podcast do isaúde brasil

Publicada em 16/01/2019 às 11h16. Atualizada em 17/01/2019 às 08h33

Homeopatia: mito ou verdade?

A fim de esclarecer essa polêmica, o iSaúde Brasil conversou com a médica homeopata e professora do curso de Medicina da Bahiana, Mônica Cunha.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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São muitos os conceitos de saúde, doença e cura na cultura dos brasileiros. A homeopatia procura incorporar todos eles de uma maneira inclusiva, global e revolucionária. A Liga Acadêmica de Homeopatia da Bahia (LAHOB) – uma das ligas acadêmicas da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública – está terminando a sua segunda turma de Pós-Graduação em Homeopatia para médicos, odontólogos e farmacêuticos. Nesta entrevista, a especialista em homeopatia Mônica Cunha explica os principais aspectos da prática e da história da homeopatia, discute o saber e a medicina popular, sempre destacando que cada vez mais médicos homeopatas têm se tornado pesquisadores, aumentando o número de pesquisas científicas que têm a homeopatia como tema. “Um médico homeopata é um médico: ele fez Medicina, fez uma residência e, só então, ele vai fazer homeopatia. Aí, nós já temos mais de oito anos de estudo”, afirma Mônica Cunha, que é professora de Clínica Médica e Comunicação em Saúde na Escola Bahiana de Homeopatia e coordenadora da pós-graduação de Homeopatia da Bahiana.

iSaúde Brasil - Como a senhora vê essa recorrente discussão sobre o valor científico da medicina homeopática?

Mônica Cunha - Acredito que essa discussão é recorrente com relação às práticas integrativas e, como a ciência não é feita de verdades absolutas, sempre iremos continuar com esses questionamentos. Atualmente, tem crescido o número de pesquisas em homeopatia, principalmente com testes in vitro e ensaios clínicos randomizados. Além disso, temos uma tendência a achar que só o medicamento descoberto recentemente poderia ter o status de científico, quando, na verdade, a homeopatia existe há 200 anos e é uma prática médica comprovadamente eficaz e eficiente. 

iSaúde Brasil - Pode explicar, de maneira simplificada, o princípio dos similares e a lei dos infinitesimais que rege a homeopatia?

Mônica Cunha - Talvez o primeiro princípio que a gente possa usar para esclarecer a homeopatia seja o princípio do semelhante, que rege também a vacinação. Você pega um vírus morto, atenuado ou modificado e promove uma “doença” na pessoa, só que uma doença de menor intensidade, menor força, para que ela fique protegida para futuros ataques. A lei dos infinitesimais ou da nanotecnologia é hoje muito mostrada pelos estudos das ultradiluições. São trabalhos científicos, inclusive não na área da homeopatia apenas, mostrando a importância das ultradiluições, seus efeitos e sua ação. É um tema árduo, difícil para quem gosta dessa área, mas é bem importante. 

A outra lei que rege a homeopatia está muito ligada às práticas integrativas, que é esse conceito de integralidade, de cuidar do ser humano como um todo, de cuidar do contexto de vida do indivíduo, levando em consideração, inclusive, o contexto emocional no momento do adoecimento. A homeopatia é uma das práticas integrativas complementares junto com a acupuntura. São as duas únicas que são de uso da medicina (as demais são usadas também por outras profissões em saúde, importante ressaltar isso). 

iSaúde Brasil - Como a senhora vê o caso de pacientes que, acometidos de doenças potencialmente debilitantes ou fatais, abandonam os tratamentos ditos alopáticos e passam para as terapias alternativas?

Mônica Cunha - Com relação a pacientes acometidos por doenças graves, como o câncer e as degenerativas, que abandonam os tratamentos alopáticos e vêm para a homeopatia ou qualquer outra prática integrativa, trata-se de uma demanda individual. Não é uma decisão do médico. Nenhum médico – repito, as práticas médicas integrativas são homeopatia e acupuntura – deve sugerir a um paciente que ele não se trate com os recursos disponíveis.  E, se nós temos recursos modernos como quimioterapia, cirurgias para tratar e extirpar um câncer, por exemplo, não haveria motivo para um médico homeopata contraindicar isso. Agora existem, sim, os pacientes que desistem dos tratamentos ou para usar homeopatia e acupuntura ou para nada. 

Muitos largam tudo e ficam em casa, “esperando a morte chegar”. É uma escolha individual que, em momento algum, é preconizada por um médico homeopata como uma maneira de viver a vida ou de tratar uma doença. Isso é um mito, um equívoco, que a gente precisa combater. Um médico homeopata é um médico: ele fez Medicina, fez uma residência e, só então, ele vai fazer uma especialização em homeopatia. Aí, nós já temos mais de oito anos de estudo. Mas se a escolha é da pessoa, individualmente, aí a gente - como médico - tem que respeitar a autonomia do sujeito, sendo alopata ou homeopata. 

iSaúde Brasil - Como você classificaria a eficácia da medicina popular?

Mônica Cunha - Muitas coisas ainda não foram testadas ou aprovadas “cientificamente”, como você está chamando, mas são práticas populares de cuidado em saúde. Às vezes, estas práticas vêm de culturas milenares. Só cabe a nós, na Medicina, dialogar e pesquisar sobre isso. 

Acho que, talvez, a sua pergunta seja mais no sentido de como um médico vê isso. Eu diria que o médico pode respeitar a tradição, a cultura, os hábitos de determinada população, de determinada família, de determinada cidade. Isso se chama respeito, também se chama autonomia. E podemos – por que não? – associar, respeitando os hábitos e a cultura que o paciente traz no seu momento de adoecimento. 

iSaúde Brasil - Qual é a diferença entre homeopático e fitoterápico?

Mônica Cunha - A principal diferença é que o medicamento fitoterápico é feito somente do substrato de plantas (tintura-mãe ou extração a seco), pode ser do tronco, das folhas e das flores.  Os medicamentos homeopáticos, por sua vez, podem ser feitos de plantas, minerais e animais. Quando feito de plantas, passam por um processo diferente de diluição e dinamização. 

iSaíde Brasil - Poderia dar exemplos de tratamentos simples ou receitas caseiras que não necessitam de remédios comprados em farmácia e que têm boa eficácia?

Mônica Cunha - Todos nós, seres humanos, sabemos hoje o quão importante é caminhar e ter uma alimentação saudável e balanceada, quantos alimentos são nutracêuticos, ou seja, têm a potencialidade de funcionar como medicamentos e isso não depende do médico. Procurar diminuir o estresse, meditar, respirar com consciência, fazer atividades físicas prazerosas. Tudo isso não é “comprável” em farmácia, depende do autocuidado e dedicação. 

"Todos nós, seres humanos, sabemos hoje o quão importante é caminhar e ter uma alimentação saudável, balanceada, quantos alimentos são nutracêuticos, ou seja, têm a potencialidade de funcionar como medicamentos e isso não demanda do médico."

iSaúde Brasil - Da mesma forma, existem receitas que são popularmente compartilhadas e que não têm nenhum resultado comprovado? Pode citar alguma delas?

Mônica Cunha - Novamente, isso tem a ver com as práticas populares em saúde. Nós, enquanto médicos, temos que dialogar com elas e procurar intervir apenas se conseguirmos comprovar os malefícios. E pensarmos a partir do saber médico o que nós podemos oferecer ao paciente, sem julgá-lo ou considerar inferior o seu saber. 

iSaúde Brasil - Países como Austrália, Espanha e Inglaterra em algum momento removeram ou estão se preparando para retirar a homeopatia de suas redes públicas de saúde. Você acha que o Brasil deveria seguir esse exemplo? Por quê?

Mônica Cunha - Isso não é bem verdade. Se você for hoje ao sistema de saúde do Reino Unido, você verá que, dentro das práticas integrativas, as consultas de homeopatia continuam ocorrendo, mas agora elas foram incluídas nas práticas integrativas. É claro que, em politicas públicas, sempre vemos mudanças de acordo com os interesses de quem está no poder. Atualmente, temos um movimento mundial de governos que investem cada vez menos em políticas acessíveis à maioria da população. No entanto, apesar deste movimento, acredito que o Brasil tem investido nas práticas integrativas e, felizmente, temos visto um crescimento da homeopatia dentro das faculdades de medicina. 

iSaúde Brasil - Por que é tão difícil se comprovar a eficácia da medicina homeopática ou, pelo menos, encerrar essa discussão de forma mais efetiva?

Mônica Cunha - Primeiramente, o objetivo da ciência não é encerrar discussões, muito pelo contrário, devemos sempre questionar o que está dito como “verdade”. Claro que a homeopatia não estaria distante disso, sempre vamos ter essa discussão. Além disso, a homeopatia, por muito tempo, foi estudada distante do meio acadêmico tradicional. No entanto, isso tem mudado e cada vez mais médicos homeopatas têm se tornado pesquisadores, aumentando o número de pesquisas científicas que têm a homeopatia como tema. Dessa forma, acredito que daqui a mais cinco a 10 anos conseguiremos ver e perceber mais frutos dessas pesquisas. Na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, temos buscado caminhar nesse sentido: os alunos de graduação têm tido espaço para conhecer e estudar a homeopatia através da Lahob (Liga de Homeopatia) e estamos terminando a segunda turma de Pós-Graduação em Homeopatia para médicos, odontólogos e farmacêuticos. 

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