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Publicada em 25/07/2016 às 00h00. Atualizada em 25/07/2016 às 10h16

Interpretação dos Sonhos sob Enfoque da Diversidade Cultural

Nesta segunda parte de seu artigo sobre sonhos, Ivan dos Santos Messias, professor mestre em Cultura e Sociedade, fala sobre o papel da cultura na significação dos símbolos que aparecem nos sonhos.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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" Os símbolos são imagens que substituem outro objeto, outro acontecimento. Os sonhos guardam linguagem simbólica."

Ter uma relação sexual maravilhosa nos sonhos normalmente não tem relação alguma com sexo. Os símbolos são imagens que substituem outro objeto, outro acontecimento. Os sonhos guardam linguagem simbólica. Consequentemente, as condições orgânicas e psicológicas como mal-estar alimentar, frustração, recalque, neuroses são insuficientes para justificar a natureza dos sonhos. Ou seja, uma noite em que alguém está alegre pode produzir um sonho de tristeza, pessimismo e desastres. Uma alimentação inconveniente e estimulante pode gerar sonhos leves, otimistas, bem-sucedidos. Visualizar facas, cães raivosos, assassinos tem significado positivo ou negativo dependendo do contexto e dos códigos linguísticos de cada povo, de cada pessoa. Portanto, o hipérbato das imagens ou inversão espaço-circunstancial é outra característica da linguagem onírica, que precisa ser melhor analisada, agora mais sob o olhar culturalista e menos universalizante.

Na pesquisa sobre significados dos sonhos sagrados, Bulkeley anotou os sonhos de 42 mulheres na graduação da Universidade Pública da Califórnia, nos Estados Unidos. Foram 316 sonhos sobre tristeza, felicidade, poderes místicos, culpa, inspiração, experiências artísticas. Maior parte associaram as mensagens como positivas, vozes de espíritos protetores, anjos. Esses depoimentos e relatos não são considerados puramente psicológicos, resultantes de repressão, idealização, projeção, recalque e outros. A análise do conteúdo dos sonhos místicos conclui que são extremamente positivos, com abundância de interações sociais amigáveis, emoções felizes e boas perspectivas.

Depois de ter sonhos de simbologia promissora, uma participante concede dinheiro a moradores de rua em gratidão ao sonho que fortaleceu sua fé em Deus intensamente. Da mesma forma, procedem, no Brasil, os participantes de religiões índio-afro-europeu; dão pequenas quantias em dinheiro aos que vivem nas ruas e praças em agradecimento aos bons anúncios dos sonhos; vestem-se de branco, tocam o sino convocando bons tempos, dão flores, frutas e alimentos aos mares, aos rios, à terra, como no Japão, Índia, EUA, Inglaterra dos druidas místicos. Eternamente, o sonho preconiza a tradição, os rituais. A rainha Elizabeth da Inglaterra, em 4 de junho de 2012, comemorou seu Jubileu de Diamante, passeou de barco no rio Thames, vestida de branco; soltaram foguetes, soaram o sininho como se faz em celebrações de umbanda brasileira – sinal de que estamos mais ligados do que imaginamos em matéria de rituais traçados pelos sonhos. As culturas parecem antagônicas, mas, na verdade, têm, fundamentalmente, práticas semelhantes, antigas, mundialmente.

Sonhar que está sendo arrastado pela turbulência das ondas marítimas, não tem nexo apenas com uma situação de caos e dificuldade na vida em vigília, como afirma Hartmann, seguindo a maneira Freud de interpretar os sonhos. Essa é uma interpretação possível, dentro de uma cultura específica. Cada interpretação atende a seu círculo social, gregário, identitário. As tradições epistemológicas psicanalíticas, por exemplo, explicam os sonhos ao seu modo: traumático, neurótico, arquétipos, processos inconscientes. Entretanto, o fato de estarmos dentro de uma tradição científica, argumentativa e racional não significa que possamos interpretar absolutamente a natureza dos sonhos, com metodologia ou direção única, universal.

As narrativas oníricas, suas mensagens em códigos produzem músicas, inventos, decisões, orientações em geral para beneficiar pessoas. Einstein afirmava que o conhecimento decisivo vinha da inspiração, do silêncio, da imaginação e não do conhecimento. O silêncio criativo é grande patrimônio da linguagem onírica. Pensar, pesquisar, falar, escrever, definir, categorizar produzem conhecimento. Esvaziar-se ou silenciar produzem soluções criativas e fórmulas de que o conhecimento limitado precisa para estabelecer-se com autoridade imponente. Enquanto os sonhos falam, os lábios permanecem fechados. O intelecto consciente, antropocêntrico é um grão do intelecto oculto, dentro do organismo humano. Desde os primórdios egípcio-hebraicos, advertia-se para o refrear da língua, o escutar dos sinais no corpo, no mundo, na natureza.

O pênis mergulha na vagina, nos lábios e ânus; a língua enrosca-se em outra língua, são imagens, metáforas, metonímias do silencioso para expressar que existe uma necessidade de ligação, de cópula com hábitos de vida mais sadios. Na perspectiva religiosa afro-brasileira, pênis simboliza o deus Exu, o qual vive na terra e no universo para introduzir o sêmen da informação e copular com a terra infernal dos humanos. Sexo simboliza ligação com o divino. Sonhos com relação sexual, casa, criança, assassinato, sangue, sequestro e nudez, por exemplo, indicam necessidade de reequilibrar-se, encontrar hábitos de vida harmônicos sadios, “divinos”. Isso se realiza a partir de tratamentos com remédios, folhas, terapias diversas, festas, ofertas e rituais de encontro mais íntimo com os segredos e mistérios ocultos da natureza. As narrativas oníricas, portanto, produzem a etnicidade: a cultura, a culinária, as roupas, o jejum alimentar e sexual. Pessoas se vestem de branco como a rainha da Inglaterra, evitam lugares inóspitos, cumprem silêncio filosófico-comportamental na condição de membros das religiões índio-afro-católicas brasileiras. A palavra oculto significa o que está por ser descoberto pela ciência. Assim, avançam as descobertas e pesquisas laboratoriais na ansiedade de descobrir o oculto, que existe na natureza e no plano da ignorância humana.

“A Jurema quando nasce, a ciência ela já traz”. Essa frase da música cantada no culto sagrado de mestra Jurema Ritinha, no Recife, revela que o conhecimento praticado pelos cultos com saberes milenares, intuitivos, hiperracionais são enunciados do transe, da mente em sono profundo; são templos de cura das doenças; lugares de conselhos e orientações – casas de religiosos de Catimbó, Umbanda, Candomblé, Jurema, Nkisses, Exus, Orixás, Caboclos, todos brasileiros, mas em todo o planeta é assim. Não importa o nome das práticas. A denominação varia conforme a região, a língua, porém todos têm a mesma função: a de resguardar a dignidade, a saúde, a compreensão, a conduta ética, o equilíbrio das pessoas. Evidentemente que existem falhas humanas, abusos, subjetividades interseccionando os processos de real equilíbrio. Cada um desses espaços religiosos brasileiros guardam semelhanças e diferenças de procedimentos entre si. Esses cultos são ciência do presente, passado e futuro, nos quais as sacerdotisas e os sacerdotes operam com os estados mentais do sono, do transe e da vigília. Assim, nascem comunidades religiosas, aparentemente heterogêneas, mas baseadas na ancestralidade universal.

Atualmente, quando alguém sonha com corda transformando-se em cobra, repete uma narrativa mítica, bíblica, quando Moisés e Aarão, buscando liberdade diante do rei, lançam ao chão uma vara que se transforma em cobra. Uma narrativa universal que transpõe o tempo. Entretanto, a cobra, se vermelha e preta, tem um significado, se azul e dourada, tem outro, de acordo com os códigos orais religiosos umbandista-candomblecista no Brasil. Pode indicar traição, saúde, êxito, mudança, de acordo com o contexto do sonhador. Aqui, o arquétipo (ou imagem arcaica) foi utilizado para ampliar significados de novas necessidades pessoais. O vermelho e o preto da cobra se referem a fogo, mas também à terra. Tal simbologia se dirige à necessidade votiva de proteção pelos elementos físico-químicos fogo-terra do deus Exu enviado por Omolu, deus da cura de doenças ósseas, sanguíneas e de pele. Este conhecimento não é patrimônio de africanos, brasileiros, pretos, brancos exclusivamente; é uma energia telúrica da humanidade, adquirida através de exercícios, disciplina, renúncias, perseverança, silêncio mental, sono, transe e sinais. Heráclito dizia que a vida fala por sinais. Então, cada sinal onírico solicita um tipo de ritual, seja uma oferta para a terra, ar, fogo, água, florestas. As ofertas podem ser flores, frutas, verduras, alimentos em geral. Cada imagem simbólica do inconsciente é interpretada como uma mensagem do elemento ar (Lemba), fogo (Zazi), Água (Logunedé), terra (Omolu).

E o ciclo se repete. Após tais imagens mentais com Omolu e outros arquétipos, são realizadas terapias através de banhos, jejum sexual e alimentar. São práticas filosóficas milenares, herança oculta, eterna. As energias calor, eletricidade, água, ar compõem o organismo de todos os seres vivos produzindo comunicação sobre profilaxias e interação com o meio ambiente. Segundo a referida tradição religiosa, os deuses são forças da natureza chamados Orixás que estão em todos os seres humanos: travestis, mendigos, ricos, gente de toda cor, europeus, japoneses, norte-americanos, brasileiros. “O self possui uma religiosidade natural”. Nos escritos junguianos, a religião é a meta, o ideal humano, a fusão entre ego e self, entre consciente e inconsciente com seus símbolos arquétipos e mitos constituindo a individuação, o ser integral. Quem sabe seja uma idealização, porém, em algum lugar e momento, um ser integral deve se desenhar.

Nossa psique faz parte da natureza e o seu enigma é igualmente sem limites. Assim “não podemos definir nem a psique nem a natureza – afirma Jung. Podemos simplesmente constatar o que acreditamos que elas sejam e descrever da melhor maneira possível como funcionam”. Os enigmas da psique são infinitos, a começar pelo seguinte sonho que me foi relatado por uma pessoa cujo nome prefere manter em sigilo: ela caminhava nua na praia, seguia para uma caverna e, em seguida, ouviu o nome Iemanjá. Interpretou que a nudez seria necessidade de proteção e atenção com o corpo, com a saúde, por isso era preciso observar mais as ameaças à integridade física. O sonho seria um aviso para usar preservativo sexual. Vivia essa tensão nesse momento. O mar, na tradição religiosa brasileira, é a personificação da deusa Iemanjá, responsável pelo enunciado de carinho, cuidado e manutenção da vida, buscando equilíbrio e bem-estar diante das dificuldades existenciais nas quais todos estamos imersos.

“Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia” – dizia Shakespeare no século XVI. Ainda na peça dramática, Hamlet, o espírito do rei falecido vem avisar a seu filho “enlouquecido” e sucessor que tomasse cuidado com seus algozes, e lhe diz quais procedimentos adotar dali em diante. A literatura, o cinema, as novelas, as artes plásticas se responsabilizam mais que a ciência pelo tema sonhos-mente, destacando, muitas vezes, seu papel de guardião, conselheiro, “ancestral milenar”.

Existe uma lista infindável de filmes sobre o assunto, tanto nos Estados Unidos e na Europa quanto no Japão. O mundo desenvolvido já descobriu que o corpo é capaz de proezas, basta conhecê-lo, ouvir, planejar. No quesito planejamento, os referidos países têm sido bem-sucedidos. Descobriram que as complexidades desconhecidas do corpo produzem lucro, cultura, arte e fórmulas científicas. Da linha suspense dos filmes norte-americanos, nascem os dividendos com a produção da indústria cinematográfica norte-americana, tornando-a mais opulenta, lucrativa e hegemônica em função das pesquisas e experiências sobre sonhos. A telessérie Medium, exportada para o mundo, é um exemplo de tamanha fartura dos Estados Unidos. A atriz Patrícia Arquette interpreta uma investigadora policial que, ao dormir, visualizava todas as cenas de crimes cometidos: assaltos, assassinatos, infidelidades conjugais, sequestros, tramas sórdidas. Com explosão de sucesso, a série foi exibida de 2005 a 2011 pelas companhias NBC, CBS, Universal Chanel e outras empresas midiáticas. Esse boom empresarial demonstra o quanto o tema sonhos é vigente, pragmático, já não cabem falácias de ser assunto de supersticiosos e povos atrasados. Ao contrário, é objeto científico, embora no Brasil haja pouca atenção e produções acadêmicas desse campo do conhecimento. Constata-se, de forma geral, a pequena quantidade de estudos destinados especificamente ao tema”. Enfim, devemos método de apreensão em pesquisa ao tema sonhos, para melhor abordá-lo, para gerar know how e renda. No exterior, inúmeros são os artigos, livros, filmes, publicados acerca desse objeto para o conhecimento.

Os sonhos podem ser chamados de religiosos, mas, fundamentalmente, são terapêuticos, harmonizadores, éticos, morais. Longe de ser uma moral essencial, castradora, eterna, mas uma moral mutável que se faz e refaz conforme as circunstâncias e desafios – uma moral telúrica, pragmática. O objetivo é a adaptação, fortalecimento e mudança do corpo para o enfrentamento cotidiano. Abstinência momentânea de sexo e drogas, por exemplo, tem mais caráter de manutenção da saúde integral e menos de aspecto religioso. As respostas estão dentro dos seres humanos de qualquer lugar, estão na subjetividade silenciosa e meditativa – como anticorpos e células que se renovam para se defenderem de agressões ao organismo e à coletividade. Quem sonha, reside em uma cidade, em um território político e econômico, tem um corpo físico e psíquico para administrar. E, sem dúvida, o grande suporte filosófico, existencial e orgânico reside nas expressões oníricas. Portanto, é preciso bem administrá-las.

Referências:

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2. Bacon F. Novum Organum (XLI). São Paulo: Abril Nova Cultural; 2000. (Os pensadores).

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7. Hartmann E. The nature and functions of dreaming. New York: Oxford Universal Press; 2011.

8. Festa da mestra Ritinha da Rua da Guia. 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=rvDlXV5DS44

9. Good News Bible: The bible in today`s english version. New York: American Bible Society; 1976.

10. Jung C G. Psicologia e alquimia. Petrópolis, RJ: Vozes: ????. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 12). Originalmente publicado em alemão em 1944/1994.

11. Shakespeare W. Romeu e Julieta; Macbeth, príncipe da Dinamarca; Otelo, o mouro de Veneza; Traduções de Cunha FCA, Mendes O. São Paulo: Abril Cultural; 1981.

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16. Rodrigues N. A vida como ela é... O homem fiel e outros contos. São Paulo: Companhia das Letras; 1992.

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