podcast do isaúde brasil

Publicada em 04/05/2020 às 12h19. Atualizada em 04/05/2020 às 16h16

Manifesto da vida como força

Pensando o Brasil em tempos de coronavírus.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Há dias tenho preferido escutar da TV programas que revelem um pouco do Brasil que vivemos, transitando entre canais educativos, vejo na tela da tevê uma grande engenharia hidrelétrica construída a pouco mais de 9 anos, dividia de margem-a-margem um grande rio, o Rio Xingu. O rio, fonte de sobrevivência de uma cidade do interior chamado Altamira, município do Pará, foi impedido de sua força, força de levar a sobrevivência de um povo ribeirinho, que mantinha sua renda com a pesca que fazia no Rio Xingu, hoje muito reduzida. Lugar de confraternização, de produção de vida, de sentido para a produção. Assistindo os impactos causados pela usina, um entrevistado diz uma frase que me salta atenção, quando perguntando qual prejuízo os viventes daquela área tiveram, ele responde “o prejuízo de chorar”.

Hora, mas que prejuízo seria esse, o de chorar? Bem, confesso que a frase ocupou meus pensamentos, só depois percebi que as lutas ali travadas deixaram como último recurso a masculinidade o ato de chorar. Hoje, depois de ter ouvido aquele dizer, compreendo quais prejuízos “chorar” tem produzido hoje no mundo, na América do Sul, no Brasil, na Bahia em Salvador. Estamos atravessando o impossível, atravessando a vida com isolamento, atravessando a vida com desespero, um desespero contido a quatro paredes ou sem elas. 

Tomados por notícias, por resultados científicos da experiencia com o organismo vivo, produzimos leis de preservação de vidas, exercitamos segui-las a todo modo. Essas leis operam com a notícia da eminência do COVID19, que tem nos sugerido mais rigor com o autocuidado, já as decisões do Estado/Nação cobram nossos corpos. Poderia ter dito “cobram de nossos corpos”, mas disse “cobram nossos corpos”, nossos corpos sem vida, contaminações em massa por uma necessidade neoliberal de um Governo presidencial fadado a sua necessidade de fazer morrer, aqui, tomo como referência as pistas dadas pelo filosofo camaronês, Achille Mbembe, quando nos alerta sobre a política de morte que chamou de necropolitica.

Do Rio Xingu ao COVID-19, enfrentamos uma grande zona de guerra, nem o rio nem o vírus, mas a necropolitica de um Estado/Nação perverso com as pessoas de cor, com as pessoas das favelas/comunidades, com as pessoas das margens/bordas das cidades. Lá no Xingú o risco de uma outra vida, da pobreza, da necessidade de sair das margens do rio, a angústia de perder parte de sua história por decisões econômicas, aqui, hoje, em Salvador-Bahia o covid19 e todas e todos nós negras e negros mais uma vez apontados pela significante morte. Sabemos que no curso da história de nossa constituição enquanto república, dividimos a cena com o mais desumano das tragédias na invenção da “civilização”, a escravidão. 

"Do Rio Xingu ao COVID19, enfrentamos uma grande zona de guerra, nem o rio nem o vírus, mas a necropolitica de um Estado/Nação perverso com as pessoas de cor, com as pessoas das favelas/comunidades, com as pessoas das margens/bordas das cidades."

Não são os vírus os inimigos nesse momento, não estamos em guerra com o ‘ancestral do vírus’, estamos em guerra intermitente com as decisões do Estado e com as decisões de representantes da “terceira linha neopentecostal”, estamos em guerra com a política que acende genocida, que não garante a sobrevivência dos mais pobres, que não se põe em atenção a estrutura racista da qual todas nós estamos contextualizadas. 

O contexto aqui é de travessia do que chamou Cida Bento de “Pacto Narcísico da Branquitude”, o silenciamento frente aos operadores de racismo no mundo. Precisamos dizer do racismo. Estão insistindo na morte, na morte de inúmeras pessoas no contexto de raça gênero e socioeconômico. 

Precisamos perguntar nas zonas mais vulneráveis, precisamos atuar com mais emergência, com as pessoas em situação de rua, as negras e negros presos, os quilombolas e indígenas, as trabalhadoras de “buzu”, as/os trabalhadoras/os que atuam na limpeza de nossas cidades, nos condomínios de luxo, como babás, acompanhantes de idosos, e outras mais. Precisamos perguntar lá onde a notícia é uma parte, a mais dura, asfixiante: trabalhe em exposição ao invisível. 

Atuar com vinculações, aproximação incorpórea para esse momento. Democratizar o acesso a água, as notícias é que em algumas comunidades, essa substância garantida em nossa constituição não está chegando. Precisamos acionar as nossas micropolíticas, performar revoluções: é necessário parar, por mais que seja duro dizer, é necessário parar. Parar os modos operante capital, sair das instituições, sair dos mecanismos onde gira a economia, inspirados ao capital e é difícil fazer assim.

Me convidaram a dizer sobre a saúde da população negra em tempos de “COVID-19”, o que trago são notícias de seleção desigual de quem vive e de quem morre feitas por políticas de estrago, de genocídio (Mbembe, 2019). Onde está o valor/dinheiro/R$600,00 aprovado pelo Estado para manutenção da vida em tempos de COVID19? Para quantas, quantos moradores de rua há máquinas de respiração, salas de UTI’s? Quais as medidas tomadas nos presídios brasileiros do que diz respeito a saúde e bem-estar das pessoas em reclusão social? Onde se abrigaram os moradores em Situação de Rua? Onde vocês viram nos condomínios, políticas que reflitam no benefício dos trabalhadores que limpam elevadores, micro-academias e os espaços comuns dos prédios? Onde estão os afetos, agrupamentos de palavras amorosas para lidar com o impossível? 

As notícias que trago, tendem a pôr interrogação no fim das frases, como na usada pelo ex-morador das margens do Xingú: “qual o prejuízo de chorar?”. Nesses tempos, devemos tomar essa pergunta como pista para acionarmos pequenas estratégias de enfrentamento:

Para quem construíram o Xingu? Para quem o chefe do Estado pede que saia de casa agora? O que tem fora da minha casa? Para quem devo ficar em casa?  Eu tenho casa? Com quantas pessoas moro? Onde moro? Tenho quantas refeições por dia? Eu bebo água? Que tipo de água? Onde estão os postos de saúdes mais próximos da minha casa? Há quantas profissionais lá agora? 

Aqui, trago notícias que deveriam nos ensinar sobre nosso Brasil que desde muito tempo demonstramos força, greves protagonizadas por mulheres e homens negras, para ser mais preciso, trago notícias do Historiador João José Reis (2019), que em seu livro “Ganhadores: a greve de 1857 na Bahia” nos revela as tecnologias de existência que inúmeras pessoas escravizadas produziram/produzem para investir em outras políticas, políticas de existência, para isso foi compreendido a greve, a revolução de um povo, a parada, parar o trabalho/trabalhador, recolher-se em palhas como fez “Obaluaê”, resguardar-se. 

Termino o texto evocando a Ângela Davis que, inspirada pela Lélia Gonzalez, produziu a seguinte frase, “A liberdade é uma luta constante” e complementar a essa fala, diria que há um otimismo objetivo e mecânico presentes em muitas situações quando se trata da liberdade, “mas o otimismo deve ser o sentimento de que acompanha o compromisso revolucionário e o combate (Fanon, 1969, p.209).”

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