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Publicada em 26/12/2013 às 00h00. Atualizada em 26/12/2013 às 07h47

Medo e coragem: como esses dois sentimentos convivem na sociedade atualmente

Rene Azevedo explica as nuances da rede humana relacionada à rede social e suas implicações.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Gostaria de iniciar este texto explicitando o lugar de onde pretendo me colocar, tendo em vista um possível diálogo sobre o medo e seus derivativos na existência humana. Concebo o medo, a imprudência e a coragem – conceitos-chave sobre os quais iremos conversar nesse texto – dimensões da experiência humana e que, portanto, serão tocadas numa perspectiva fenomênica e existencial, quer seja, pessoal no devir (existência) humano. A ideia é que nos debrucemos de uma forma respeitosa para alcançarmos uma problematização desse tema preservando as diferenças pessoais e tentando alcançar uma maior proximidade da nossa realidade social atual.

"Posso descrever o medo como instintivo, relacionado à preservação e à manutenção da vida; quando nos sentimos ameaçados ativamos funções psicológicas elementares objetivando a defesa e, até mesmo, a fuga".

O medo pode ser visto e discutido de várias perspectivas. Posso descrever o medo como instintivo, relacionado à preservação e à manutenção da vida; quando nos sentimos ameaçados ativamos funções psicológicas elementares objetivando a defesa e, até mesmo, a fuga. Nesse caso, o ser humano é tomado apenas na sua dimensão biológica “animal” em relação ao seu ambiente.

Outra forma de entendermos o medo é concebê-lo numa dimensão subjetiva social e, portanto, humana, referenciá-lo na experiência social, resultante de um aprendizado relacional, grupal e coletivo, cuja concepção refere-se aos valores, às crenças e às atitudes, construídos no cerne de uma cultura socializada por um povo, grupo e família para os seus membros, via suas respectivas instituições sociais, ficando a sociabilidade e a atribuição de sentido e significado das nossas próprias experiências um exercício de autonomia e consciência da própria existência.

Pensando um pouco na forma como (con)vivemos atualmente em sociedade, mediante a ascensão das relações virtuais muitas vezes funcionando em detrimento das relações humanas reais (convivência), ficam evidentes as diversas estratégias ideológicas na direção da alienação dos reais desejos e necessidades humanas, justificando o consumo e o triunfalismo material como meta e solução para autorrealização. Havendo, assim, uma completa apropriação da existência e vida humanas em prol de um modelo de produção excludente e gerador de desigualdade desde sua concepção. 

Os valores que resultam dessa lógica nos colocam como responsáveis pelo sucesso/insucesso da nossa condição socioeconômica, ademais, de nos mantermos subjetivamente massificados na condição de consumidor como valor maior que nos diferencia como ser. Esse imperativo gera uma liberdade de incertezas e coloca o ser humano numa completa condição de vulnerabilidade social e psíquica. É desse lugar de desamparo e completa fugacidade das relações pessoais que emergem vários dos transtornos de ansiedade, de medo, alimentares etc.

Diante desse sombrio panorama, emergem formas de enfrentamento não muito saudáveis. O consumo de especialistas, de medicamentos, de receitas tantas, quer seja, a busca de soluções mágicas que gerem prazer e felicidade constantes, principalmente na atual névoa da virtualidade que surgiu com o advento das chamadas redes sociais. Cada pessoa interage e se relaciona com medo (insegurança) da sua autoimagem e, consequentemente, busca formas de controlar a mesma acreditando que o seu acesso e encontro com o “outro” depende do controle da “qualidade” da sua imagem. 

"Cada pessoa interage e se relaciona com medo (insegurança) da sua autoimagem e, consequentemente, busca formas de controlar a mesma acreditando que o seu acesso e encontro com o “outro” depende do controle da “qualidade” da sua imagem". 

Ainda no esteio dessa forma de organização social atual, o medo surge também de uma distorção na forma de as pessoas se relacionarem, pois, como elas não se relacionam de uma forma saudável e confiável consigo mesmas (autoimagem) não conseguem se relacionar de uma forma saudável com o outro, logo, os sintomas dessas distorções na relação geram um medo irreal e, muitas vezes irracional, produzindo um desencorajamento para um verdadeiro conhecimento mútuo e, consequentemente, de uma assunção das nossas falibilidades e imperfeições que permeiam e sustentam as nossas relações pessoais e sociais reais.

Nessa mesma linha de pensamentos podemos pensar na imprudência como uma distorção na leitura (percepção) de si, do outro e do mundo em relação aos seus posicionamentos e posturas na vida. Entendo que, a não possibilidade de saber, sentir, se relacionar e dialogar consigo mesmo, dificilmente possibilitará uma relação saudável com o outro e a consequente atualização da condição humana. As fronteiras pessoais nessa condição de inconsciência, quer sejam suas ou do outro, tenderão a ser desrespeitadas incorrendo em riscos para ambos.

Nessa direção de entendimento, as redes sociais assumem um lugar de menos implicação e investimento real na relação e, portanto, exigem menos encorajamento na “autorrevelação” íntima aos seus pares, uma vez que se controla o que se mostra como também o que se deseja receber – dar e receber feedback. 

Como pensar em reverter essa cultura da desconfiança, do medo, da violência, da solidão e da impossibilidade de viverem uma condição comunitária integral? Entendo que todos os valores que sustentam esse momento histórico foram criados e são sustentados social e politicamente, via degradação da arte de pensar, criar e sentir livremente condições indispensáveis à vida humana e, portanto, reversíveis.

Urge, portanto, um maior investimento nas relações pessoais, na tradição dos pequenos grupos, na democratização e universalização dos direitos humanos. Esses investimentos darão mais condição às pessoas para dialogarem de uma forma mais honesta e respeitosa, criando novos espaços reais para se falar de forma pessoal na tentativa de resgatar a coragem – elemento gerador de abertura às relações humanas – indispensável à autorrealização humana em comunidade. 

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