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Publicada em 30/07/2020 às 08h04. Atualizada em 03/08/2020 às 11h38

Manifestações orais da COVID-19

Estudo italiano mostra gengivite e úlcera podem estar relacionadas ao novo coronavírus.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Desde dezembro de 2019, o mundo enfrenta a pandemia da COVID-19, causada pelo SARS-CoV-2, o qual teve seu surgimento em Wuhan, na China. O coronavírus é capaz de causar uma Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), levando a óbito milhares de pessoas. Os sinais e sintomas mais comuns incluem cefaleia, febre, tosse, dispneia, diarreia e pneumonia. Contudo, com o aumento crescente de indivíduos infectados, novos sinais e sintomas estão sendo descobertos, existindo uma variação das manifestações entre os indivíduos infectados. 

Autores, na Itália, relataram implicações dermatológicas em pacientes infectados e, a partir de então, outros eventos dermatológicos foram descritos, como vasculite, erupção cutânea, urticária e lesões semelhantes às da varicela (catapora). Em abril de 2020, estudos descreveram lesões em cavidade oral, como possíveis manifestações da COVID-19. Foram observadas lesões ulceradas em lábios; lesões compatíveis com eritema multiforme; gengivite descamativa e múltiplas úlceras amareladas com um halo eritematoso (avermelhado) em região de palato duro (céu da boca), que se assemelhavam a lesões herpéticas. Essas manifestações podem estar associadas ao aumento de citocinas que podem resultar em danos teciduais, principalmente em mucosa. Apesar dessa explicação, não foi possível confirmar sua relação com o novo SARS-CoV-2.

  

A partir dessa perspectiva, diversas discussões surgiram no meio científico, assim como outros relatos foram publicados. Alguns deles, propunham a hipótese de que as lesões orais seriam manifestações secundárias resultantes da imunossupressão, ou até mesmo reações do tratamento medicamentoso para a COVID-19. Contribuindo com essa hipótese, em um dos relatos o paciente infectado que se encontrava internado na UTI, apresentou lesões de uma possível candidíase oral em região de língua, associada com áreas de atrofia, classificada em língua geográfica severa. Caso fosse confirmado esse diagnóstico, seria um quadro clássico de imunossupressão. Infelizmente nesses pacientes não é viável realizar a biópsia de tais lesões, devido à sua condição de saúde, tornando impossível confirmar a real relação das lesões com o vírus, até o presente momento. Além disso, a não realização do exame intraoral na internação hospitalar faz com que muitas lesões orais passem despercebidas.

Outros sintomas podem ser citados na cavidade oral, como a disgeusia/ageusia que se caracteriza pela alteração ou ausência do paladar, respectivamente, e a xerostomia, que compreende a sensação de boca seca, muitas vezes em decorrência da diminuição do fluxo salivar. 

Acredita-se que essas sensações estejam relacionadas com a anosmia (perda do olfato), devido à dificuldade do paciente em distinguir sabores em ambos os casos. Por isso, a perda de paladar pode ser uma reação secundária e não uma alteração real do sistema gustatório. Entretanto, existem pacientes que relataram ageusia na ausência de distúrbios olfativos, neste caso pode ser considerada uma manifestação oral associada à COVID-19.

 Uma das possíveis explicações dessa sintomatologia se deve ao fato de as papilas gustativas possuírem receptores gustativos que são amplamente distribuídos na cavidade oral, principalmente no dorso de língua. Mas além dessas papilas, o dorso lingual também é repleto de receptores da Enzima Conversora da Angiotensina 2 (ECA2), a qual o SARS-CoV-2 se liga para entrar na célula hospedeira. Dessa forma, os receptores gustativos também podem ser infectados, e consequentemente haverá a perda do paladar. A disgeusia/ageusia e a anosmia já são consideradas sintomas característicos da COVID-19, mas ainda não há tratamento específico para esses sintomas. Todavia, são reversíveis e desaparecem duas semanas após a recuperação do paciente.  

Sobre a xerostomia, acreditam estar interligada com a própria alteração no paladar, pois o sabor é um dos principais estimuladores da produção salivar. Em um estudo, foi apontado que 50% dos indivíduos infectados que apresentavam alteração de sabor também demostraram ter hipossalivação e xerostomia. 

Por se tratar de um novo vírus, a ciência ainda está no processo de compreender como esse vírus funciona e se manifesta no corpo humano. Todos os profissionais de saúde, assim como os cirurgiões-dentistas estão fazendo parte da construção de um novo conhecimento, e da mesma forma aprendendo com os novos registros e publicações que estão surgindo. Por isso a importância da avaliação do paciente como um todo, pois deve-se compreender e saber relacionar manifestações orais dos pacientes com sua condição sistêmica, orientando da melhor maneira possível. Para que isso seja possível, é importante ressaltar a seriedade em executar uma anamnese e um exame físico de forma efetiva e criteriosa. 

Referências:

1. Habibzadeh P, Stoneman EK. The Novel Coronavirus: A Bird's Eye View. Int J Occup Environ Med. 2020;11(2):65-71.

2. Martín Carreras-Presas C, Amaro Sánchez J, López-Sánchez AF, Jané-Salas E, Somacarrera Pérez ML. Oral vesiculobullous lesions associated with SARS-CoV-2 infection. Oral Dis. 2020;1-3. 

3. Rocha AL, de Souza AF, Resende RG. Current evidence on possible oral manifestations of SARS-CoV-2 infection. Oral Dis. 2020; 00:1-3.

4. dos Santos JA, Normando AGC, Carvalho da Silva RL, de Paulo RM, Cembranel AC, Silva ARS, Guerra ENS. Oral mucosal lesions in a COVID-19 patient: New signs or secondary manifestations? Int J Infect Dis. 2020; 97:326-328.

5. Costa KVTD, Carnaúba ATL, Rocha KW, Andrade KCL, Ferreira SMS, Menezes PL. Olfactory and taste disorders in COVID-19: a systematic review. Braz J Otorhinolaryngol. 2020; 00:1-12.

6. Vinayachandran D, Balasubramanian S. Is gustatory impairment the first report of an oral manifestation in COVID-19? Oral Dis. 2020; 00:1-2.

7. Biadsee A, Biadsee A, Kassem F, Dagan O, Masarwa S, Ormianer Z. Olfactory and Oral Manifestations of COVID-19: Sex-Related Symptoms-A Potential Pathway to Early Diagnosis. Otolaryngol Head Neck Surg. 2020;00: 1-7. 

8. Sinadinos, A., & Shelswell, J. (2020). Oral ulceration and blistering in patients with COVID-19. Evidence-Based Dentistry, 21(2), 49–49. doi:10.1038/s41432-020-0100-z 

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