associadas às doenças periodontais. Acredita-se que essas bactérias, quando na região colorretal, por um sistema de receptores, podem ativar a beta-catenina, potencializando o crescimento de células tumorais e acelerando o aparecimento de tumores do cólon. Essas bactérias também são capazes de inibir a atividade das células T, que no carcinoma colorretal têm sido associadas a uma melhor sobrevida do paciente.

Tanto a doença periodontal como o câncer colorretal são consideradas doenças sistêmicas e podem compartilhar vias semelhantes de patogênese. A inflamação persistente, sem dúvida, tem um papel central nesse processo, ora por agravar a severidade da doença periodontal, ora por alimentar a carcinogênese, induzindo mutações genéticas, inibindo a apoptose ou estimulando a angiogênese e a proliferação celular. Uma outra similaridade entre essas doenças é a dieta, uma vez que a perda de dentes pela doença periodontal pode levar ao consumo de dieta pobre em fibras e proteínas, e impactar fortemente a composição da microbiota intestinal.

É intrigante essa relação, suscitando mais investigações sobre os fatores ambientais, genéticos e o desenvolvimento de estratégias de prevenção de ambas patologias por meio do direcionamento da microbiota e de células do sistema imunológico.


Referências:

Disponível em: http://www.oncoguia.org.br/oncoguia-material/estimativa-2014-incidencia-de-cancer-no-brasil/108/22/

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