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Publicada em 09/12/2016 às 00h00. Atualizada em 09/12/2016 às 12h12

Motricidade Orofacial: tão presente no seu cotidiano e você nem sabe!

A fonoaudióloga Mariana Xavier explica as várias estruturas e funções envolvidas nessa área da fonoaudiologia.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Muito mais que um termo complicado, a Motricidade Orofacial é uma das diversas áreas em que o fonoaudiólogo pode atuar. Ela permite descrevermos uma extensa lista de alterações que estão muito presentes no nosso dia a dia, mas que muitas pessoas desconhecem ou às vezes acham que não têm solução.

O Comitê de Motricidade Orofacial da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia descreve essa área como sendo “o campo da Fonoaudiologia voltado para o estudo/pesquisa, prevenção, avaliação, diagnóstico, desenvolvimento, habilitação, aperfeiçoamento e reabilitação de alterações estruturais e funcionais das regiões da boca (oro) e da face (facial), bem como da região do pescoço”.  Quando falamos de aspectos estruturais, estamos nos referindo à musculatura da face e posição dos lábios, da língua e das bochechas e as funções que essas estruturas desempenham: respiração, sucção, mastigação, deglutição e fala, que formam, juntos, o Sistema Estomatognático.

Entre alguns comprometimentos nesse sistema, podemos citar os mais comuns na prática clínica em que se faz necessária a intervenção fonoaudiológica. Tais alterações podem ocorrer em todas as faixas etárias e em diferentes fases da vida.

- Mães com dificuldade de amamentar: para conseguir se alimentar, o bebê precisa posicionar corretamente as estruturas da boca e face, diminuindo futuros problemas com respiração, mastigação, deglutição e fala. Mamar no seio materno traz benefícios nos aspectos imunológicos e nutricionais, além de fortalecer a musculatura orofacial do bebê;

- Bebês com dificuldade de sugar: inúmeros fatores podem interferir na sucção satisfatória, tais como incoordenação entre respirar-sugar-deglutir, posição inadequada da mãe e/ou bebê, ausência ou redução da força do reflexo de sucção, os lábios não conseguem se fechar ao redor do bico do seio, movimentação indevida da língua e mandíbula durante a amamentação. É preciso estimular os padrões adequados de respiração, sucção e deglutição, facilitando o aleitamento materno;

- Chupar dedo e/ou chupeta por longo período de tempo: esse hábito pode causar alterações no crescimento facial, na posição dos dentes, na musculatura orofacial e trazer danos às funções de respiração, mastigação e deglutição, além de distorções na fala (dependendo do tempo, duração e intensidade em que ocorrem). A necessidade da sucção pode ser satisfeita com o correto aleitamento no seio materno; 

- Bebês/Crianças com seletividade alimentar: pode haver preferência por se alimentar com líquidos, pastosos e/ou alimentos liquidificados, não porque gostam, mas para não precisarem fazer muita força na mastigação, talvez por redução na força dos músculos mastigatórios;

- Respiração oral: é a respiração que ocorre, na maioria das vezes, pela boca; dormindo ou acordado. O fato de não utilizar ou utilizar pouco o nariz para respirar pode acarretar danos às estruturas e funções da boca e da face, no sono, na alimentação, no processo de aprendizagem durante a fase de alfabetização (memória, concentração, atenção), na audição e na voz também; 

- Ronco: é o ruído que ocorre com a passagem de ar pela garganta ao respirar, em função de algum estreitamento, que pode ser ocasionado por relaxamento e/ou enfraquecimento dos músculos que vibram com a passagem do ar, excesso de peso, o mau posicionamento da mandíbula ou pela obstrução parcial das vias aéreas superiores (crianças podem roncar por ter amígdalas e/ou adenoides aumentadas). Em demasia, o ronco pode provocar paradas respiratórias e contribuir para o surgimento da Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (obstrução das vias aéreas superiores). A fonoterapia consiste em exercícios para fortalecer a musculatura da boca e garganta;

- Ceceio: é a projeção da língua entre os dentes da frente durante a produção de alguns sons da fala;

- Língua presa: é uma alteração muito comum hoje em dia, mas pouco detectada. O “fiozinho”, embaixo da língua deve ser avaliado pelo fonoaudiólogo, através do Teste da Linguinha após o nascimento, para detectar precocemente qualquer alteração e não comprometer a maneira de sugar, engolir, mastigar ou falar;

- Bruxismo: hábito de ranger os dentes, que provoca alterações na função de mastigar; 

- Onicofagia: hábito de roer as unhas, que gera alterações na mastigação;

- Disfunções de ATM (problemas na articulação temporomandibular): podem ocorrer por perda/desgaste dos dentes, dentadura mal adaptada, hábito de roer unhas, ranger dentes, morder objetos, mastigação unilateral, tensões musculares (apertar os dentes). O fonoaudiólogo utiliza técnicas para readequar as funções e atenuação/eliminação dos sinais e sintomas, além da conscientização do paciente;

- Dificuldade para mastigar: mastigar de um lado só pode causar assimetria facial, causando alteração na mordida e sobrecarga na articulação temporomandibular do lado que não mastiga. É preciso se alimentar tranquilamente, sem pressa e sem distrações para uma correta mastigação. Aqueles que comem rápido, mastigam pouco, têm maior propensão a alterações gástricas, como por exemplo, o refluxo gastroesofágico, já que o estômago precisará produzir mais suco gástrico para digerir aquele “pedaço” que não ficou bem triturado;

- Disfagia: dificuldade ou ausência de deglutição. Pode ocorrer em qualquer parte do trato digestivo, entre a boca e o estômago, pelo comprometimento nos músculos da face, da língua, da faringe, do esôfago, mastigatórios e/ou respiratórios. Entre os sintomas mais comuns, podemos citar a dificuldade para mastigar, de preparar e manter o alimento dentro da boca, falta de ar, engasgos, tosses e dor ao se alimentar, resíduo alimentar na boca após a deglutição, demora para engolir os alimentos, sensação de comida parada na garganta, voz alterada após a refeição, pneumonias de repetição (por entrada de alimento, saliva ou secreção no pulmão), perda de peso, desnutrição e desidratação. Esses sintomas podem surgir isolados ou associados. O tratamento é de fundamental importância. Após uma criteriosa avalição para identificar as alterações existentes, o fonoaudiólogo realiza exercícios para reestabelecer a deglutição, definir se há condições de o paciente continuar se alimentando por via oral (pela boca) e/ou indicar vias alternativas de alimentação, para evitar complicações respiratórias como pneumonias aspirativas e deficiências nutricionais;

- Deglutição atípica: projeção da língua ou funcionamento inadequado de alguma estrutura da face ao engolir;

- Fenda labiopalatina / lábio leporino: ocasiona alterações na mastigação, deglutição, sucção e fala;

 - Pós-traumas de face: acidentes de trânsito e com armas de fogo, quedas e agressões físicas que atingem o rosto, podem gerar alterações nas funções, a priori, de mastigação e fala, porque atingem, normalmente, os músculos do rosto, dentes e ossos da maxila e mandíbula. O tratamento fonoaudiológico promove o equilíbrio da musculatura do rosto, minimiza a dor e o inchaço e melhora a mastigação, fala e região cicatricial;

- Paralisia facial: a fonoterapia deve ser iniciada precocemente, a fim de evitar atrofia muscular. Os músculos da face são manipulados com o objetivo de reaprender as funções desempenhadas por eles antes da lesão;  

- Queimaduras: se na região do rosto e pescoço, podem dificultar a respiração, o movimento de abrir/fechar a boca, mastigar e engolir, por conta do enrijecimento da musculatura. A fonoterapia consiste em promover o equilíbrio da musculatura, prevenir cicatrizes e melhorar, assim, o desempenho das funções de respiração, mastigação, deglutição e fala, além da estética facial;

- Aparelho ortodôntico: os dois tratamentos estão intimamente relacionados e, em alguns casos, é de extrema importância o acompanhamento fonoaudiológico para a estabilidade do caso ortodôntico, evitando a ocorrência da má-oclusão novamente, depois de retirar o aparelho. Promovemos o correto posicionamento das estruturas orais para o funcionamento adequado das funções;

- Crianças com trocas na fala;

- Pós-cirurgia ortognática e pós-cirurgia bariátrica: readequação da sucção, mastigação, deglutição, respiração e fala;  

- Pacientes com acometimentos neurológicos: Síndrome de Down, Paralisia Cerebral;

- Sequelas de AVC (Acidente Vascular Cerebral);

 - Doenças Neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer;

- Sequelas de traumatismo craniano;

- Estética facial: otimizar o funcionamento da musculatura facial e do pescoço com fins estéticos, como rejuvenescimento facial e suavização das rugas de expressão;

- Câncer de cabeça e pescoço. 

O fonoaudiólogo pode auxiliar na habilitação e reabilitação de diversas doenças e distúrbios. Muitas vezes, faz-se necessário um acompanhamento multidisciplinar, em que o fonoaudiólogo pode atuar em parceria com outras especialidades, tantas quantas se façam necessárias, a depender do caso de cada paciente. Se identificou em você alguma das alterações descritas acima, não hesite em procurar um fonoaudiólogo para tirar suas dúvidas. Você será orientado e encaminhado para as avaliações necessárias antes de iniciar o tratamento.

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